Tornando Nosso Refúgio Firme

O Refugio Último no Dharma Está no Verdadeiro Cessar e No Verdadeiro Caminho Mental

Refugio é um processo ativo de colocar algum tipo de direção segura em nossas vidas, conforme indicado pelo Buda, Dharma e Sangha - as Três Joias Raras e Preciosas. Vimos que existem diferentes níveis de compreensão de Buda, Dharma e Sangha. E, no nível mais profundo, o refugio no Dharma ou na Joia do Dharma, basicamente se refere à terceira e quarta nobres verdades.

Então, aqui estamos falando sobre as verdadeiras interrupções de todas as falhas, emoções perturbadoras, suas tendências, confusão, carma - tudo isso - para que isso não possa mais ser, usando um jargão técnico, imputado no contínuo mental. Em outras palavras, isso não estará mais lá. "Não estar mais" significa que isso nunca vai surgir novamente, o que é possível porque a natureza do contínuo mental, nossa atividade mental, não é maculada de forma inata por esse lado perturbador que é baseado em confusão.

O outro aspecto deste dharma, o refúgio último no dharma, é a quarta nobre verdade, que é o verdadeiro caminho, que significa os verdadeiros caminhos ou formas de compreensão - realização e assim por diante - que também são baseados em nosso contínuo mental. Todas essas realizações, todas essas boas qualidades, são possíveis de se desenvolver em um contínuo mental - nossa atividade mental - porque essa atividade mental tem todos os potenciais, as habilidades, para entender qualquer coisa, para ter amor e preocupação por absolutamente qualquer pessoa, e assim por diante. Apesar de, devido ao nosso hardware ser limitado, nossos corpos e mentes são, basicamente, muito limitados. Nós só entendemos um pouco. E muitas vezes de forma confusa. Geralmente só nos preocupamos com nós mesmos, e talvez estendamos à nossa família e a entes queridos, mas não a todos. Então é limitado.

A Natureza da Mente

Quando falamos sobre tudo isso em termos da natureza da mente, da natureza do contínuo mental, é algo que requer uma grande quantidade de considerações para nos convencermos de que é possível conquistar esta Jóia do dharma - que tal coisa realmente existe e é algo que somos capazes de conquistar. Porque é apenas com base em ser convencido de que tal coisa é possível - essas verdadeiras cessações e verdadeiros caminhos mentais- que podemos então ter a confiança de que os Budas são aqueles que conquistaram isso na íntegra e a Arya Sangha são aqueles que alcançaram em parte. Caso contrário, se pensarmos que é impossível, como podemos acreditar que um Buda ou a Arya Sangha têm suas conquistas?

Sem entrar em muitos detalhes, a qualidade básica da atividade mental - o que a atividade envolve – é criar algum tipo de aparência de um holograma mental. Poderia ser o holograma mental de uma visão, de um som, de um cheiro, de um pensamento, tanto faz - de uma emoção. E há o envolvimento cognitivo ou engajamento com isso, que poderia ser tanto entendimento, confusão, algum tipo de nível de concentração, etc. Mas o que está sempre presente aqui é algum nível de felicidade ou infelicidade. Então, se quisermos uma palavra que descreva esse processo, poderíamos chamar isso de "experiência". Isto é, experimentar algo momento a momento, mesmo que seja experimentar o dormir, ou experimentar estar inconsciente ou mesmo experimentar a morte. Sempre experimentando algo. E é isso o que experimentar significa - o surgimento de um holograma mental e algum tipo de engajamento cognitivo, sem um "eu" separado, separado de toda essa atividade, observando-a ou controlando-a. Embora esta atividade mental seja individual para cada um de nós e podermos rotular um "eu" com base nisso, mesmo assim, esse "eu" não é algo separado dessa atividade.

Essa atividade mental - subjetiva, individual - também pode ser descrita do ponto de vista físico. Existe uma energia ou uma base física para ela, como um corpo, por exemplo, e essa energia é irradiada de alguma forma. Então, temos comunicação, o que normalmente, no jargão budista, é referido como sendo a fala. Mas a fala não significa apenas as palavras, mas basicamente comunicação.

Se a atividade mental envolve dar origem a hologramas mentais, bem, poderia dar origem a um holograma mental de qualquer coisa. Na verdade, poderia dar origem ao holograma mental de tudo. E o engajamento cognitivo poderia ser confusão, é claro, mas também poderia ser uma compreensão total, amor total, paciência, todas essas coisas.

Quando falamos sobre a natureza inata da atividade mental - "inata" significa que é parte integrante dessa atividade mental - estamos apenas falando sobre a estrutura, de como ela funciona. Nós não estamos falando sobre o conteúdo real, que tipo de holograma ela origina - qual é o conteúdo dela ou qual o nível de envolvimento cognitivo que existe. Este é mais um aspecto do conteúdo. Quando falamos sobre essa natureza inata, estamos apenas falando da estrutura e de como ela funciona. Então, o conteúdo pode ser limitado, como nós só sermos capazes de perceber o que está diretamente na frente do nosso nariz. E muitas vezes há várias projeções nisso também. E o engajamento poderia ser com muita confusão. Mas isso é o conteúdo, é uma limitação do conteúdo. Mas a estrutura permanece a mesma, independentemente do conteúdo.

O Problema é o Hardware Limitado do Nosso Corpo Humano

Se perguntarmos qual é o problema aqui, o problema é que as limitações de nossa atividade mental são bastante determinadas, determinadas talvez seja uma palavra muito forte, mas condicionadas pelo nosso hardware limitado. Olhe para este hardware limitado de um corpo humano, apesar de ser o melhor tipo de hardware que poderíamos ter em um renascimento: primeiro você é um recém-nascido, depois um bebê. Você não entende nada. Você não pode se comunicar. Tudo o que você pode fazer é chorar. À medida em que passamos pela adolescência, estamos sob a influência dos hormônios e, portanto, temos fortes desejos sexuais e somos agressivos. E todas essas coisas são grandes limitações, não são? E nosso corpo fica doente. E à medida que nos tornamos mais e mais velhos, ele começa a se quebrar, e você não consegue lembrar as coisas tão bem, e fica confuso, todas essas coisas. É uma grande limitação do hardware. E só conseguimos ver as coisas que estão diretamente em frente a esses dois buracos na frente da nossa cabeça, e não conseguimos ver as coisas fora desse alcance, e certamente não conseguimos ver nada além do que está acontecendo agora.

