As Quatro Incomensuráveis nas Escolas Hinayana, Mahayana e Bon

Introdução

As quatro atitudes incomensuráveis (tshad-med bzhi, sct. apramana, pali: appamanna) são:

  • amor incomensurável (byams-pa, sct. maitri, pali: metta)
  • compaixão incomensurável (snying-rje, sct: karuna, pali: karuna)
  • alegria incomensurável (dga'-ba, sct: mudita, pali: mudita)
  • equanimidade incomensurável (btang-snyoms, sct: upeksha, pali: upekkha).

Essas quatro atitudes também são chamadas de “as quatro moradas de Brahma” (tshangs-gnas bzhi, sct. brahmavihara, pali: brahmavihara) e são encontradas nas várias tradições Hinayana e Mahayana do budismo, assim como na tradição Bon. As diversas escolas e textos as interpretam de formas ligeiramente diferentes e algumas práticas de determinadas tradições trocam sua ordem.

A Tradição Theravada do Hinayana

Dentre as dezoito escolas do Hinayana, a tradição Theravada deriva sua prática das quatro atitudes incomensuráveis do “Sutra das Moradas de Brahma” (Pali: Brahmavihara Sutta), encontrado em “A Coleção de Divisões Progressivas” (pali: Anguttara Nikaya). Nele, o Buda especifica que todas as quatro atitudes são livres de apego, aversão e indiferença e acompanhadas de presença mental e vigilância. O Caminho da Libertação, escrito por Upatissa no século I (pali: Vimuttimagga), O Caminho da Purificação, escrito por Buddhaghosa no início do século V (pali: Visuddhimagga) e O Texto que a Tudo Inclui sobre os Pontos dos Tópicos Especiais do Conhecimento, escrito por Anuruddha no século IX (pali: Abhidhammattha-sangaha) contém explicações completas sobre sua prática.

As quatro atitudes incomensuráveis são chamadas “moradas de Brahma”, pois os quatro reinos de Brahma do plano das formas etéreas (reino das formas) correspondem às quatro atitudes incomensuráveis e aos quatro níveis de estabilidade mental (bsam-gtan, sct. dhyana, pali: jhana). Os deuses Brahma do primeiro reino de Brahma têm amor incomensurável; os do segundo reino têm compaixão incomensurável; os do terceiro, alegria incomensurável; e os do quarto, equanimidade incomensurável. Da mesma forma, praticantes do primeiro nível de estabilidade mental têm a concentração de absorção no amor incomensurável; praticantes do segundo nível a têm na compaixão incomensurável, e assim por diante. Como a palavra Brahma significa puro, excelente, ou sublime, os praticantes que desenvolvem essas atitudes incomensuráveis vivem com estados mentais puros e sublimes, como os deuses Brahma. E ainda, as moradas de Brahma são chamadas atitudes “incomensuráveis” porque incluem todos os seres limitados (seres sencientes) em todas as condições, e cada atitude não tem limites em sua intensidade.

As quatro atitudes incomensuráveis estão incluídas na lista Theravada dos 52 fatores mentais. Na explicação de Anuruddha, para esses fatores mentais, duas das quatro atitudes estão especificadas como fatores ilimitados, pois seus objetos são seres infinitos:

  • Compaixão – é o fator que faz o coração tremer quando os outros sofrem e é o desejo de que o sofrimento seja removido. O inimigo direto da compaixão é a atitude cruel ou prejudicial (pali: himsa). O inimigo indireto é o pesar, ficar emocionalmente arrebatado pelo sofrimento alheio.
  • Alegria Empática ou Alegria – é o fator de ficar feliz com a prosperidade alheia. O inimigo direto disso é a inveja e o inimigo indireto é a exultação, ficar tão animado com a prosperidade alheia que seu estado mental fica perturbado.

As formas básicas, e não as formas incomensuráveis, das duas outras atitudes estão incluídas na lista dos dezenove fatores que acompanham todos os estados mentais construtivos:

  • Amor – o desejo de que os outros sejam felizes, que está incluído na não-raiva (pali: adosa; imperturbabilidade). Seu inimigo direto é o apego, chegar perto demais.
  • Equanimidade – o fator de ter serenidade frete ao seu objeto, o que inclui ter uma mente imperturbável (Pali: tatra majjhattata). Seu inimigo direto é o apego (Pali: raga) e seu inimigo indireto é a indiferença.

