Mérito: Será Que a Felicidade Precisa ser Merecida?

O conceito budista de “mérito” está vinculado aos ensinamentos sobre carma. Mérito refere-se ao comportamento construtivo e à repercussão cármica construtiva em nosso contínuo mental. São potenciais positivos que irão amadurecer em sentimentos de felicidade em diversas circunstâncias. Mas essa felicidade não é um direito adquirimos, uma recompensa, por termos sido bons, e ninguém pode nos dar essa felicidade. A felicidade é um resultado natural que surge por agirmos, falarmos e pensarmos de forma construtiva; sem raiva, apego, ganância ou ingenuidade.

O Conceito Budista de Mérito

No budismo, falamos muito na importância de gerar “méritos”. Porém, a palavra “mérito” pode causar muita confusão. O termo original em sânscrito, que é “punya”, e seu equivalente tibetano, “sonam”, quer dizer algo muito diferente de “mérito” no inglês (e português) ou “verdienst”, no alemão. Isso causa uma confusão, porque ao ouvir a palavra “mérito”, a associamos ao seu significado em nosso idioma.

Hoje não quero apenas dar uma palestra e passar informações, o que pode ser muito cansativo, tanto para vocês quanto para mim. Ao invés disso, gostaria que este fim de semana fosse mais no sentido de fazermos perguntas e tentarmos realmente pensar acerca dos assuntos envolvidos no tema. Vamos começar com algumas definições.

Segundo o Dicionário Oxford, a palavra “merit” [em inglês, “mérito” em português] pode ser um pronome que significa “a qualidade de ser particularmente bom ou valioso, especialmente de forma a merecer elogios e recompensas”. Mas pode ser também um verbo [ing. to merit, no português “merecer”] que significa “merecer ou ser digno de algo, especialmente de uma recompensa, punição ou atenção”, como em “você merece um bônus por ter trabalhado duro no projeto”. Essa palavra parece sugerir que acumulamos pontos por fazermos coisas boas, e depois de conseguir pontos suficientes, digamos 100 pontos, ganharemos uma medalha. Essa é uma ideia infantil, algo como a “medalha de mérito” dos escoteiros, e certamente não é o significado daquilo que traduzimos como “mérito” no budismo. A palavra alemã “Verdienst” é mais interessante e não tão infantil. Acho que deveríamos concentrar-nos em seu significado, em vez do significado da palavra na língua inglesa.

Prefiro traduzir o conceito da palavra sânscrita e tibetana como “potenciais positivos” ou “força positiva”, pois é algo que surge como resultado de atuarmos construtivamente e que então amadurece resultando em felicidade. Claro, analisaremos com mais profundidade o significado disso, pois existem três termos aqui que são bastante técnicos e específicos.

  • O que queremos dizer com “atuar construtivamente”?
  • O que queremos dizer com “felicidade”?
  • No que consiste o processo de “amadurecimento”?
  • Qual é a relação entre agir construtivamente e ser feliz? Por exemplo, eu poderia tentar fazer algumas coisas boas, mas poderia também não vir a ser muito feliz como consequência disso. Portanto, o que exatamente ocorre?

Primeiro, acho que precisamos analisar a ideia de “mérito” e de “Verdienst”. Qual é a relação desses termos com felicidade? Será que significa que precisamos “merecer” (to merit) ou adquirir o direito (Verdienst) à felicidade? Ter que “adquirir um direito” (Verdienst) significa que temos que trabalhar para depois receber o dinheiro, para depois sermos pagos. Da mesma forma, nos esforçamos para sermos bons e somos pagos com felicidade. Será que é disso que se trata? O que quer dizer merecer felicidade? “Tenho o direito de ser feliz. Paguei, então adquiri o direito de receber um bom produto. Se não recebi um bom produto, é porque fui enganado”. Essas são questões sérias em relação aos termos usados na tradução, já que, obviamente, “mérito” não pode significar obter pontos para ganhar uma competição. Consideremos algumas questões básicas para que possamos debater depois.

Temos Direito à Felicidade?