Todas essas limitações que temos sobre aquilo de que conseguimos ter consciência, e quanto envolvimento cognitivo conseguimos ter isso, basicamente são problemas de hardware. E porque estamos confusos, porque pensamos que o que percebemos é a totalidade da realidade, então, através de um mecanismo muito complexo, conhecido como os doze elos da originação dependente, perpetuamos cada vez mais esse hardware limitativo, vida após a vida. Mas se pensarmos apenas em termos da estrutura da atividade mental, essa estrutura por si só é ilimitada. É o que chamamos de "pura". Não é maculada por essas limitações causadas pelo hardware e pela confusão. E se ela não tivesse esse tipo de hardware e não se perpetuasse sempre gerando cada vez mais hardware, então, por ela ter todos os potenciais e a capacidade de perceber absolutamente tudo, e ter compreensão, amor e interesse totais e uma comunicação fantástica, sem qualquer limitação, isto seria ótimo. Não seria?

Não é que vamos resolver o problema cometendo suicídio e, então, estaremos livres desse hardware limitante. Porque, pela força da nossa confusão e de todos os potenciais cármicos que construímos com base nessa confusão, vamos apenas gerar mais hardware limitado e provavelmente ainda mais limitativo do que o que temos agora. Mas a causa mais profunda para termos um hardware limitado é a nossa confusão. E vemos que a mente é capaz de ter um entendimento correto. A confusão não pode ser validada, a compreensão correta pode. Então, podemos começar a nos convencer cada vez mais de que é possível, com base na pureza inata desta atividade mental e suas habilidades inatas, realmente alcançar o verdadeiro cessar e os verdadeiros caminhos mentais - terceira e quarta nobres verdades - que é o refúgio último no dharma.

Em Algum Momento Pode ter Existido um Buda?

Então, aqui temos a base para pensar sobre isso e pensar sobre a lógica disso. Então podemos ter confiança de que existe um refúgio no Dharma, que existe coisas como verdadeiras cessações e verdadeiros caminhos mentais que são possíveis de serem atingidos. Então, é claro, surge a questão: se é possível alcançar, será que isso necessariamente significa que alguém realmente alcançou? Devo dizer que isso não é fácil de responder. Porque esta é a verdadeira pergunta: em algum momento poderia ter existido um Buda? E por que não há muitos deles agora, mesmo que os tibetanos digam que há muitos deles, podemos realmente acreditar nisso? Devo dizer que isso é difícil de responder.

Agora vamos analisar. Sua Santidade o Dalai Lama sempre enfatiza – os grandes mestres sempre enfatizam – que temos que analisar. Eu estou entrando em todo esse detalhe porque, se estamos falando sobre uma aplicação prática do refúgio no cotidiano e você realmente não acredita que existe um Buda, Dharma e Sangha em um nível mais profundo, na verdade, como você poderia colocar isso em sua vida? Você está aspirando por um objetivo que você nem acredita ser possível, a liberação, e muito menos a iluminação. Então tudo se torna uma hipocrisia se não confiarmos que existe um Buda, Dharma e Sangha - para que possamos ir na direção deles. Então veja, isso é capaz de sabotar esse refúgio e impedir que ele seja uma coisa central e muito importante em nossas vidas. Ou não temos idéia do que realmente significa ou, mesmo que saibamos o que significa, não acreditamos que seja realmente possível. E mesmo que acreditemos ser possível, não sabemos como realmente podemos colocar isso em nossas vidas. Então é por isso que vou entrar um pouco em detalhes neste aspecto analítico, e não no aspecto de listar todas as qualidades do Buda, Dharma e Sangha.

Agora analisando: desde os tempos sem início e levando em conta que essas máculas – esse é o jargão –, essas máculas que estão contaminando nossa atividade mental –  esse é o verdadeiro jargão e talvez você saiba do que estou falando agora – podem ser removidas para sempre, e as qualidades podem ser totalmente realizadas, todos os potenciais podem ser realizados. Com base nisso, me perdoe o jargão matemático-científico, há uma "possibilidade quântica" de que alguém realmente tenha alcançado isso. Você não pode dizer que não existe uma possibilidade quântica para isso. Espero que você entenda o que significa essa possibilidade quântica. A possibilidade quântica é: onde está a localização desta partícula? Poderia ser em qualquer lugar, mas há uma possibilidade mais alta de que esteja aqui, em vez de lá. Mas poderia estar em qualquer lugar. Então, há uma possibilidade quântica de que pode ter existido um Buda e aqui está aquele que todo mundo disse no texto que era um Buda. Assim, você olha o que o Buda ensinou, você começa a pôr em prática e obtém os resultados que o Buda disse, então você consegue se convencer de que realmente havia um Buda.

No entanto, o budismo é bastante diferente de outras filosofias indianas, no sentido de que o budismo não diz que todos inevitavelmente alcançarão a liberação e a iluminação. Todo mundo pode alcançar a liberação e a iluminação porque a natureza básica da atividade mental –  nossa atividade mental individual – é pura, mas isso não significa que todos alcançarão necessariamente a liberação e a iluminação. E o motivo disso é que, desde o tempo infinito, o tempo sem princípio, se todos pudessem alcançar a liberação e a iluminação, eles já teriam feito isso. Mas isso, obviamente, não é o caso. Portanto, embora todos possam alcançar a liberação e a iluminação, isso não significa que todos necessariamente vão.

Mas, se existe uma possibilidade quântica de que alguém tenha percorrido todo o caminho nesse processo de purificação, e tornado-se um Buda, então também há uma possibilidade quântica de haver aqueles que fizeram apenas uma parte do caminho, que não terminaram o processo. Essa é a Arya Sangha. E, portanto, há uma possibilidade quântica de que eu também possa alcançar a libertação e a iluminação. Portanto, não é apenas um desejo ilusório colocar minha vida nessa direção –  trabalhar para conseguir a Joia última do dharma em meu próprio contínuo mental, a maneira como os budas fizeram e a forma como a Arya Sangha estão fazendo. Não é uma hipocrisia, não é apenas um desejo.

O significativo aqui é que, embora pudéssemos, sem estarmos convencidos de que é possível alcançar o objetivo final, colocar essa direção em nossa vida, apenas com a ideia de que "Bem, se eu for além de onde estou agora, mesmo que eu não consiga alcançar o objetivo, será um progresso ". E se estivermos apenas pensando em melhorar, e não em seguir todo o caminho, porque não é possível seguir todo o caminho até o final, nossa prática budista, em vez de se evoluir, retrocede, retrocede para ser apenas psicologia. Certo? Os ensinamentos budistas tornam-se apenas outra escola da psicologia, e a prática budista acaba de se tornar outra escola da psicoterapia. Certamente não é isso. Embora possamos praticar o budismo nesse nível, eu chamo isso de "dharma-light", esse não é o verdadeiro dharma. Claro que tem seus benefícios. Não podemos dizer que não há benefícios em pensar apenas em trabalhar em nós mesmos para melhorar esta vida, mas não é realmente desse refúgio que estamos falando.

A Possibilidade De Nunca Ter Existido um Buda Iluminado

Há mais uma coisa que eu quero adicionar à nossa discussão com relação a ter, ou não, existido um Buda. Em termos de probabilidade, se falarmos em termos de probabilidade quântica ou apenas de probabilidade normal, existe a possibilidade de ter existido um buda, ou dois budas, ou três budas, etc.  Mas, também, há uma probabilidade de nunca ter havido um Buda. Então, esta é uma questão muito interessante. Você pode olhar para isso, você pode analisar, de diferentes pontos de vista.