A explicação de Buddhaghosa sobre a equanimidade incomensurável traz mais clareza em relação a este estado mental. A função da equanimidade incomensurável é vermos a igualdade de todos os seres. Caracterizada como uma atitude imperturbável em relação a todos os seres, ela se manifesta como uma diminuição do apego e da animosidade em relação aos outros. Ela falha quando se manifesta como indiferença. Sua causa é o entendimento de que todo ser limitado é responsável por seu próprio karma.

A meditação sobre essas quatro atitudes inclui gerar cada estado mental, um de cada vez, primeiro dirigido-o a si mesmo, e depois à mãe, ao pai, à família, aos estranhos, inimigos, aos compatriotas, e assim por diante, até que o sentimento alcance todos os seres limitados. Depois de fazer esta sequência com a primeira atitude incomensurável, geramos a próxima, e a estendemos aos outros da mesma forma. As atitudes são:

  • Desejar o bem a todos os seres limitados.
  • Desejar que seu sofrimento seja removido.
  • Alegrar-se com o seu bem estar e seus esforços para serem construtivos e trabalhar para a libertação.
  • Ser imperturbável em relação aos outros, no sentido de ficarmos calmos quando os ajudamos, não nos envolvendo demais nem sendo indiferentes, já que, em última instância, todos precisamos alcançar a libertação através de nosso próprio esforço.

Como preliminar para desenvolver o amor incomensurável, Upatissa explica que primeiro é necessário pensar nas desvantagens da raiva e do ressentimento, que são os estados mentais negativos que impedem o amor, e meditar para superá-los e desenvolver paciência. Depois, geramos amor, que é a aspiração de que nós mesmos e os outros sejam felizes. Buddhaghosa elabora esta aspiração de amor para que inclua a aspiração de que nós e os outros estejamos livres da infelicidade: que sejamos felizes e não infelizes. Buddhaghosa também oferece uma versão mais extensa dessa aspriração, listando três estados mentais de infelicidade que impedem o amor e a felicidade: que estejamos livres de inimizade (livrando-nos da animosidade e da hostilidade), de agressão (livrando-nos da irritabilidade) e de ansiedade (livrando-nos do medo), e que vivamos felizes.

As Tradições Vaibhashika e Sautrantika do Hinayana

As tradições Vaibhashika e Sautrantika da escola Sarvastivada do Hinayana compartilham o texto Comentário sobre “Um Tesouro de tópicos Especiais do Conhecimento” (Chos-mngon-pa'i mdzod-kyi rang-'grel, sct. Abhidharmakosha-bhashya) escrito por Vasubandhu no século IV ou V, como fonte para a apresentação das quatro atitudes incomensuráveis. As tradições budistas tibetanas também compartilham esse texto, como uma de suas fontes.

Vasubandhu aceita a explicação Theravada de que as quatro atitudes são incomensuráveis porque querem alcançar um número incomensurável de seres limitados. Apesar de anteriores a Buddhaghosa e Anuruddha, as explicações de Vasubandhu estão de acordo com as desses dois mestres:

  • O amor é o oposto da animosidade.
  • A compaixão é o oposto de uma atitude cruel ou prejudicial.
  • A alegria é o oposto da falta de alegria.
  • A equanimidade é o oposto (1) do desejo por pessoas ou objetos do plano de desejos sensoriais (plano do desejo) e (2) da animosidade.

A falta de alegria significa não alegrar-se com a felicidade e realizações construtivas dos outros, o que também é uma característica da inveja. Vasubandhu comenta que não aceita a afirmação Vaibhashika de que a equanimidade é o oposto do desejo por relações sexuais, mas aceita a afirmação Sautrantika de que se trata do oposto do anseio pelo próprio pai, pela mãe, pelos filhos, e outros entes próximos. Equanimidade é também o oposto de animosidade, pois a animosidade em relação a alguns seres é gerada por desejo por outros.

