O Que É o Budismo?

O Dalai Lama divide os ensinamentos em ciência budista, filosofia budista e religião budista. Todos podem se beneficiar dos estudos da ciência e da filosofia, enquanto o aspecto religioso é direcionado especificamente apenas para os praticantes budistas.

Buda sempre aconselhou as pessoas a não simplesmente acreditarem apenas por fé naquilo que ele disse, mas testarem tudo como se estivessem comprando ouro. Apenas se as pessoas achassem, por experiência própria, algo de benéfico em seus ensinamentos, então elas deveriam aplicá-los em suas vidas. Não há necessidade de mudar a cultura nem a religião. Buda disse: qualquer pessoa que ache algo de útil em seus ensinamentos está bem-vinda e pode desfrutar deles.

Quem foi Buda?

O fundador do budismo, Shakyamuni, viveu há 2.500 anos e era um príncipe de uma pequena cidade-estado na fronteira dos atuais Índia e Nepal. Depois de ver os sofrimentos físicos e mentais de seus súditos, Shakyamuni renunciou à sua vida real e passou muitos anos em meditação à procura de um caminho para todos os seres se libertarem de seus problemas e alcançarem a felicidade duradoura. Como resultado de sua intensa compaixão pelos outros e sua profunda compreensão da realidade, ele foi capaz de superar todos os seus defeitos, limitações e problemas, e realizar todas as suas potencialidades: assim, ele se tornou um Buda.

Um Buda não é um Deus onipotente, mas trata-se, literalmente, de alguém que é "totalmente desperto," de modo que ele ou ela pode oferecer plena ajuda aos outros.

Buda Shakyamuni, passou depois disso o resto de sua vida ensinando aos outros métodos para despertar, que ele próprio tinha realizado, para que eles também pudessem se tornar Budas iluminados.

No entanto, Buda viu que, enquanto absolutamente todos são iguais em sua capacidade de superar problemas e se tornar budas, as pessoas também são indivíduos com preferências, interesses e talentos únicos e diferentes. Respeitando essas diferenças, ele ensinou uma grande variedade de métodos para se trabalhar e superar as próprias limitações e realizar o próprio pleno potencial.

Os ensinamentos do Buda foram transmitidos de forma oral por muitos séculos antes de serem transcritos. Com o tempo, eles se espalharam pela Ásia, sendo que cada sociedade que os adotou enfatizou diferentes aspectos e os modificou de acordo com suas culturas e mentalidades. Portanto, há muitas formas de budismo, sem nenhuma que seja central. No entanto, apesar de suas muitas diferenças, todas as formas de budismo compartilham seus ensinamentos básicos.

Os Ensinamentos Budistas Básicos

O ensinamento budista mais fundamental chama-se “Quatro Nobres Verdades”. Trata-se de quatro fatos que são vistos como verdadeiros por seres altamente realizados.

Verdadeiros Problemas

Buda viu que todos enfrentam verdadeiros problemas. Embora haja muitas alegrias, não é possível negar que a vida é difícil. Lidar com nossas próprias doenças, com a velhice e a morte de nossos entes queridos, com as frustrações da vida, as decepções em nossas relações com os outros, e assim por diante, é bastante difícil. Entretanto, tornamos essas situações até mesmo mais dolorosas porque as nossas atitudes são baseadas na confusão.

A Verdadeira Causa dos Problemas

Embora os problemas que enfrentamos na vida venham de um conjunto de causas e circunstâncias, precisamos olhar mais profundamente para descobrir a fonte de nossas dificuldades. Buda descobriu que a verdadeira causa é a nossa falta de consciência ou, melhor ainda, a nossa ignorância em relação à realidade. Por exemplo, todas as pessoas pensam que são o centro do universo. Quando somos crianças pequenas, fechamos os olhos e parece que todos os outros param de existir. A voz em nossas cabeças reforça um sentimento de que ainda estaremos aqui mesmo se não houver nenhuma outra pessoa. Por causa desta impressão errônea de sempre sermos proeminentes em todas as nossas experiências, sentimos que somos a única pessoa que é importante e que tudo tem que ser sempre à nossa maneira. Nós criamos discussões, brigas e até mesmo guerras como resultado desta atitude autocentrada e autoimportante. Se fosse verdade que sou o centro do universo, então todos os outros deveriam concordar. No entanto, ninguém concorda, porque todos também pensam que são o centro do universo. Nem todos podem estar certos. Portanto, a verdadeira causa de problemas é projetar que existimos desta forma impossível, e acreditar que esta projeção de fantasia corresponde à realidade.