Em termos de probabilidade, há a probabilidade de que poder ter existido um Buda, pode ter existido dois, pode ter sido três, pode ter sido quatro, cinco - até o número finito de seres sencientes. Então, há uma probabilidade muito grande, muito maior, em termos de todas essas probabilidades, de nunca ter existido budas. Quero dizer, há uma probabilidade maior de ter havido um Buda do que de nunca ter havido um buda.

Mas há outra maneira de analisarmos. Uma das características de um buda é que um buda exerce influência iluminadora, que é como um imã que atrai outros para a liberação e iluminação. E um dos aspectos da natureza de um buda, que todos nós temos, é que nosso contínuo mental pode ser estimulado, pode ser afetado por essa influência iluminadora para crescer e seguir o caminho espiritual de auto-aperfeiçoamento. Então, se nunca houve uma influência iluminadora, se nunca existiu um buda, se nunca houve a influência iluminadora de um buda, você poderia fazer a pergunta: como alguém poderia ter feito progresso espiritual? Porque, obviamente, há pessoas que se trabalharam no caminho budista e fizeram um progresso espiritual, e podemos ver isso em nós mesmos, se experimentarmos os ensinamentos.

Obviamente, isso exige um pensamento um pouco mais profundo sobre o que é uma inspiração, e qual é a importância de ser inspirado ou estimulado pelo exemplo de outra pessoa - ou seus ensinamentos ou o que quer que seja - para tentar melhorar nossa situação. Temos que pensar um pouco sobre isso. Se dissermos, bem, eles poderiam ter obtido uma influência iluminadora apenas de professores que não eram budas - então, de onde eles conseguiram essa influência iluminadora? E se existiu um primeiro buda, de onde ele recebeu essa inspiração? Então, por essa maneira de pensar, chegamos à conclusão de que nunca houve um primeiro buda. Mas ainda há a questão acerca do buda. Será que sempre houve um buda exercendo essa influência iluminadora?

Então nós olhamos os ensinamentos do buda. Lembre-se, havia um número infinito de budas, e todos os budas ensinavam algo ligeiramente diferente, mas deixemos isso de lado. Vamos apenas ver o que o Buda Shakyamuni ensinou. Se colocarmos em prática os ensinamentos, no nível que podemos colocar em prática, então empiricamente saberemos, por nossa própria experiência, que na verdade funcionam: ajudam a diminuir nossos sofrimentos e problemas. E aqui não estamos falando sobre os métodos que o Buda ensinou, que são compartilhados por quase todas as filosofias e sistemas indianos, como os métodos para alcançar a concentração, etc. Essas são coisas comuns, não são especificamente budistas. Mas o que é especificamente budista são as quatro nobres verdades - em geral, tanto para o Hinayana quanto para o Mahayana - e dentro do contexto Mahayana, os ensinamentos sobre a vacuidade. E podemos saber empiricamente, a partir de nossa própria experiência, que quanto mais compreendemos a vacuidade, quanto mais aplicamos isso em nossas vidas diárias, cada vez menores ficam os nossos problemas. Realmente funciona.

E se observarmos os passos que o Buda ensinou e descobrimos empiricamente que muitos desses passos, na medida do possível, funcionam, então – como encontramos nos argumentos nos textos –  haveria algum motivo para o Buda ter mentido sobre os passos seguintes, sobre o caminho completo? Bem, a única motivação para ele alcançar a iluminação foi a compaixão. Portanto, não há nenhuma razão para que o Buda tenha tentado nos enganar quando ele declarou: "Eu alcancei a iluminação, e a terra é a minha testemunha." Não há nenhuma razão para que o Buda tenha mentido. Esse é o argumento clássico. Além disso, se olharmos toda a atividade do Buda, então não cabe pensar que ele mentiu sobre esse aspecto, já que tudo o que ele fez foi muito bom.

Mas se você analisar um pouco mais – e agora estou analisando enquanto falo – eu poderia levantar uma objeção. Se você olhar para as etapas posteriores do caminho, as etapas mais finais do caminho, o que está dizendo é que, além de todas as outras coisas que eu acho secundárias, se você pudesse ter a compreensão perfeita da vacuidade, ou seja, não conceitualmente, e o tempo todo, então a ignorância, a falta de consciência, nunca mais surgiriam. Então é assim que você alcançaria a liberação e, se fosse suficientemente forte em bodhichitta, você se iluminaria. Então, você poderia dizer – aqui está a minha objeção – que o Buda, assim como nós, talvez tenha caminhado alguns passos além do que nós caminhamos e visto que se tivesse a compreensão da vacuidade de forma não conceitual, na maior parte do tempo – muito mais do que eu poderia ter alcançado – e ele viu que isso ficou cada vez melhor e, portanto, por inferência, ele inferiu que se você tivesse isso o todo o tempo, você nunca mais teria a fonte dos problemas. Mas isso não significa necessariamente que ele realmente alcançou isso. Ele poderia ter inferido. E isso seria uma compreensão inferencial válida. Isso é o mais longe que eu pude chegar na minha análise, porque não consigo responder a essa pergunta.

Mas acho que é uma questão importante, em termos de relevância do refúgio em nossas vidas diárias. E esse é o ponto de: Houve realmente um buda? E é realmente possível alcançar a budeidade? E se nunca houve um buda, e é impossível se tornar um, o que estou fazendo em termos de refúgio? Estou tomando como minha fonte de direção algo que é impossível? É como se esforçar para se tornar o Mickey Mouse? Ou o que é isso? Então minha prática budista vai mais na direção de apenas tentar melhorar as coisas o máximo possível? E se isso acontecer, sem pensar que eu poderia tornar-me inteiramente iluminado - ou mesmo liberado - então tudo bem. Mas eu acho que isso precisa ficar um pouco mais claro, para não nos enganarmos: o que realmente estamos buscando e o que realmente pensamos ser possível?

Estamos falando de ter essa direção, esse refúgio, de forma segura e estável em nossas mentes, sem dúvidas. E isso é o que estou apresentando aqui, os tipos de dúvidas que podem surgir. Eu acho que muitos de nós provavelmente nunca duvidaram disso. Você simplesmente aceita. Mas depois de um tempo, você começa a questionar. E o que acontece é que ou quer desistir e dizer que "o que estou me esforçando para fazer, ninguém nunca conseguiu, isso é impossível" então, quem eu estou querendo enganar ao pensar que posso conseguir isso? Então, desiste. Ou pode ser, bem, estou satisfeito de ir tão longe quanto possível nessa direção. Porque há uma grande diferença entre estar convencido ... e podemos estar convencidos, logicamente, de que, teoricamente, é possível obter liberação e iluminação. Existem linhas e métodos de raciocínio suficientes para realmente obtermos uma compreensão inferencial válida de que, na verdade, é teoricamente possível. Mas então a questão é: isso, na prática, é possível? E essa é uma dialética muito interessante entre o que é teoricamente possível e o que é realmente possível.