Vasubandhu explica isso melhor:

  • Tanto o amor quanto a compaixão têm a natureza (rang-bzhin) da não-raiva (zhe-sdang med-pa, sct: advesha; imperturbabilidade), o que Anuruddha concorda quanto ao amor.
  • A alegria tem a natureza funcional da felicidade mental (yid bde-ba).
  • A equanimidade tem a natureza/identidade (bdag-nyid) do não apego (ma-chags-pa; desapego).

Os quatro níveis de estabilidade mental (bsam-gtan), assim como os quatro reinos de Brahma, são livres de raiva. No entanto, este tipo de simetria falta na explicação de Vasubandhu sobre a alegria como sendo felicidade mental. Embora a alegria, como terceira atitude incomensurável, esteja correlacionada com o terceiro nível de estabilidade mental, este nível mental está isento de felicidade mental, assim como o terceiro nível de Brahma. Seres nesses estados têm apenas a alegria calma da paz mental.

Vasubandhu também explica os aspectos de pensamento que cada uma das atitudes incomensuráveis gera enquanto pensamos nesses seres limitados, que experimentam a felicidade e a dor físicas e a felicidade mental. Esses seres limitados são exclusivamente os renascidos atualmente no plano dos desejos sensoriais (no reino do desejo). Os renascidos atualmente nos planos das formas etéreas (reino das formas) e dos seres sem formas (reino sem forma) não têm experiências de dor; aqueles no segundo reino de Brahma e acima não têm experiências de felicidade física; enquanto os que estão no terceiro reino de Brahma e acima não têm experiências de felicidade mental.

  • O amor presta atenção nesses seres limitados pensando: “Que todos os seres limitados tenham felicidade física.”
  • A compaixão presta atenção pensando: “Que os seres limitados não sofram (dor).”
  • A alegria presta atenção pensando: “Que todos os seres limitados tenham felicidade mental.”
  • A equanimidade presta atenção pensando: “Os seres limitados são iguais”. (mnyam-pa)."

No que diz respeito à alegria incomensurável, Vasubandhu difere consideravelmente da apresentação Theravada. Ao invés da alegria ser apenas o estado mental de regozijo, que se alegra em relação a qualquer alegria que os outros tenham, trata-se do estado mental que também deseja que outros tenham felicidade mental (alegria).

Vasubandhu também indica como desenvolver as atitudes incomensuráveis. Para desenvolver amor incomensurável, pensamos que, assim como eu tive breves experiências de felicidade e os budas, bodisattvas, aryas e arhats alcançaram uma felicidade mais estável, que todos os seres limitados alcancem a felicidade. Pensando desta forma, imaginamos que os seres limitados são felizes. Se não conseguirmos, por termos muitas aflições mentais (emoções e atitudes perturbadoras), é possível fazer isso em etapas. Podemos dividir nossos amigos em três categorias de proximidade. Primeiro dirigimos a aspiração de felicidade para aqueles que são muito próximos, depois para aqueles que são meio próximos, e finalmente aqueles que são apenas um pouco próximos. Quando o sentimento de amor se tornar igual para todos os três grupos, dirigimos a aspiração de felicidade para pessoas com quem temos uma relação comum, depois aquelas com quem temos uma leve inimizade, depois uma inimizade média, e finalmente uma grande inimizade. Quando sentirmos a mesma intensidade de amor em relação ao nosso amigo mais querido e nosso maior inimigo, podemos estender o amor em etapas para pessoas em nosso bairro, nossa cidade, nosso distrito, país, e depois o mundo inteiro.

Vasubandhu também explica que aqueles que são capazes de perceber boas qualidades em todos os seres são capazes de rapidamente desenvolver o amor incomensurável. Eles percebem que a presença ou ausência de boas qualidades em um determinado momento é devido ao amadurecimento dos resultados kármicos positivos ou negativos.