Será que todo mundo tem direito a um trato justo na vida? No ideal socialista, por exemplo, todos têm direito a um emprego, uma boa casa, comida etc. Será que merecemos tudo isso só porque temos uma natureza búdica, ou será teríamos que adquirir o direito a isso? Será que precisamos fazer alguma coisa para isso? O que vocês acham? Merecemos ter uma boa casa e felicidade? Merecemos ser felizes? Num nível psicológico, algumas pessoas consideram que não merecem ser felizes, e não se permitem ser felizes. Por quê?

[Pausa para pensar]

Poderiam dizer que todos têm o direito de ser feliz, de ter uma casa, etc, mas quando dizemos isso, estamos mais uma vez entrando na conotação de “verdienen”, já que transmite a ideia de que alguém nos deu esse direito. Será que alguém nos deu o direito de ser feliz, ou já nascemos com esse direito? Por que temos o direito de ser feliz e por que temos o direito de desfrutar de uma boa casa? Existe alguma diferença entre esses dois direitos?

[Pausa para pensar]

Isso faz com que surja a pergunta: será que somos responsáveis por nossas ações? Por exemplo, nas antigas sociedades comunistas da Europa Oriental e na antiga União Soviética, todos tinham o direito de receber um pagamento, independentemente de estar trabalhando bem ou não; consequentemente, ninguém trabalhava bem porque a ninguém interessava fazer isso. Será que é isso mesmo que queremos dizer aqui, que todo mundo tem o direito a um salário e a uma boa casa, quer trabalhe para isso ou não? Se realmente temos o direito de ser feliz, então não precisamos fazer nada para isso. E poderíamos deduzir que um assassino também tem direito a ser feliz. Alguém que engana os outros ou rouba uma loja tem o direito de fazer isso porque quer ser feliz. Será que tal pessoa realmente tem o direito de fazer isso?

[Pausa para pensar]

Você poderia argumentar que, se temos o “direito de ser feliz” ou o “direito de ter uma boa vida”, parece que alguém nos deu esse direito, e isso não parece fazer sentido. Talvez pudéssemos dizer que todos têm a possibilidade, ou a oportunidade, de ser feliz, mas ainda assim teríamos que fazer algo para obter essa felicidade. A expressão inglesa “merecer algo” fica bem aqui. Seu significado não é bem de ter um direito. Busquei a expressão alemã equivalente no dicionário, mas “Recht”, em alemão, implica que alguém dá algo para você. Em inglês, “merecer” não implica que alguém tenha que lhe dar algo. Até porque, a questão também pode ser aplicada ao meio ambiente, por exemplo: o meio ambiente também merece ser respeitado, merece ter um trato justo. Então será que todos merecem ter um trato justo na vida? Todos merecem ser felizes?

[Pausa para pensar]

Temos a característica de estarmos programados por natureza para sermos felizes. Pensem, por exemplo, numa criança em Kosovo. Será que essa criança em Kosovo merece ter uma casa pacífica e crescer num ambiente tranquilo, simplesmente porque é um bebê?

Por que merecemos isso? Se assumirmos que um poder externo nos dá esse direito, digamos que seja Deus ou as leis ditadas por esta sociedade, então aqui já começam as complicações. Será que esse direito pode nos ser tirado? Se merecemos isso tão somente por causa da nossa natureza, no que isso implica? Será que um criminoso de guerra também tem direito à felicidade? E o meio ambiente?

[Pausa para pensar]

Vocês dizem que todas as formas de vida merecem ser felizes e tratadas bem; portanto, agora posso perguntar: e quanto às coisas inanimadas, como o ar e o oceano? Será que o oceano merece ser conservado limpo? Será que o ar merece ser conservado limpo? De onde vem esse direito?

[Pausa para pensar]

Do Ponto de Vista Budista, a Felicidade Resulta de Nossos Potenciais Positivos

O budismo diz que, por causa de nossa natureza búdica, temos alguns potenciais positivos. A expressão clássica para isso é: como temos nossa natureza búdica, temos uma “coleção de méritos”. Novamente, acho estranha essa terminologia. Acho que “coleção” é a palavra errada; prefiro a palavra “rede”. Temos uma “rede de potenciais positivos”. Todos temos uma rede própria de potenciais positivos.