A única maneira que podemos nos convencer de que isso na prática é possível é fazê-lo nós mesmos. Porque diz-se que apenas um buda pode reconhecer outro buda. Então, como saber que alguém realmente é um buda? Só porque ele ou ela diz ser um buda? Muitas pessoas loucas dizem que são buda. Então isso é interessante. Só podemos saber por inferência que outra pessoa é um buda porque, a menos que sejamos um buda, não podemos realmente saber diretamente. Então, podemos dizer, teoricamente, posso inferir que deve haver um buda, mas para me convencer de verdade, tenho que me tornar um buda, e então vou trabalhar nesse sentido. Esta pode ser a solução.

O Lado Devocional do Refúgio

Um extremo que precisamos evitar em termos de refúgio, é pensar no Buda como meu salvador pessoal e assim por diante. Mas pode-se pensar que o budismo é realmente apenas uma coisa muito intelectual, que trabalha com nossas emoções e assim por diante, como uma forma de psicoterapia. Apenas trabalhar com você mesmo. Isso parece psicoterapia, não é? E isso é realmente outro extremo que precisamos evitar. Porque, em certo sentido, é só esquecer que existem as três joias preciosas e considerar apenas uma - o Dharma. Mas temos o Buda e a Sangha, a Arya Sangha. E, ao contrário do terapeuta, o Buda e a Arya Sangha são nossos modelos. É como eles que queremos nos tornar.  O terapeuta não é exatamente nosso modelo, se o conhecêssemos pessoalmente, acharíamos que ele provavelmente também tem muitos problemas. E o budismo envolve a ética. A psicoterapia não envolve necessariamente ensinamentos éticos. De fato, algumas escolas de psicoterapia querem evitar qualquer tipo de conselho ético.

O budismo tem um lado devocional. Não é algo que devemos negar. Há também um lado emocional, e isso é muito importante em termos de inspiração e algum tipo de expressão ritualística do nosso estado emocional –  estou falando de algo positivo. E isso é algo que talvez possamos dirigir aos budas e aos bodhisattvas, e Tara, e Chenrezig, e tudo isso. Para alguns de nós isso pode funcionar. Guru Rinpoche, Milarepa, etc. Mas devemos evitar os perigos de transformá-los em santos e salvadores pessoais.

Para muitos de nós que não conseguem se relacionar muito com o próprio Buda Shakyamuni e Chenrezig, então o que os representa são os professores espirituais. E não estamos apenas falando de alguém que outros e eles mesmos chamam de professor espiritual. Talvez eles não sejam muito bem qualificados. Estamos falando dos mais qualificados, como Sua Santidade o Dalai Lama. Qualquer um pode chamar a si mesmo de "lama" e convencer os outros a ser chamado de "lama" também, mas isso não significa nada. Bem, na verdade, isso significa algo. Não significa boas qualidades. Significa ser carismático e capaz de influenciar outras pessoas e ser ambicioso.

Mas, em qualquer caso, esse fator de inspiração – que muitas vezes é traduzido como "bênção", que penso que é uma tradução muito enganosa, esse aspecto de inspiração nos ajuda a nos dar a energia e o encorajamento para realmente seguir nessa direção em nossas vidas. E isso é o que recebemos dos professores espirituais. Através deles, podemos obter algum tipo de compreensão dos Budas e da Arya Sangha. E através deles recebemos os ensinamentos, as explicações dos ensinamentos. Embora possamos ler em um livro ou na internet, muitas vezes não é muito claro. Então você precisa de alguém que possa explicar, que possa responder às nossas perguntas. E não só isso, mas que corporifique o que estamos buscando, então temos uma idéia muito mais realista sobre o que todos esses ensinamentos estão falando.

[Ver: "Benção" ou Inspiração]

Tendo um Exemplo

Para colocarmos esta direção segura em nossa vida, em um nível diário que seja prático, o que eu acho realmente muito, muito importante é ter um modelo a seguir. Precisamos ter um modelo a seguir e com o qual possamos nos relacionar. É difícil se relacionar com o Guru Rinpoche como modelo: nascido de um lótus, capaz de passar pelo fogo e não ser queimado, e coisas assim. Isso é realmente difícil de se relacionar como modelo, não é? Então, não estou de modo algum diminuindo a importância do Guru Rinpoche, e esse exemplo do Guru Rinpoche pode ser inspirador para muitas pessoas, mas para outras é muito difícil de se relacionar em um nível pessoal. Como isso é relevante para mim, como um modelo a seguir, do que eu posso fazer? É por isso que nossos professores espirituais comuns e os realmente avançados são um modelo que podemos nos relacionar um pouco melhor. E mesmo que não possamos nos relacionar com alguém como Sua Santidade o Dalai Lama, bem, há professores espirituais menos realizados com quem talvez possamos nos relacionar um pouco mais facilmente.

O que eu achei muito interessante é que Sua Santidade o Dalai Lama disse que para ele, o modelo que ele tenta seguir e no qual ele se inspira, é o próprio modelo do Buda Shakyamuni. Porque, se você pensar sobre isso, é muito comum Sua Santidade ensinar para uma audiência de cem mil pessoas, ou mesmo mais de cem mil pessoas - e, obviamente, nunca tivemos esse tipo de experiência – de influenciar tantas pessoas ao redor do globo, e então ele pode começar a se relacionar com um modelo mais avançado e mais importante, de um Buda, e ser capaz de ensinar todas as pessoas ao mesmo tempo. Então, cada um de nós, em nossos níveis, terá um modelo mais avançado, chegando até o Buda. Assim, mesmo para Sua Santidade o Dalai Lama, o papel de inspiração de um professor espiritual, ou do próprio Buda, é muito, muito importante, muito central.

Qual a Importância Que o Refúgio Tem em Nossas Vidas?

O que estabelecemos até agora? Nós estabelecemos qual é essa direção final que estamos tentando concretizar em nossas vidas, que eu coloco em linguagem muito simples de trabalhar com nós mesmos para eliminar nossas deficiências, nosso lado perturbador, e reconhecer todos os nossos potenciais positivos. E eu dei uma indicação de como poderíamos começar a pensar ou analisar e, com sorte, nos convencer de que é possível percorrer todo o caminho, se libertar de todo o lado perturbador e realizar todo o lado positivo. É possível. E há Budas que fizeram isso e nos ensinaram como fazê-lo. E temos a Arya Sangha, que são aqueles que fizeram parcialmente e ainda estão trabalhando para esse objetivo. Há também os professores espirituais que talvez não tenham alcançado esse estágio de arya, onde eles realmente teriam conseguido as verdadeiras cessações e os verdadeiros caminhos mentais, mas, ainda assim, eles estão mais avançados no caminho do que eu. E através de tudo isso, dependendo do meu nível, eu posso ter uma ótima inspiração. E modelos a seguir. E sou capaz de seguir por todo o caminho nesta direção. Com a ajuda dos professores espirituais, e muito trabalho duro, conseguirei alcançar esse objetivo. Pelo menos da liberação. E, se fizermos isso em um sentido Mahayana, da iluminação.