Desenvolvemos compaixão e alegria incomensuráveis através da mesma sequência que fizemos com o amor incomensurável. Para a compaixão incomensurável, pensamos: “Os seres limitados estão afundados no rio dos muitos tipos de sofrimento. Como seria maravilhoso se eles se livrassem rapidamente de seu sofrimento!” Para a alegria incomensurável, pensamos: Como seria maravilhoso se eles também ficassem alegres!” Vasubandhu não especifica o pensamento para desenvolver a equanimidade incomensurável, mas menciona que começamos a sequência estendendo a equanimidade incomensurável para pessoas com quem mantemos uma relação comum. Ele também menciona que apenas os humanos podem desenvolver as quatro atitudes incomensuráveis.

A Tradição Mahayana

Dentro da tradição Mahayana, as quatro atitudes incomensuráveis são mencionadas em muitos sutras, como:

  • O Sutra do Lótus Branco do Dharma Sagrado (Dam-pa'i chos pad-ma dkar-po zhes-bya-ba theg-pa chen-po'i mdo, sct: Saddharmapundarika-nama Mahayana Sutra; O Sutra do Lótus)
  • O Sutra da Grande Libertação Final de todos os Sofrimentos (Yongs-su mya-ngan-las 'das-pa chen-po'i mdo, sct: Mahaparinirvana Sutra).

A tradição Nichiren do budismo japonês interpreta amor, compaixão e alegria incomensuráveis, meramente mencionados no Sutra do Lótus, de forma parecida com a encontrada na apresentação Theravada. Portanto, a alegria incomensurável, por exemplo, é a atitude de se alegrar quando os seres limitados são felizes. A equanimidade incomensurável, no entanto, é explicada como a atitude imperturbável em relação à felicidade e infelicidade, à dor e ao prazer, em todas as circunstâncias, como quando encontramos amigos ou inimigos. Trata-se de um estado de completa tranquilidade. Além disso, a equanimidade incomensurável é o estado mental livre das atitudes de amor, compaixão e alegria incomensuráveis. É estar consciente dos outros de uma forma que não sentimos felicidade nem infelicidade, e também não sentimos atração nem repulsão. Assim sendo, a equanimidade incomensurável é paralela ao quarto nível de estabilidade mental, no qual estamos livres de todos os sentimentos de infelicidade, de felicidade física e mental e da alegria tranquila da paz mental.

Outro sutra Mahayana, O Sutra Ensinado pelo Arya Akshayamati (Blo-gros mi-zad-pas bstan-pa'i mdo, sct: Arya Akshayamati-nirdesha Sutra), contém uma explicação sobre os resultado em vidas futuras do desenvolvimento das quatro atitudes incomensuráveis na meditação. Parecem consistentes com a interpretação abaixo do Sutra do Lótus:

  • Ao desenvolvermos grande amor – renascemos livres de dor.
  • Ao desenvolvermos grande compaixão – renascemos com as raízes de virtude estáveis.
  • Ao desenvolvermos grande alegria – renascemos possuindo felicidade física, uma crença firme na verdade e uma suprema alegria mental.
  • Ao desenvolvermos grande equanimidade – renascemos com uma mente que não se agita com a felicidade ou infelicidade.

Aqui, as atitudes mencionadas são “grande” amor, “grande” compaixão, e assim por diante. Não fica claro se as “grandes” formas e as formas “incomensuráveis” são equivalentes. Ainda assim, juntando os resultados mencionados acima com os estados inimigos da mente, especificados por Vasubandhu (não obstante que Vasubandhu defina a alegria incomensurável de forma diferente), podemos talvez entender esses resultados da seguinte forma:

  • O amor derrota seu inimigo: a animosidade e o ódio. Assim, no que diz respeito ao resultado dessas causas em nossa experiência (myong-ba rgyu-mthun-gyi 'bras-bu), não desejar mal aos outros tem como resultado não sofrer mal.
  • A compaixão derrota seu inimigo: uma atitude cruel ou prejudicial. O ódio e a raiva, ou o desejo de cometer uma violência contra alguém de quem não gostamos, destrói as raízes de nossa força construtiva (dge-rtsa, raízes da virtude) e faz com que seu amadurecimento se atrase e seja muito mais fraco. Portanto, desejar que os outros fiquem livres do sofrimento, ao invés de desejar que sofram, faz com que essas raízes de virtude fiquem estáveis em nosso continuum mental.
  • Alegrar-se com as boas qualidades, com as realizações no Dharma e com a felicidade alheia, derrota o inimigo da alegria: a inveja ou o não alegrar-se com as boas qualidades alheias e assim por diante. Portanto, no que diz respeito ao resultado dessas causas em nosso comportamento (byed-pa rgyu-mthun-gyi 'bras-bu), reconhecer as verdadeiras qualidades alheias e alegrar-se com elas resulta em uma crença firme naquilo que é verdadeiro, já alegrar-se pela felicidade alheia resulta em felicidade mental e física.
  • A equanimidade supera seus inimigos: o apego, o desejo e a animosidade. É um sentimento neutro em relação a todos os outros. Portanto, o resultado dessas causas em nosso comportamento é não nos agitarmos com sentimentos de felicidade ou infelicidade.