Isto é muito complexo. Se pensarmos sobre isto, veremos que temos o potencial para conseguir aprender, o potencial para conseguir criar uma família e amar os outros. Temos todo tipo de potencial positivo, potencias para fazer coisas positivas. Um de vocês já disse que todos temos a possibilidade de ser feliz. É disto que estamos falando; temos a possibilidade, o potencial para isso. Como existem potenciais mutuamente interconectados, eles formam uma rede. Como resultado dessa rede de potenciais positivos, podemos ser felizes. Tenho o potencial de ganhar a vida, de poder amar outras pessoas e criar uma família, etc, e consequentemente, tenho o potencial para ser feliz. Todo mundo tem uma rede básica como esta. Com base nisso, poderíamos dizer que somos merecedores, que adquirimos o direito à felicidade. Porém, o conceito envolvido nas palavras que estamos usando não se encaixa totalmente na ideia budista, não é mesmo?

Digamos que saímos de férias. Será que nossas plantas merecem ser regadas, e o nosso gato merece ser alimentado? Existe alguma diferença? Será que a nossa casa merece ser limpa?

E os desejos do gato?

Boa pergunta. Agora estamos chegando mais perto da ideia budista de que a felicidade é algo que requer a nossa vontade. Precisamos querer ser felizes para chegarmos a ser felizes. No budismo é importante pensar em todas essas coisas.

Será que Precisamos Fazer Algo para Adquirir o Direito à Felicidade? 

Será que para ser feliz basta querer ser feliz, ou será que é necessário fazermos algo para adquirir o direito à felicidade? Se temos que fazer algo, será que adquirimos o direito como resultado de nossa ação, ou será que é o resultado de nossa motivação? Digamos que convidei meus amigos para jantar; gostaria de fazer uma comida bem gostosa e fazê-los felizes. Minha motivação foi fantástica, mas, queimei a comida e o jantar acabou sendo um desastre; ou meu amigo ficou doente; ou se engasgou numa espinha de peixe. O que é mais importante, a motivação ou o resultado do que fazemos?

[Pausa para pensar]

Motivação sozinha não é suficiente. É necessária uma ação. Mas também pode ser que nem sempre exista uma motivação. Suponha que eu não tenha nenhuma intenção de fazer uma determinada pessoa feliz, ou de encontrá-la, mas a encontro e isso a deixa feliz. Acho que é uma combinação. O exemplo que sempre uso é o seguinte: um ladrão pode roubar seu carro e você ficar muito feliz porque agora vai poder ganhar o dinheiro do seguro. O carro era horrível e você não gostava dele.

Vamos explorar outra ideia. Temos uma noção de mérito no budismo como sendo um direito que adquirimos por termos feito alguma coisa: temos que adquirir o direito à felicidade. Digamos que tenhamos trabalhado muito durante o ano todo; agora, será que adquirimos o direito de tirar férias ou de ter um aumento de salário? Será que adquirimos o direito de ter boas condições de trabalho em nosso escritório? Acho que pela expressão “adquirir um direito”, teríamos que dizer que “sim, adquirimos o direito a tudo isso”. No entanto, poderíamos sair de férias e mesmo assim não nos sentirmos felizes. Então, será que adquirimos o direito à felicidade? Não, não adquirimos. Então quais direitos estamos adquirindo com as coisas que fazemos?

[Pausa para pensar]

E quanto aos pais e mães? Será que pai e mãe são automaticamente dignos de serem respeitados pelos filhos, simplesmente por terem lhes dado à luz, ou será que precisam ser bons pais para adquirirem o direito de serem respeitados? Será que faz sentido os pais esperarem que seus filhos os respeitem? Será que essa é uma expectativa coerente? Será que é assim que o carma funciona? Será que, por terem sido bons pais, adquiriram o direito de serem retribuídos com respeito? E se os pais acharem que merecem o respeito dos filhos, mas não o obtiverem? Será que os pais têm o direito de demandar respeito de seus filhos? Essas são perguntas importantes, não apenas se formos pais, mas também no que diz respeito ao fato de devermos algo aos nossos pais. Será que eles merecem nosso respeito?