Então, se isso realmente se tornará o objetivo central da minha vida, significativo para mim o tempo todo, esse refúgio, essa direção segura - todas essas coisas que acabei de mencionar – então temos que estar bem convencidos, e precisamos ser inspirados, ter modelos a seguir, para poder realmente colocar essa direção em nossa vida e isso realmente ser relevante. Quando temos algum episódio de dificuldade em nossa vida, para não sermos derrubados por isso, para perceber, "Sim, eu sou capaz de lidar com isso. Isso é possível, talvez agora não seja tão fácil, mas posso superar minha raiva. Posso superar todas essas dificuldades que enfrento. Então, vou trabalhar nisso." Então, quando surgirem problemas no nosso cotidiano, não é que eu os negue. Não é que eu tente esquecê-los e simplesmente me direciono para o álcool, drogas ou sexo, ou televisão, ou o que quer que seja para, de alguma forma, tornar as coisas um pouco melhores. Mas eu tenho essa direção na minha vida. Na verdade, vou me dirigir para os métodos budistas para tentar lidar com essa situação. Então nós realmente temos essa direção em nossa vida. Então nós realmente nos refugiamos.

Vamos tomar alguns minutos para reafirmar a base que cobrimos até agora. E eu acho que parte dessa reflexão deve ser, se eu me considero budista, o refúgio tem algum significado real em minha vida? O que isso significa para mim? E ele tem um significado semelhante ao que estamos discutindo ou é algo muito trivial, uma espécie de coisa secundária em nossa vida? Isto não significa muito. E se não significa muito, isso é muito triste. Estamos perdendo muito.

O Que é Especial no Budismo: O Objetivo e o Método

O próximo ponto que eu quero mencionar é que, é claro, podemos acreditar em qualquer sistema que ensine a verdade e qualquer tipo de líder espiritual carismático de qualquer tradição. Então, o que é diferente aqui? Temos que olhar duas coisas aqui: o objetivo e o método. Podem haver muitas religiões que podem nos ensinar, como objetivo, ir para o céu. E elas podem ensinar métodos que realmente funcionam, que nos levará ao céu. E podemos acreditar nisso, ter confiança nisso, seguir e ter um caminho espiritual muito benéfico. Ou poderíamos ter o objetivo da liberação dos renascimentos incontroláveis, o que, claro, pressupõe que há renascimento; esse tipo de objetivo existe e a maioria das religiões indianas ensina isso. E temos, no budismo, a iluminação - que você pode ajudar os outros a alcançar esse objetivo da liberação, o que nem todas as religiões indianas afirmam - algo semelhante a isso. Na verdade, não consigo pensar em nenhum outro sistema indiano que ensine isso.

Mas esses outros sistemas indianos, o que eles consideram a liberação e os métodos para alcançá-la, a causa de não sermos liberados, para termos renascimentos incontrolavelmente recorrentes - eles usam a mesma palavra, "Samsara" – e o que eles dizem ser o entendimento que podemos obter, do ponto de vista budista é apenas parcial. A compreensão não é bem correta. Para realmente ter esse refúgio, essa direção em nossa vida, o que nos torna convictos não é apenas tudo o que discutimos até agora. Isso é uma parte. Mas a parte adicional, uma parte muito importante disso, é o método. Qual é o objetivo de que estamos falando, e qual é o método. E o método - a compreensão do que chamamos de "vacuidade" no budismo, e as formas de desenvolver a compaixão, etc. - ele irá realmente funcionar?

Então, para realmente colocar essa direção em nossa vida diariamente, também temos que entender o método que está envolvido no trabalho com nós mesmos, estar convencidos de que ele realmente funcionará e termos uma ideia clara de qual objetivo estamos buscando atingir. E, é claro, conforme estamos discutindo, que ele é realista e que é possível alcançar esse objetivo por meio desse método. Então, agora temos que trazer os três principais caminhos, conforme colocado por Tsongkhapa. A determinação de se liberar, o que é chamado de renúncia. Para irmos nessa direção, temos que identificar qual é a nossa situação de sofrimento e as suas causas, e realmente renunciar - "Isso, eu não quero mais" - e ter a determinação de liberar-se disso. Sem isso, o refúgio não faz sentido, não é? Colocar essa direção na nossa vida não faz sentido. Por que estamos fazendo isso?

E, além disso, o que é necessário é termos a compreensão correta da vacuidade (vazio). E a vacuidade, para dizer de forma muito simples, está falando sobre como, apesar de projetarmos todo tipo de coisas impossíveis sobre como tudo existe, o que projetamos é lixo. Não se refere a nada real. "Vacuidade" significa uma ausência, uma ausência total, de um objeto de referência para nossas projeções.

Parece-me como - digamos - quando alguém está me tratando muito mal e é muito desagradável comigo - que, aparentemente, é assim que a pessoa é. Ela é uma pessoa desagradável. E essa é a única coisa que aparenta ser, por causa do meu hardware limitado. Isso é exatamente o que vejo na minha frente, exatamente o que está acontecendo agora. E parece que isso é exatamente como aparenta. Ela é uma pessoa desagradável. Essa é a sua verdadeira identidade, independentemente de todos os milhões de fatores que influenciaram a forma como essa pessoa se desenvolveu em termos de família, de suas experiências de vida, da situação econômica do mundo, de vidas passadas, etc. Assim, a aparência de alguém que existe - o que chamaríamos "inerentemente" - como uma pessoa desagradável, apenas pelo poder de como ela está agindo agora, essa é a sua sólida e verdadeira identidade. Ela é realmente estabelecida como desagradável. Bem, tal pessoa - tal aparência de uma pessoa - não está se referindo a nada real. Ninguém existe desse jeito. Essa é uma projeção. Você sabe, ela realmente aparece assim para mim por causa do meu hardware limitado. E então, por causa da minha confusão, a projeção é que ela realmente existe desse jeito, é como ela parece ser. E porque eu acredito em minha projeção de que ela realmente é uma pessoa desagradável, fico com raiva dela, e grito com ela. Não tenho tolerância com ela. Não tenho compreensão.