Os Textos Indianos Mahayana de Maitreya e Asanga

A Estabilidade Mental e a Consciência Discriminativa Necessárias para que as Quatro Atitudes Sejam Incomensuráveis

As quatro atitudes incomensuráveis também aparecem nos textos indianos Mahayana, como em Uma Filigrana de Realizações (mNgon-rtogs rgyan, sct. Abhisamayalamkara), um comentário do futuro Buda, Maitreya, sobre os Sutras Prajnaparamita (Pha-rol-tu phyin-pa'i mdo; Sutras sobre a Consciência Discriminadora de Vasto Alcance, A Perfeição dos Sutras da Sabedoria). Nesse texto, cultivar as quatro atitudes aparece como uma das nove práticas nas quais os bodhisattvas ('jug-sgrub) se engajam a fim de alcançar a consciência onisciente (rnam-mkhyen, onisciência) de um Buda. Portanto, cultivamos as quatro atitudes incomensuráveis depois de desenvolver o ideal de bodhichitta, que é alcançar a iluminação para o benefício de todos.

De acordo com Maitreya, embora seja possível alcançarmos essas quatro atitudes com uma mente que ainda está na esfera do plano dos desejos sensoriais, as atitudes desenvolvidas com esta mente não são “incomensuráveis”. As formas incomensuráveis são apenas as alcançadas com uma mente que atingiu o estado efetivo (dngos-gzhi) de um dos quatro níveis de estabilidade mental.

Em Um Rosário Dourado de Explicações Excelentes (Legs-bshad gser-phreng), um comentário sobre Uma Filigrana de Realizações, o fundador da escola Gelug do início do século XIV, Tsongkhapa (Tsong-kha-pa Blo-bzang grags-pa), explica que bodhisattvas precisam praticar as quatro atitudes incomensuráveis em conjunto com todas as seis atitudes de amplo alcance (pha-rol-tu phyin-pa, sct. paramita, perfeições), e não apenas com um nível de estabilidade mental. Em especial, os bodhisattvas precisam fazer pleno uso de seu entendimento da natureza de todos os fenômenos, aplicando-o em benefício dos outros seres através das quatro atitudes. Uma vez que o apego (mngon-zhen) a formas impossíveis de existência é o principal obstáculo para beneficiar os outros é preciso, sobretudo, desenvolver as quatro atitudes incomensuráveis com a consciência discriminativa de amplo alcance (a perfeição da sabedoria). Em outras palavras, as quatro atitudes têm de ser desenvolvidas sem um alvo de referência (dmigs-med, sem objetivo) a um modo impossível de existência da ação de aspirar, do que se aspira que ocorra e do meditador que está aspirando. “Sem um alvo de referência” significa sem focar nos três círculos (‘khor-gsum) da ação de aspirar – a ação em si, o objeto, e o agente – que existem de uma forma impossível, e são aquilo que está implicado na atitude incomensurável ou aquilo a que ela se refere.

Quando não é acompanhada pelas seis atitudes de amplo alcance, a prática das quatro incomensuráveis age meramente como causa para um renascimento como um deus Brahma em um dos quatro reinos de formas etéreas. Portanto, o mestre Gelug do fim do século XVIII, Detri (sDe-khri 'Jam-dbyangs thub-bstan nyi-ma), em sua Apresentação do Estágio de Geração do Glorioso Kalachakra (dPal-dus-kyi ‘khor-lo’i bskyed-rim-gyi rnam-bzhag ‘jam-dpal zhal-lung), explica que "tshangs-pa" (sct. brahma) pode significar deuses Brahma ou nirvana, já que ambos são puros, excelentes e sublimes; enquanto "gnas" (sct. vihara, morada) também pode significar uma causa. “Nirvana", aqui, significa o estado iluminado de um buda.