[Pausa para pensar]

Consideremos mais dois aspectos de “merecer”. Vejamos as pessoas de Kosovo que foram prejudicadas [pela guerra]. O que elas merecem? Merecem receber compaixão? Merecem ser recebidas em nosso país e serem alimentadas? O que fizeram para merecer isso? Merecem ser felizes? Merecem vingar-se? E os soldados sérvios que mataram tantas delas? Merecem nossa compaixão e nosso perdão? O que fizeram para merecer? Merecem ser castigados ou serem mortos? Agora conseguimos ver o problema com a expressão “merecer”.

[Pausa para pensar]

O que quero deixar claro é que a ideia de “mérito” ou “verdienen”, que é ser merecedor de alguma coisa ou adquirir o direito a alguma coisa, é bem diferente do conceito budista de carma, que é o tema desta discussão: potencial positivo. É algo bem diferente.

Carma não é Justiça ou um Sistema de Leis

Se analisarmos nosso conceito ocidental de direitos, de adquirir direitos e de merecer as coisas, o que está por detrás disso é uma noção definida culturalmente. Essa noção é que o universo é justo, que existe algum tipo de justiça no universo, e que as coisas deveriam ser justas. Este é um conceito muito forte: “deveria ser justo”. Por que deveria ser justo? “Porque o universo é justo.” Essa é uma ideia muito ocidental.

Podemos analisá-la de diferentes maneiras. De um ponto de vista, é justo acolhermos as pessoas de Kosovo em nosso país. De outro ponto de vista, poderíamos dizer: “Claro, é justo que consigam vingança, e é justo que possamos bombardear a Sérvia.” É justo. De outro ponto de vista, é justo perdoarmos os soldados sérvios; mas, por outro lado, também pode ser justo botá-los na prisão. Portanto, temos essa ideia de justiça, e de que existe uma lei. Isso não está limitado ao ocidente, porque essa ideia também existe no pensamento chinês. Mas não existe no pensamento tibetano.

Na visão ocidental, a lei ou a justiça, de uma perspectiva bíblica, vem de Deus. Deus é justo. Deus é correto. Ainda que pareça injusto Deus tomar o bebê de uma mãe, temos que acreditar que Deus, na sua sabedoria, foi justo. Portanto, uma pessoa religiosa só precisa confiar no fato de que Deus sabia o que Ele estava fazendo ao levar seu bebê. Para os ocidentais que não são religiosos, o conceito de lei e justiça surge de um aspecto muito político, que, na realidade, teve sua origem na cultura grega, de que ao menos a sociedade deveria ser justa. Portanto, conseguimos uma sociedade justa através de políticas e leis, a não é justa por causa de Deus, mas por causa das pessoas que ditam as leis. Nós mesmos a tornamos justa, pois fomos nós que elegemos essas pessoas. Interessantemente, os chineses traduzem a palavra “dharma” como “lei”. Porém, a maneira tradicional de pensar dos chineses é que as leis são simplesmente parte da ordem natural do universo. Não são feitas por Deus, nem pelas pessoas.

Quer analisemos de forma pessoal, como faríamos no ocidente, ou de forma impessoal, como se faz dentro da sociedade chinesa, a questão continua sendo a obediência. Obedeça às leis e as coisas irão bem, você será feliz. Se você não obedecer às leis, não será feliz. Quando analisamos as tradições budistas indianas e tibetanas– mas não a chinesa – temos que analisar com nossos conceitos ocidentais, e isso acaba criando confusão, pois usamos a palavra “mérito” ou “verdienen” para (indicar) “punya”. Ambas indicam um direito adquirido. O universo deveria ser justo. Se ajo construtivamente, o universo deveria ser justo e eu deveria ser feliz. Deveria haver justiça. Podemos dizer: “Sim, mas sei que isto não me foi dado por Deus ou qualquer outra pessoa”. Porém, veja como nos referimos ao carma no ocidente! Falamos nas “leis do carma”. A palavra “lei” não é mencionada na expressão original – fomos nós que a adicionamos. Vemos o carma como se fosse um sistema de leis com base na justiça, e essa não é a ideia original, em absoluto. Então, a que se refere o carma?