O Entendimento da Vacuidade nos Ajuda a Evitar Extremos no que Diz Respeito ao Refúgio

Então, como isso se aplica ao nosso tema de refúgio? O perigo que precisamos evitar – e alguma compreensão da vacuidade nos ajudará a evitar – é, ao trabalhar em mim mesmo para superar minhas deficiências e perceber meus potenciais, eu faço isso como um perfeccionista. Então aqui estou. Eu sou um "eu" sólido que está em muito mal estado. Então essa é a minha verdadeira identidade. E eu tenho que ser perfeito. Este "eu" sólido deve ser perfeito. E todas essas falhas, e assim por diante, isso é horrível. Para usar a terminologia cristã, esse é o trabalho do Diabo. Nós precisamos nos livrar disso. Então, transformamos isso em algo sólido, e o "eu" que tem que ser perfeito tem que superar isso. E este objetivo que eu estou tentando alcançar, para alcançar as Três Joias, isto é alguma coisa solidamente existente "fora", e isso é fantástico. E mesmo que eu realmente queira isso, isso é tão fantástico, ou é tão impossível, está tão acima de mim, que não tenho a possibilidade de alcançar.

E este é um perigo comum que ocorre entre alguns praticantes do dharma, eles abordam o dharma como um perfeccionista, e eles se tornam muito, muito rígidos e muito inflexíveis, e na verdade muito infelizes. Eles consideram tudo literalmente. Eles são incrivelmente rígidos com eles mesmos. Muitas vezes, estão com baixa autoestima, "Eu não sou bom o suficiente", então você se agride quando você não está sendo perfeito, e assim por diante. É uma maneira muito neurótica de praticar o dharma e que traz uma grande infelicidade ao longo do caminho. Com isso, podemos até mesmo fazer uma grande coisa com a nossa motivação. "Oh, eu tenho amor por todos!" Esse tipo de coisa. "Eu tenho que ser tão amoroso e maravilhoso". E, novamente, não podemos viver de acordo com isso, e novamente nos agredimos: "Eu não sou perfeito!"

Poderíamos, claro, discutir tudo isso em termos de meditação analítica sobre a vacuidade, mas o que isso, em um nível prático, realmente significa? E se ainda não temos uma compreensão tão profunda da vacuidade? Eu acho que em um nível muito prático, significa apenas que não deveríamos criar tantas expectativas com a nossa prática do dharma. Nós simplesmente praticamos. Nós deveríamos praticar, nos trabalhar, tentar ser mais pacientes. Apenas isso. Sem essa projeção de um "eu" que tem que ser perfeito e tem que fazer tudo isso. Sem nenhum desses pensamentos. Quando esses pensamentos surgirem, apenas tente entender que isso é lixo. Isto apenas nos leva a fazer uma grande viagem neurótica e infeliz no dharma, e não quero fazer do dharma uma grande viagem do ego, o que muitas vezes é o que o perfeccionismo é.

Então, quando dizemos: "simplesmente pratique", isso não significa apenas praticar de forma mecânica, sem sentimento, porque isso também é outro extremo para onde podemos ir. Mecanicamente, tenho o hábito de, quando acordo pela manhã, fazer três prostrações e colocar as tigelas de água. Faço tudo isso e pode ser totalmente mecânico. Não pensando em termos de "Eu, um praticante sagrado. Eu tenho essas tigelas de água e uma vareta de incenso. " Grande coisa! Mas precisamos ter uma motivação, sem tirar muito partido dessa motivação. Então, é por isso que temos toda essa lista de coisas para podermos treinar em ter essa direção positiva, essa direção segura em nossa vida.

[Ver: Ações para Treinar a Partir da Tomada de Refúgio]

Somente como uma pequena introdução, uma delas é realmente ter um professor espiritual, assim temos alguma inspiração, temos um modelo a seguir. Então para realmente nos lembrar da direção que estamos indo a cada dia, e dos benefícios de termos essa direção em nossa vida, para isso temos alguma motivação. Desta forma, tente evitar o extremo que poderia nos impedir de ter uma direção segura em nossa vida, de uma maneira prática e realista, benéfica e não de forma neurótica, ou de uma maneira trivial. E não de um modo sectário, que novamente se baseia em um grande "eu" e "Minha tradição é uma grande coisa" e "Eu estou seguindo o caminho correto. E você, você não está seguindo o caminho correto."

Eu tenho alguns alunos que conversaram comigo sobre um dos problemas que eles têm, que é a arrogância e o orgulho de ser budista: "Eu encontrei a luz! Eu encontrei o verdadeiro caminho! E estou muito melhor do que meus amigos de escola que acabaram se perdendo em atividades mundanas." E então eles se sentem melhor do que os outros e mesmo que eles desenvolvam compaixão por eles, é uma espécie de piedade, rebaixando-os. E, novamente, o problema aqui é não ter uma compreensão da vacuidade. Você está fazendo um grande negócio com o "eu" e com o que eu fiz, a direção em que eu coloquei a minha vida, e então, nesses termos, nos sentimos orgulhosos e arrogantes. E "você não tem isso", então você está abaixo de mim. Se não tivermos cuidado, podemos entrar em uma direção muito pesada: "Eu vi a luz. Eu vou ser salvo e você vai para o inferno." Há muitos problemas que podem se desenvolver por causa disso.

A Importância da Renúncia na Tomada de Refúgio

Portanto, a renúncia, e alguma compreensão da vacuidade, são muito importantes para que essa direção em nossa vida seja estável. Os outros não são neuróticos. Renúncia não é algo assim: bem, vou desistir de algumas coisas, sair fora de outras, mas eu quero manter algumas das minhas fraquezas, porque isso torna a vida mais interessante. Essa poderia ser uma espécie de abordagem ingênua. Ou apenas porque, bem, eu gosto de sexo, sorvete ou o que quer que seja. Agora, é claro, queremos evitar sermos fanáticos – agora vou desistir de tudo –  quando isso só nos deixaria loucos. Não somos capazes disso. Mas podemos ter o objetivo, a direção. É por isso que uso esta palavra "direção". Estamos trabalhando nisso: não consigo me dedicar em tempo integral à minha prática do dharma. Tenho responsabilidades familiares. Eu tenho essas coisas. Mas eu adoraria poder me dedicar em tempo integral a isso. E essa é, mesmo que não nesta vida, em alguma vida futura, a direção que eu estou tomando. Não consigo superar meus apegos às coisas: sexo, sorvete, televisão, seja lá o que for, amigos. Isso não significa que eu nunca possa ter nada disso, mas estamos falando sobre o apego a isso, o vício, de que esta é a fonte da felicidade final. É disso eu quero me libertar. E vou trabalhar nisso - devagar, mas de forma constante.

Agora, quanto ao terceiro dos três caminhos principais, bodhichitta, isto é, se vamos colocar essa direção em nossa vida em termos de um contexto Mahayana. O próprio refúgio está dentro do contexto de apontar para a liberação, por isso é comum querer saber se estamos seguindo o caminho chamado de Hinayana ou Mahayana. Então, quando estamos falando, no contexto do refúgio, sobre as verdadeiras cessações e os verdadeiros caminhos mentais, estamos falando sobre o estado de liberação, liberado do samsara incontrolável. Então, um arhat é alguém que está liberado. Esse é o objetivo no Hinayana.