Condições para Desenvolvermos as Quatro Atitudes Incomensuráveis

Citando Maitreya em seu Filigrana para os Sutras Mahayana (Theg-pa chen-po'i mdo-sde rgyan, sct. Mahayanasutra-alamkara), Tsongkhapa continua, no mesmo comentário, a explicar as condições necessárias para desenvolvermos as quatro atitudes incomensuráveis, como a compaixão incomensurável, por exemplo. A explicação está de acordo com as teorias do sistema de princípios Chittamatra seguido no texto de Maitreya.

  • As condições causais (rgyu'i rkyen) – são as sementes para as quatro atitudes, não estão associadas com confusão (zag-med-kyi sa-bon) e são imputáveis na consciência base que a tudo engloba (kun-gzhi rnam-shes, sct. alayavijnana; consciência depósito). Essas sementes são aspectos dos traços da família que permanece naturalmente (rang-bzhin gnas-rigs; natureza búdica que permanece). Em outras palavras, as tendências que permitem o desenvolvimento das quatro atitudes incomensuráveis estão presentes em todos os seres limitados, como aspectos de suas naturezas búdicas.
  • A condição dominante (bdag-po'i rkyen) para o desenvolvimento das quatro atitudes é a inspiração e a orientação de um professor espiritual. Uma condição dominante é a condição que exerce o papel de influência principal em trazer um resultado, tal como os sensores dos olhos para o surgimento de uma cognição visual.
  • A condição imediatamente precedente (de-ma-thag rkyen) é a compreensão da natureza própria (rang-bzhin) de todos os fenômenos. A consciência de tal compreensão precisa ser o precedente imediato ao surgimento das atitudes incomensuráveis. Em outras palavras, os fatores necessários para que as sementes de natureza búdica e as quatro atitudes incomensuráveis cresçam são a influência positiva de um professor espiritual e um entendimento correto da natureza de todos os fenômenos, especialmente a natureza de todos os seres limitados. Além disso, conforme mencionado acima, a mente que desenvolve as quatro atitudes incomensuráveis precisa ter um ideal de bodhichitta e um nível avançado de concentração.

Definições de Asanga Para as Quatro Atitudes

Tsongkhapa cita as definições das quatro atitudes incomensuráveis dadas pelo mestre indiano do século III, Asanga , em sua Antologia de Tópicos Especiais de Conhecimento (Chos mngon-pa kun-las btus-pa, Skt. Abhidharmasamuccaya):

  • O amor incomensurável é a concentração absorta (ting-nge-'dzin, sct. samadhi) ou consciência discriminativa (shes-rab, sct. prajna; sabedoria), baseada em um dos níveis de estabilidade mental, que é aplicada ao âmbito (situação) do pensamento “Que os seres limitados encontrem a felicidade”. Também inclui as consciências primária e subsidiária (mente e fatores mentais) congruentes (mtshungs-ldan) com uma das duas.

As outras três atitudes incomensuráveis têm a mesma definição básica do amor incomensurável, mas com diferentes pensamentos:

  • A compaixão incomensurável tem o pensamento: “Que os seres limitados estejam livres do sofrimento.” Em outra parte, Asanga explica esse sofrimento que aqui inclui três formas: o problema do sofrimento, o problema da mudança, e o problema que a tudo engloba.
  • A alegria incomensurável tem o pensamento: “Que todos os seres limitados nunca se separem da felicidade.”
  • A equanimidade incomensurável tem o pensamento: “Que os seres limitados sejam beneficiados (phan-pa)."