O Carma Trata do Resultado de Ações Construtivas ou Destrutivas

Antes de mais nada, o carma trata do resultado de agirmos construtivamente ou destrutivamente. Estamos falando da causa e do efeito de nosso comportamento. Nós usamos expressões como “as leis da física”. São coisas físicas: não existe justiça envolvida no fato de os objetos seguirem as leis da física. Até mesmo entre os chineses, para os quais as leis simplesmente fazem parte do universo, a ideia de justiça ainda está presente. Porém, aqui no budismo indiano e tibetano, falamos de um sistema lógico, mas que não se baseia na justiça. Simplesmente, é o que é.

“Construtivo”, aqui, significa atuar de uma forma que, do ponto de vista da motivação, é livre de apego. “Quero ser feliz, estou fazendo isto para ser feliz”, para estar livre de raiva, livre de ingenuidade, etc. Em nossa mente, a motivação é: “Não quero causar mal a ninguém”, ou coisas do gênero. O desejo de ajudar os outros também poderia estar presente, mas não é a característica decisiva, a mais importante. Querer ajudar alguém é um bônus, uma coisa extra. A motivação fundamental é estar livre do desejo, da raiva e da ingenuidade. Como uma mãe que pensa: “Vou tratar muito bem aos meus filhos, porque quero que eles me respeitem, me amem, que cuidem de mim quando eu estiver idosa, que me sirvam, etc.” Nesse caso, ela está tentando ser muito boa com seus filhos, mas sua motivação é o apego. Não obteremos muita felicidade com tal atitude.

Quando falamos do “resultado de atuar de maneira construtiva”, é na verdade bem complicado. A motivação em si não é suficiente; necessitamos uma combinação de motivação, ação, e seu resultado imediato. A motivação pode ser positiva, mas, como (no exemplo de) quando fazemos uma boa comida e nosso convidado se engasga numa espinha ou quebra um dente enquanto mastiga, é algo complexo. Entretanto, a motivação é muito importante.

Como resultado de atuar construtivamente, “acumulamos mérito”. Porém, o que significa “acumular”? O que significa “mérito”? Já vimos o que significa mérito.  Agora temos que ver o que significa “acumular” ou “coletar”.

O potencial positivo, chamado de “mérito”, é o potencial para o surgimento de felicidade. Mas “acumular” mérito não é como se estivéssemos somando pontos.  Também não é adquirir o direito a alguma coisa. Como adquirir o direito à liberdade como resultado de ter reunido provas de sua inocência em um caso policial. Não é assim. Uma forma melhor de conceitualizarmos isso é pensar que fortalecemos nossa rede de potenciais positivos. Por já termos uma rede básica, que faz parte de nossa natureza búdica, podemos fortalecê-la para que funcione melhor. Considero isso parecido com um sistema eletrônico cheio de fios e outras coisas, e você o fortalece para que a eletricidade possa fluir através dele com mais intensidade.

O que Significa Amadurecer na Forma de Felicidade? 

A questão aqui é: o que significa dizer que nossas ações construtivas e o potencial positivo que surge delas amadurece na forma de felicidade? É muito importante entender o que significa “amadurecer”.

Antes de mais nada, não estamos falando do que os outros experimentam como resultado de nossas ações. Estamos falando do que NÓS experimentamos. Poderíamos preparar uma refeição muito gostosa para nossos amigos, porque gostamos deles e queremos que sejam felizes, mas eles poderiam detestar a comida, portanto não lhes proporcionamos felicidade alguma. Portanto, nossas ações construtivas não trarão, necessariamente, felicidade para os outros. Isto não é o queremos dizer com ”uma ação construtiva amadurecer na forma de felicidade”.