Mas, semelhante à bodhichitta, poderíamos olhar para a liberação, que nós ainda não atingimos, mas que pode ser alcançada – em termos de nossa própria liberação individual em nosso contínuo mental – aspirar por isso. Bodhichitta está apontando para a nossa iluminação, que ainda não foi alcançada, mas que podemos alcançar com o objetivo de alcançar a nossa própria iluminação individual. Da mesma forma, por analogia, poderemos ter como meta nossa liberação que ainda não foi atingida, que ainda não aconteceu. E a maneira de conseguir isso não é apenas compreender a vacuidade, a descrição do vazio do Hinayana, mas também existem o amor e compaixão. Então, ao longo do caminho, vou ajudar os outros o máximo possível, porque no caminho do Hinayana, também precisamos construir um potencial positivo, uma força positiva. Então, isso se dá através do amor e da compaixão. Portanto, não devemos pensar que isto está ausente do caminho do Hinayana.

Mas também podemos colocar essa direção em nossa vida em um sentido Mahayana: que estamos buscando não apenas a liberação, mas estamos buscando a iluminação. E não só vamos praticar amor e compaixão o máximo que pudermos ao longo do caminho, mas quando alcançarmos a iluminação, poderemos realmente ajudar os outros da forma mais plena possível.

Portanto, a renúncia adiciona essa dimensão, daquilo que queremos nos libertar, o que queremos superar para seguirmos nessa direção. Quer ela seja voltada para liberação ou para bodhichitta (visando a iluminação), ela vai nos direcionar para o objetivo que buscamos, para o que vamos fazer com esse objetivo e para alguns aspectos que nos ajudarão a alcançar o objetivo, esse elemento de amor e compaixão e a compreensão da vacuidade. Então, isso nos mostra como podemos fazer isso de forma realista, o realmente será o principal para superarmos os obstáculos. E como fazemos isso de uma forma não neurótica? Através da orientação e de bons exemplos, exemplos inspiradores de professores espirituais. Lembre-se, professores espirituais devidamente qualificados.

Vamos novamente tirar alguns minutos para digerir isso, e então teremos tempo para algumas perguntas que vocês possam ter.

Medo do Pior Sofrimento como Motivação para Tomar Refúgio

Um outro ponto vem à minha mente e eu gostaria de compartilhar com vocês. Quando olhamos para a apresentação tradicional das causas de refúgio (colocando uma direção segura em nossa vida), [vemos que] são o medo de ter mais sofrimento no futuro – discutimos como isso não precisa ser neurótico – e a confiança de que existe uma maneira de evitar isso, de evitar que as coisas piorem para nós. E, se vamos tomar esse refúgio no sentido do Mahayana, compaixão pelos outros. Eu quero ir nessa direção para ajudar os outros a superar o sofrimento.

Em Berlim, onde eu moro, tenho um curso semanal de lam-rim (os estágios graduais do caminho). Quando começamos o tópico do carma, pedi às pessoas que se examinassem com honestidade: por que você não trapaceia? Por que você é honesto? Por que você não é desonesto? É pelas razões que são dadas nos textos do dharma, porque você tem medo das conseqüências negativas de ser desonesto: piores renascimentos, problemas e coisas assim? Qual é realmente a razão pela qual você não trapaceia? (Supondo que eles não trapaceiam, é claro.) Ou rouba. Essas coisas. Mas podemos fazer a mesma pergunta em termos de por que se trabalhar. Em poucas palavras, sobre o que estivemos falando. Por que se trabalhar? É porque você realmente teme que as coisas piorem se você não fizer isso? Então, tome um ou dois minutos para se examinar com honestidade.

[pausa]

O que a maioria das pessoas relatou, eu inclusive, foi que eu sou honesto e não engano os outros porque essa é a coisa certa a fazer. Simplesmente porque é o correto. Não é correto trapacear ou mentir ou ser desonesto. Isso me faz sentir desconfortável. Nos sentimos mais confortáveis e, para ser sincero, é a coisa certa a fazer. E por que me trabalhar para tentar melhorar? Bem, o que há mais para fazer na vida? Essa é a única coisa que realmente parece fazer sentido. Mais uma vez, parece ser a coisa certa a fazer. Tudo o mais – como dizem no dharma – parece trazer mais problemas. Como eu quero passar minha vida? Assistindo mais televisão, ou o quê?

Então, na verdade, isso se torna muito interessante. Quão relevante, para nós, é a discussão do dharma sobre o papel do medo em termos de consequências temíveis no futuro e "Eu não quero experimentar isso" e confio que há uma saída? Essa não é uma questão fácil de responder, devo dizer. O que você poderia dizer é que, tendo pensado em todas essas desvantagens, e tendo pensado sobre a possibilidade de evitá-las, essa direção se torna tão estável dentro de nós, que ir nesta direção e ser honesto, e assim por diante, apenas parece ser a coisa certa a fazer. E se não fizemos tudo isso nesta vida, talvez isso venha de alguns instintos ou tendências de práticas de vidas anteriores, e talvez seja reforçado pela ética religiosa ou cultural da sociedade ou da família em que foi criado –  ou de qualquer outra coisa.

Mas se estamos pensando em termos práticos da aplicação diária e da relevância em nossas vidas, acho que também temos que examinar a relevância e a praticidade das motivações clássicas que são explicadas. Isso é algo que realmente percebemos? Como isso funciona? Fazer tudo isso porque nos parece certo, isso também pode funcionar. Mas, acho que deve haver pelo menos algum tipo de confiança subjacente em todas as coisas que discutimos até agora: de que existe um objetivo. Que é possível alcançá-lo. Que vale a pena fazer isso. Que há algo que eu quero evitar. E assim por diante. E confiança em tudo isso. E então, com base nisso, parece que é certo. Caso contrário, eu não sei ... Não há muita profundidade em "Parece que é  certo." Mas acho que poderia funcionar.

O que estou dizendo é que penso que, sem algum entendimento subjacente, e sem alguma motivação emocional subjacente - e muito menos todo o lado devocional de inspiração, e assim por diante - que apenas ir nesse sentido e ser honesto, e assim por diante, porque "parece certo" não tem a profundidade e a força que poderia ter se tivessem esses outros fatores que o reforçassem. E apenas fazer algo porque parece certo, bem, poderia ir na direção de "Porque eu quero ser bom. Eu quero ser uma boa pessoa. "E nisso tem algum perigo, no sentido de seguir a direção do perfeccionismo que nós apontamos.