As Quatro Características Necessárias para que as Quatro Atitudes Incomensuráveis Sejam Estáveis

Para um entendimento mais claro das quatro atitudes incomensuráveis, Tsongkhapa retorna à Filigrana para os Sutras Mahayana, de Maitreya. Aqui, Maitreya lista as quatro características específicas que as quatro atitudes incomensuráveis devem ter para serem estáveis. Elas precisam (1) livrar o continuum mental daquele que as desenvolve de seus fatores desarmônicos específicos, (2) gerar a realização dos estados específicos que se opõem a esses fatores, (3) ter formas específicas de focar em seus objetos, (4) realizar uma função específica.

  1. Os fatores desarmônicos dos quais as quatro atitudes libertam o praticante são malevolência, uma atitude cruel ou prejudicial, falta de alegria, e malevolência e desejo conjuntamente. Aqui, Maitreya concorda com Vasubandhu.
  2. Os estados específicos que a pessoa alcança, que se opõem aos fatores desarmônicos, são os estados de consciência profunda e não-conceitual (rnam-par mi-rtog-pa'i ye-shes) que são livres destes fatores.
  3. As maneiras específicas de focar em seus objetos são: como seres limitados, como fenômenos (chos, skt. dharma) e sem um alvo de referência (dmigs-med, sem alvo). Essa característica é um detalhamento da compreensão da realidade, necessária como condição imediatamente precedente ao desenvolvimento das quatro atitudes, conforme mencionado acima. Em outra passagem do mesmo texto, Maitreya afirma que os objetos aos quais as quatro atitudes estão direcionadas são os seres limitados que não são felizes, os que experimentam sofrimento, os que já têm felicidade e os que têm atração ou repulsão a outros seres por dividi-los entre próximos e distantes.
  4. A função específica que as quatro atitudes têm em comum é amadurecer plenamente os seres limitados. Esta característica está de acordo com a explicação de Maitreya das quatro atitudes incomensuráveis, em Uma Filigrana de Realizações, como práticas nas quais os bodhisattvas se engajam para alcançar a consciência onisciente. Com a consciência onisciente, bodhisattvas serão mais capazes, através de seus ensinamentos habilidosos, de prover as condições para que as sementes da natureza búdica possam amadurecer no continuum mental de todos os outros seres. Desta forma, os bodhisattvas ajudam a guiar todos os seres limitados para a iluminação.

As Três Formas como as Quatro Atitudes Focam em Seus Objetos

Tsongkhapa então elabora o terceiro ponto, as maneiras específicas como as quatro atitudes focam em seus objetos, de acordo com as teorias Chittamatra de Maitreya e Asanga.

  • "Quando as quatro atitudes incomensuráveis focam em seus objetos como seres limitados, consideram que eles têm a natureza essencial de ser pessoas sólidas. (gang-zag-kyi rdzas-kyi ngo-bo).
  • Quando focam em seus objetos como fenômenos, consideram que eles não têm existência sólida mas ainda têm a natureza essencial dos meros fenômenos (chos-tsam).
  • Quando focam em seus objetos sem um alvo referencial, os consideram meros fenômenos, separados de uma forma impossível de existir no que diz respeito à consciência que os toma como objetos e eles mesmos como objetos desta consciência (gzung-'dzin-dang bral-ba)." Em outras palavras, as variações sem alvo das quatro atitudes focam nas pessoas e nos momentos de consciência que as reconhece como não vindo de fontes (rdzas tha-dad) diferentes – ambos derivam da mesma semente kármica no alayavijnana daquele que as reconhece.

Em Esclarecendo a Intenção: Um Comentário para o Grande Tratado (de Chandrakirti) "Supplemento ao Caminho do Meio” (bsTan-bcos chen-po dbu-ma-la 'jug-pa'i rnam-bshad dgongs-pa rab-gsal), Tsongkhapa apresenta a explicação Madhyamaka para as três formas como as atitudes incomensuráveis focam em seus objetos. A explicação Madhyamaka esclarece a concisa apresentação Chittamatra dos dois primeiros tipos de foco, dada por Tsongkhapa em Um Rosário Dourado de Explicações Excelentes. Ao explicar todos os três tipos de foco em termos dos diferentes níveis de consciência discriminativa, Tsongkhapa expande a colocação de Maitreya, em Uma Filigrana de Realizações, de que as quatro atitudes incomensuráveis precisam ser desenvolvidas conjuntamente com as seis atitudes de amplo alcance, especialmente a consciência discriminativa de amplo alcance. Sua explicação também é a conclusão da elaboração feita por Asanga na Antologia de Tópicos Especiais do Conhecimento, deque as quatro atitudes incomensuráveis são estados de concentração absorta ou de consciência discriminativa. De acordo com o versículo de Chandrakirti sobre o qual tece o comentário, Tsongkhapa explica os três tipos de foco, aqui apenas nos termos da compaixão.