A felicidade da qual falamos também não é necessariamente a que vivenciamos durante a ação construtiva. Suponhamos que queremos ter um caso com uma pessoa casada, mas não o fazemos porque não queremos cometer adultério; sabemos que cometer adultério não é apropriado. Certamente, reprimir-se não lhe faz sentir-se feliz. Portanto, não é disso que estamos falando. A felicidade de que estamos falando não é o que vivenciamos ao realizar uma ação construtiva.

Tampouco estamos falando do que sentimos imediatamente depois de uma ação construtiva. Eu fiz uma coisa realmente boa para um amigo que estava de mudança; organizei uma festa de despedida, e fiz tudo isso para que se sentisse feliz. Depois, meu amigo se mudou para outra cidade, e eu chorei e fiquei chateado por muitos dias. Aqui não estamos falando do que sentimos imediatamente depois de fazer algo construtivo; esse também não é aquilo a que “amadurecer” se refere.

Temos um continuo mental. Existe continuidade em nossas experiências. Não é que haja algo sólido acompanhando essas experiências, mas sim que existe uma continuidade de nossa experiência de um momento para o outro; uma corrente de experiências que seguem uma atrás da outra ao longo de nossa vida, e que continua também de uma vida para a outra. A cada momento, a toda a nossa rede de potenciais está presente, e pode afetar o que vai ocorrer no momento seguinte. Também precisamos lembrar que, assim como contamos com uma rede de potenciais positivos, também temos uma rede de potenciais negativos. Devido à nossa confusão acerca da realidade, temos muitas formas destrutivas também. Também temos potenciais negativos: o potencial de sermos sarcásticos, de sermos cruéis, de mentir às vezes. Todos esses também são como uma rede de potenciais que se apoiam mutuamente em muitas combinações diferentes.

O Amadurecimento é um Processo Não Linear e Caótico 

Uma maneira como esses potenciais podem amadurecer é na forma de nossas preferências: “gosto de estar com este tipo de pessoa; não gosto de estar com aquele tipo de pessoa” ou “gosto de expressar meus sentimentos com força”. Falamos dessas coisas das quais gostamos e das quais não gostamos, a cuja combinação nos referimos como sendo nossa “personalidade”. O que acontece é: com base naquilo, isto é o que amadurece: nossa personalidade, nossos gostos e preferências e, dependendo das circunstancias, diversos impulsos também surgem. Gosto de caminhar em ruelas escuras; chega o impulso, vou caminhar em uma rua escura, e como resultado disto, sou roubado. Esse é um dos níveis do que significa “carma amadurece”.

Outro aspecto é amadurecer em “estou feliz”, ou “me sinto bem”, ou “não estou me sentindo bem”, o que pode na verdade acontecer em qualquer circunstância. Algumas pessoas, embora sejam muito ricas e tenham muitas coisas, ainda assim não são felizes. Outras têm quase nada, mas se sentem felizes. Isso vem das tendências básicas de personalidade. Acho que podemos compreender isso mais facilmente de um ponto de vista ocidental. “Gosto da vida simples; isto me faz feliz”. “Gosto de uma vida estimulante e ocupada; isto me faz feliz”. Isso tem muito a ver com nossas preferências, não é verdade? “Gosto de estar com este tipo de pessoa; não gosto de estar com este outro tipo de pessoa”. Tudo isto é realmente como surge a felicidade. Porém, não estamos sempre felizes com alguém de quem gostamos. É muito importante entender que todo esse sistema de amadurecimento em felicidade e infelicidade, o sistema inteiro de potenciais positivos e negativos, não é um sistema linear.

Não é que se atuarmos de certo modo, imediatamente seremos felizes, e que sempre seremos felizes, e que tudo segue em linha reta. Não funciona assim; não é uma progressão linear. É bem mais parecido ao que chamamos de um padrão caótico. É um caos. Às vezes não estamos felizes com uma determinada pessoa; outras vezes estamos felizes com a mesma pessoa. Não é algo linear. É caótico em certo sentido, mas isso é compreensível por causa da complexidade daquilo que forma nossa rede de potenciais positivos e de potenciais negativos. É muito complexo.