Se analisarmos um pouco mais profundamente, o que significa se sentir bem, então eu penso que deveríamos dizer que me sinto mais feliz agindo desta maneira. E se eu fosse trapacear e ser desonesto, ou se eu estivesse apenas desperdiçando minha vida e não fosse a lugar nenhum, eu seria mais infeliz e me sentiria mais desconfortável. Simplesmente não me sentiria bem, não estaria confortável. E, por isso, está subjacente no ensinamento básico, que todo mundo quer ser feliz; não queremos ser infelizes. E ter esta direção segura em nossa vida e ser mais honesto, e assim por diante, traz mais felicidade. E o contrário: se não temos isso, isso traz mais infelicidade. Por isso, isso apenas reafirma esse princípio básico que temos no budismo.

Agora, é claro, podemos opor-nos a isso e dizer, bem, existem alguns criminosos que trapaceiam e fazem todo tipo de coisas ilegais, e eles se sentem muito bem e saem impunes. Assim, podemos contestar. Mas então, teríamos que analisar um pouco mais profundamente quanto tempo dura esse tipo de satisfação e se é algo que é válido ou não.

O "Eu" Convencional que Toma Refúgio

A próxima pergunta é: quem é o "eu" que quer ser feliz e não infeliz, e assim coloca a direção segura do refúgio em sua vida? É o "eu" convencional, o mero "eu". Temos um contínuo de atividade mental. Eu não deveria dizer que temos, como se houvesse um "eu" separado que possui isso, tampouco "eu tenho uma vaca" ou "eu tenho um braço" – como um ou outro possuindo algo que faz parte de mim ou não faz parte de mim. Mas, em vez disso, devemos dizer que existe um contínuo individual de atividade mental que gera cada momento, com base em causas e efeitos comportamentais, ou carma. Então ele segue uma sequência lógica do que é experimentado com essa atividade mental. E, sendo individual e subjetivo, pode ser rotulado em termos de "eu". Esse "eu" pode ser rotulado, embora se refira, convencionalmente, a "eu" – que estou experimentando renascimento após renascimento; estou experimentando momento a momento. Porém, aquilo ao que ele se refere, o "eu" convencional, não corresponde a coisa alguma. Em outras palavras, temos que fazer a distinção entre a que algo se refere e o que corresponde a isso.

Deixe-me explicar a diferença. Por exemplo, a cada momento experimentamos um sentimento de algum nível de felicidade. Podemos rotular os momentos através de uma categoria, e essa categoria seria felicidade - feliz, sentindo felicidade. Então, todos os momentos são instâncias de se sentir felicidade. Embora, obviamente, isso esteja mudando de momento a momento; o nível de felicidade, etc., ou a qualidade dela, é sempre um pouco diferente. Então, quando dizemos que estamos nos sentindo felizes, isso se refere a algo. Quero dizer, estamos realmente sentindo algo, mas não há felicidade sólida e separadamente existente que corresponda a isso, que esteja em algum lugar existente, quem sabe onde, que de alguma forma eu esteja conectado e agora esteja sentindo isso. Então, quando falamos sobre coisas que correspondem a rótulos - correspondentes a essas categorias – é como se elas existissem de alguma forma em caixas, como verbetes no dicionário, ou algo assim, e depois como que paradas em algum lugar, e de alguma forma nos conectássemos a elas. Isso não corresponde a nada que seja real. Nada é assim.

Quando falamos de vacuidade, estamos falando de uma ausência de algo que corresponde a esses rótulos. No entanto, convencionalmente posso dizer: "Sinto-me feliz", e essa felicidade que sinto se refere a algo. Não é totalmente nada. Convencionalmente, estou sentindo algo e, convencionalmente, eu chamo isso de "felicidade", e a maioria das pessoas chamaria de "felicidade". Embora, é claro, seja subjetivo e individual: Como eles sabem o que estou sentindo?

Então, "eu" é a mesma coisa –  ou o eu, ou a pessoa, ou o indivíduo, o que você quiser chamar. Você pode rotular sobre este contínuo – contínuo subjetivo individual de atividade mental – de "eu", e isso se refere a algo. Mas não há nenhum tipo de "eu" separado ou algum tipo de entidade que existe por si só, separada de tudo isso, observando, ou controlando, ou vivendo dentro do corpo, como se vivesse dentro de uma casa; nada disso. Então, esse contínuo tem atividade mental, da maneira como a explicamos: com potenciais, e assim por diante, e a energia informando, e todas essas coisas. E isso pode ser rotulado "eu", um "eu" individual, e isso continua de momento a momento, sem nada sólido passando de um momento para outro, que permaneça estático e se movimente de um momento para o próximo momento, como em uma esteira transportadora.

Podemos pensar em um filme holográfico, um que seja do tipo "aqui está, acontecendo", embora ele nunca seja o mesmo de momento a momento. Não há nada sólido que vá de momento a momento em nosso filme holográfico, mas, no entanto, há continuidade. E podemos até dizer que este filme holográfico tem um enredo, mas não é que o enredo  tenha sido escrito em algum lugar e que esteja sendo seguido. Mas, olhando ao longo do tempo, podemos imputar sobre isso: bem, há uma trama, há um padrão. Então, esse é o tipo de padrão cármico do que está acontecendo.

Vinculando isso com a nossa discussão sobre o refúgio e o meu argumento de que é muito importante não ser um perfeccionista no que diz respeito a tudo isso, então vemos que, é o "eu" convencional – o que pode ser rotulado sobre esta atividade mental – que pode seguir essa direção positiva, essa direção segura, que pode alcançar liberação ou iluminação. Mas não é uma coisa sólida e separada que tem que ser perfeita e ainda não está boa o suficiente e assim por diante. Então era isso o que eu estava querendo dizer, bem, apenas faça o que tem que ser feito. Apenas se trabalhe. Ou seja, sem sentir que você é um "eu" separado e agora, de uma maneira dualista, tem que se endireitar - como se houvesse dois "eus" aqui – para fazer isso, para se trabalhar. Ou já seriam três "eus": eu teria que me colocar para trabalhar em mim mesmo. Esta é uma maneira absolutamente confusa de olhar para as coisas. E o terceiro "eu", aquele que precisa ser trabalhado - não é bom o suficiente - então eu vou ter que me levar, o motorista escravo, a trabalhar mais para dominar esse preguiçoso aqui. Isso é realmente muito neurótico.

Simplesmente "fazer o que tem que ser feito" significa que certamente temos determinação, temos força de vontade, temos atenção, temos perseverança. Todas essas coisas são fatores mentais que vão acompanhar nossa atividade mental, mas sem um "eu" separado no painel de controle, pressionando o botão: "Agora, trabalhe mais." Agora vou tirar esse tipo de coisa da caixa chamada "força de vontade e autocontrole", e eu vou me conectar a isso. Quero dizer, não é dessa forma que está funcionando. Então, quando você mais ou menos faz isso, você simplesmente faz. Quero dizer, isso meio que só acontece, quando não sentimos que há um "eu" separado que está realmente fazendo isso. Embora, é claro, eu estou fazendo isso, ninguém mais está fazendo isso.

Então, no final, apenas se resume a "Simplesmente faça o que tem que ser feito!"

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