A Verdadeira Cessação de Problemas

No entanto, o Buda viu que é possível alcançar uma verdadeira cessação de todos os nossos problemas, para que nunca mais tenhamos que experimentá-los. Os nossos problemas são baseados na crença em algo totalmente falso – uma projeção ou fantasia, como se fôssemos o centro do universo. Então, se pararmos de acreditar nisso, os nossos problemas ao lidar com a vida igualmente cessarão.

Um Verdadeiro Caminho Mental

Uma verdadeira cessação de problemas acontece quando desenvolvemos um verdadeiro caminho mental com o qual compreendemos a realidade. Em outras palavras, se ganharmos a plena realização do fato que todos são interconectados e interdependentes e que nenhum ser é o centro do universo desenvolveremos amor e compaixão por todos os seres, baseados na compreensão de que todos são iguais. Todos os seres desejam felicidade e ninguém quer ser infeliz e todos têm direito igual a uma vida feliz. Com esta realização, nós dissolvemos a confusão sobre como nós e os outros existimos. Isso nos capacita a achar as soluções para nossos problemas para que todos possam viver juntos em paz e harmonia.

A abordagem básica no budismo, então, é científica, racional e holística. Para eliminar os problemas individuais e sociais, temos que identificar e remover suas causas. Tudo segue as leis da causa e do efeito.

O Âmbito dos Ensinamentos de Buda

A Ciência Budista

A ciência budista lida com temas internos e externos. Internamente, o Buda ensinou sobre a natureza da mente: a experiência individual e subjetiva do mundo, baseada no cérebro, mas não equivalente ao cérebro. A ciência budista suplementa a neurociência moderna ao oferecer, do ponto de vista da experiência, um mapa extenso de várias funções cognitivas. Essas funções incluem a percepção sensorial, concentração, atenção, consciência e memória, como também todas as emoções, tanto positivas quanto negativas.

A ciência budista ensina muitos métodos para treinar as funções cognitivas e emocionais da mente, mais precisamente através da análise e da meditação.

Ao criar novos caminhos neurais mais positivos – o que no budismo se chama “os verdadeiros caminhos da mente” – podemos diminuir aspectos problemáticos e melhorar as habilidades benéficas de nossa mente. A teoria budista da cognição examina de forma extensiva maneiras válidas e inválidas de saber coisas.

No nível físico, a ciência budista também engloba sistemas médicos e farmacológicos holísticos como tratamentos efetivos para muitas doenças. Do lado externo, ela apresenta uma análise detalhada da matéria e da energia, com muitas semelhanças com a física quântica. Ela também discute a origem, a vida e o fim do universo, afirmando a existência de um fluxo de universos que precedem este universo sem que haja um início.

Desde 1987, o Dalai Lama tem se encontrado de forma regular com cientistas em vários campos para compartilhar o seu conhecimento sob os auspícios do Instituto Mente e Vida. Subsequentemente, vários institutos estão conduzindo juntos contínuos estudos sobre os efeitos da neuroplasticidade da meditação budista para estabilizar a mente e desenvolver compaixão, o estado alerta e a concentração. Estes incluem a Universidade da Califórnia Davis, o Centro da Mente e do Cérebro e o Centro para Investigar Mentes Saudáveis no Centro Waisman, a Universidade de Wisconsin-Madison.

A Filosofia Budista

A filosofia budista lida com questões complexas como interdependência, relatividade e causalidade. Ela tem um sistema detalhado de lógica, baseado em teorias estabelecidas e em debates. Uma série de sistemas de princípios progressivamente mais sofisticados explica a realidade ao gradualmente desconstruir projeções cada vez mais sutis de maneiras impossíveis de existir.

A ética budista está baseada na discriminação correta entre aquilo que é benéfico e aquilo que é prejudicial, tanto para si mesmo quanto para os outros.