Alguém está ferido; digamos que seja um destes refugiados de Kosovo. Podemos dizer que a infelicidade que está vivenciando é o resultado de um potencial negativo. Claro, é uma questão difícil. Para começar, porque nasceu lá? É um assunto muito complicado. A ideia toda de potenciais positivos e potenciais negativos têm lógica somente se falarmos em termos de uma mente sem princípio, e também de renascimento. Sem esses conceitos, não faz sentido algum. Caso contrário, poderíamos perguntar: por que este bebê foi morto em Kosovo? Se não vermos os potenciais do próprio contínuo mental como causa, então teria que ser uma vontade de Deus. Ou simplesmente má sorte, mas essa não é uma resposta muito útil. “Foi má sorte você ter nascido em Kosovo. Que pena!”. Isto não é muito legal. Ou poderíamos dizer, “É culpa dos sérvios”. Mas, mesmo assim, por que eu? Precisamos de alguma resposta. Não é uma situação fácil. “Por que assassinaram o meu bebê?”

No budismo, dizemos que existem potenciais positivos e negativos, que remontam a tempos sem principio. Essa é outra forma de resolver a questão do porque de certas coisas ocorrerem. O que é realmente interessante é que estamos tentando ver se uma pessoa merece compaixão e receber o status de refugiado na Alemanha ou se tem o direito de unir-se ao exército clandestino e procurar vingança. O carma dá uma resposta muito interessante à ideia de potenciais positivos e negativos.

Obviamente, foi o resultado de potenciais negativos que fez com que essas pessoas perdessem suas casa e suas famílias fossem assassinadas. Porém, se elas possuírem muitos potenciais positivos, automaticamente receberão compaixão ou obterão asilo na Alemanha. Não teriam nem que pedir; poderiam pedir e não conseguir, se não tivessem o potencial positivo. Mesmo tendo uma certa quantidade de potencial para receberem o status de refugiados aqui, poderiam ter também um potencial negativo que os faria infeliz na Alemanha.

Eles também poderiam ter muitos potenciais negativos. O potencial negativo que vem de ter matado alguém, pode resultar em uma situação na qual você ou seus entes queridos são assassinados. E se esse potencial negativo ainda estiver presente, continuará dando resultados, no sentido de que você preferirá buscar vingança, e então surgirá o impulso de buscar vingança, de maneira que o potencial negativo existente é perpetuado. Já que isso tudo não é linear, um dia vai amadurecer uma coisa, e outro dia, outra coisa. Temos uma combinação de todos esses tipos de coisas porque, (por exemplo) enquanto alguém tenta se vingar, pode estar muito feliz em fazê-lo, ou então pode sentir muita raiva, ou estar deprimido.

Esta é a ideia geral do potencial positivo no budismo.

Como Fortalecer e Aumentar Nossos Potenciais Positivos

O que tentamos fazer, tanto quanto possível, é fortalecer nossa rede de potenciais positivos sem sermos ingênuos, pensando que tudo o que temos que fazer são cem mil prostrações, ou isto ou aquilo, e assim seremos felizes para sempre e nada sairá mal, nunca. É uma questão complexa, e nossos potenciais amadurecem de forma caótica. Às vezes somos felizes, outras vezes há coisas que nos fazem infelizes. Em geral, posso ser feliz, mas eu gosto de pizza gordurosa, então, depois de fazer cem mil prostrações, vou sair e comer uma pizza bem gordurosa porque gosto disso e me surge o impulso de comer. Porém, depois de comer, o potencial positivo das minhas prostrações não vai impedir que eu passe mal. É muito importante não sermos ingênuos.

A ideia principal é que queremos gerar esse potencial positivo a fim de obter circunstancias favoráveis para que possamos ganhar insights profundos do dharma. Como resultado do potencial positivo, tenho a inclinação de tentar conseguir essas circunstancias. Como resultado do potencial positivo, eu gosto de meditar. Eu gosto de pensar sobre temas profundos do dharma como resultado de fazer esse tipo de prática. Por gostarmos de fazer isso, o impulso que nos leva a meditar ou a pensar sobre a vacuidade surgirá cada vez com mais frequência. Por que nos lembramos da vacuidade? É porque surge um impulso e nos lembramos. Como resultado desses impulsos, dessas circunstancias positivas das quais gostamos, vamos alcançar compreensões cada vez mais profundas, que eliminarão a ignorância e a falta de atenção, e uma vez que estas sejam removidas, removeremos a causa de nosso sofrimento. Então, seremos realmente felizes. Mas essa é uma maneira caótica, não linear. Não é que obtemos um insight e “uau!” vem a bem-aventurança e somos feliz para sempre. É um processo muito longo.

Esse é o motivo principal para querermos aumentar o potencial positivo, e também o que significa fazer isso e como fazê-lo. É realmente importante deixarmos de lado a conotação das palavras ocidentais, que dão um sentido de que temos que adquirir o direito à felicidade, de que “temos esse direito porque pagamos por isso”.

Dedicação

Terminemos com uma dedicação. A dedicação se integra bem no nosso tema. O que estamos fazendo com a dedicação? O que fazemos é pensar: “Dedico o potencial positivo para que todos os seres alcancem a iluminação rapidamente”. Isto parece uma oração para crianças recitada na escola. Para muitos de nós, são simplesmente palavras. Mas o que realmente significam?

O que estamos dizendo é: que qualquer compreensão que tenhamos adquirido fique mais e mais profunda. Que possa integrar-se à nossa rede de potenciais positivos, a fim de intensificar os diversos aspectos do nosso potencial para agir de maneira compreensiva, com compaixão, ter paciência frente às dificuldades, ser paciente quando virmos outros sofrendo, etc. Que possa fortalecer os diversos aspectos dessa rede, a fim de que amadureçam e deem lugar a mais e mais impulsos, para que eu possa atuar com mais compreensão, com mais compaixão, e assim por diante. Que amadureça de forma a, quando algo acontecer, eu conseguir compreender e ser feliz. Que não me cause depressão, pois amadurecerá como felicidade. Ademais, que me permita atuar com mais compreensão e mais compaixão. Ao invés de dizermos “Bem, você mereceu isso” quando alguém se machucar, que o potencial positivo possa amadurecer em uma melhor compreensão em relação à ocorrência das coisas como resultado de ações e potenciais destrutivos e positivos.

É isso que significa dizer: “Adiciono o mérito que obtive nesta tarde à minha coleção de méritos, a fim de que todos os seres sejam felizes”. E possa a compreensão aprofundar-se, a fim de fortalecer as redes positivas que temos. Que possa trazer felicidade e assim por diante. Isso não vai ocorrer de forma linear. Ocorrerá de forma não linear. Se conseguirmos compreender isso, não sairemos decepcionados ou amargurados por não termos agido de forma compassiva quando isso ou aquilo aconteceu. Não vai ser consistente; porém, com o passar do tempo, surgira um padrão mais positivo. É assim que funciona.

Com a dedicação, o que tentamos fazer é sentir a experiência, a compreensão que obtivemos, aprofundando-a e integrando-a a todo nosso sistema, e desenvolvendo o forte desejo de realmente entender e integrar isso em nossas vidas. Por favor, concentrem-se nisso por alguns minutos. Muito obrigado.

Resumo

Para viver uma vida ética, de acordo com os ensinamentos budistas sobre carma, é importante entender o significado do termo sânscrito “punya”. Caso contrário, a conotação da palavra utilizada para traduzi-lo — “mérito” no português e “Verdienst” no Alemão — pode nos levar a misturar ideias enganadoras e inapropriadas. Ao contrário dos termos ocidentais, o termo original não significa que, se fomos bons, merecemos ser felizes, ou adquirimos o direito à felicidade como recompensa. Usando o termo “potencial positivo” é mais fácil lembrar que estamos nos referindo a comportamentos construtivos que desenvolvem potenciais positivos para vivenciarmos felicidade. Com esse entendimento, evitamos querer ser bons ou agradar os outros só para sermos felizes. E não vamos reclamar quando não ficarmos felizes como recompensa por nosso bom comportamento.