O comportamento ético não está baseado na obediência à autoridade ou em seguir um código legal completo com recompensas e punições. Ao invés disso, está baseado na compreensão da causa e do efeito em termos de nosso comportamento.

Isso envolve reconhecer e manter tais valores humanos básicos como a gentileza, a honestidade, a generosidade e a paciência, enquanto evitamos tanto quanto possível prejudicar os outros de quaisquer que sejam as formas.

A Religião Budista

A religião budista lida com temas como o karma, o passado e as vidas futuras, o mecanismo do renascimento, liberação do renascimento incontrolavelmente recorrente, e a realização da iluminação. Isso inclui práticas rituais como cânticos, meditação e orações. Não há um único livro sagrado no budismo, embora muitos digam que o texto do século dezoito do mestre indiano Shantideva, “Engajar-se no Comportamento do Bodhisattva”, é aquele que melhor exemplifica os ensinamentos do Buda.

Não há horas marcadas para orações no budismo, nem missas para leigos guiadas por clérigos, nem um sabá. As pessoas podem orar a qualquer momento e em qualquer lugar. No entanto, a oração e a meditação são feitas mais frequentemente ou em templos budistas ou diante de altares na própria casa. O objetivo da oração é pedir por inspiração do Buda e força orientadora para poder realizar os próprios bons propósitos.

Buda não é um deus onipotente, mas pode apenas mostrar o caminho para as pessoas se libertarem.

Também não há regras sobre dietas no budismo. Os budistas são encorajados a ser vegetarianos, se possível; mas, até mesmo se a pessoa apenas comer plantas, muitos insetos inevitavelmente serão mortos em qualquer forma de agricultura. A pessoa tenta, então, minimizar o prejuízo causado aos animais e insetos pela sua necessidade de ingerir alimentos. Buda também instruiu seus seguidores a não beber nem mesmo uma gota de álcool. O treinamento budista visa desenvolver a presença mental, disciplina e autocontrole, sendo que todos estes são perdidos ao beber álcool. No entanto, nem todos os budistas seguem o conselho de Buda.

O budismo tem tanto uma tradição monástica quanto uma tradição leiga. Há monges e monjas que têm que manter centenas de votos, incluindo o celibato total. Eles raspam a cabeça, vestem mantos especiais e vivem em comunidades monásticas. Eles devotam as suas vidas ao estudo, à meditação, à oração, e realizam cerimônias para benefício da comunidade leiga. Os leigos, por sua vez, dão suporte aos monásticos oferecendo comida, seja diretamente aos monastérios ou para os monges e monjas que vêm às suas casas todas as manhãs para recolher doações.

Em tempos modernos, os leigos também têm oportunidades de estudar os ensinamentos budistas e praticar meditação. Os centros do Dharma, com professores residentes ou visitantes, oferecem as instalações para essas atividades. “Dharma” é uma palavra que vem do sânscrito, usada para referir-se aos ensinamentos budistas.

Conclusão

Sendo um ser humano como nós, Buda viu a realidade de como realmente nós existimos, superou todos os problemas, e realizou seu pleno potencial; no budismo chamamos isso de “iluminação”.

No entanto, Buda não podia simplesmente abanar suas mãos e fazer com que todos os nossos problemas desaparecessem. Ao invés disso, ele nos mostrou um caminho que podemos seguir para nos libertar dos problemas e desenvolver as boas qualidades de nossas mentes – amor, compaixão, generosidade e muitas mais.

Os ensinamentos sobre como desenvolver essas qualidades estão abertos para todos – independente do origem cultural ou da religião. O budismo não requer fé em um Deus ou em deuses, mas simplesmente pede que vocês examinem os ensinamentos da mesma forma que fariam caso estivesse comprando uma certa quantidade de ouro. Desta forma, vocês podem chegar a uma compreensão da essência dos ensinamentos de Buda – a ética – onde naturalmente evitarão ações prejudiciais em relação a vocês mesmos e aos outros, e ativamente se envolverão com ações positivas, benéficas para vocês mesmo e os outros. Isso pode apenas levar àquilo que é desejado por todos os seres: a felicidade e o bem-estar.