  • A compaixão que foca em seus objetos como seres limitados é acompanhada da consciência discriminativa de que os seres limitados têm uma visão equivocada em relação ao entrelaçamento transitório ('jig-lta) de seus agregados. Com esta atitude perturbadora, eles se apegam aos fatores agregados de sua experiência como sendo “eu” e “meu”, apesar de seus agregados não existirem desta forma impossível. Por conseguinte, eles renascem repetidamente sob a influência do karma e das aflições mentais, experimentando os três tipos de sofrimento. A formulação Chittamatra dessa primeira maneira de focar está em harmonia com a explicação Madhyamaka. Ela apenas indica outro aspecto dessa primeira maneira de focar, que dessa maneira os bodhisattvas ainda reconhecem as pessoas como seres estáticos, monolíticos, independentes (rtag gcig rang-dbang-gi sems-can) e/ou como seres inerentemente cognoscíveis (rang-rkya thub-pa'i rdzas-yod-kyi sems-can).
  • A compaixão que foca em seus objetos como meros fenômenos não reconhece mais as pessoas como seres estáticos, monolíticos e independentes ou como seres inerentemente cognoscíveis. Ao invés disso, ela vem acompanhada da consciência discriminativa de que as pessoas são meramente imputadas nos fenômenos não-estáticos de seus agregados, que servem como base para a imputação. Esse é o significado da formulação Chittamatra que afirma que essa maneira de focar foca em seus objetos como meros fenômenos. Esta maneira de focar é exemplificada pelo foco nos seres limitados como sendo fenômenos não-estáticos, mas é bem mais profunda que isso. Não se trata apenas do fato de que as pessoas mudam de um momento para o outro, mas de que são imputadas em bases que mudam de momento a momento.
  • A compaixão que foca em seus objetos sem um alvo referencial foca nos seres limitados como vazios de uma existência estabelecida por sua própria natureza (rang-bzhin-gyis grub-pas stong-pa, vazios de existência inerente). Este tipo de vacuidade significa que os seres limitados não podem ser encontrados, tendo uma existência estabelecida por si mesmos, como os objetos a que se referem (btags-don) os nomes e conceitos usados para eles. Tais objetos referenciais ou objetos conceitualizados (zhen-yul) não existem. Por isso, esse tipo de compaixão foca nos seres limitados sem destinar à compaixão um objeto referencial encontrável. Este tipo de foco, sem um objeto referencial, existe unicamente na Prasangika-Madhyamaka.

Tsongkhapa continua, em Um Rosário Dourado de Explicações Excelentes, destacando duas apresentações sobre o nível dos praticantes que desenvolvem cada um desses níveis de foco. De acordo com o Sutra Ensinado pelo Arya Akshayamati, quando as quatro atitudes incomensuráveis têm com alvo os seres limitados, esse é o nível de prática de quando bodhisattvas começam a desenvolver bodhichitta; quando têm como alvo os fenômenos, está no nível de quando eles entram no comportamento de bodhisattvas com os votos de bodhisattvas; e quando não têm alvo está no nível de quando alcançam as cinco mentes do caminho (cinco caminhos). No entanto, de acordo com Shakyabodhi, mestre indiano do século VII, quando as quatro atitudes incomensuráveis têm como alvo os seres limitados, a prática está no nível dos seres comuns (so-skye) – que não têm a cognição não-conceitual da ausência de uma identidade impossível nas pessoas (gang-zag-gi bdag-med). Quando as quatro atitudes tem como alvo os fenômenos, sua prática está no nível compartilhado por shravakas e pratyekabuddhas; e quando não têm alvo, está no nível dos budas e bodhisattvas.

As Duas Variantes Principais da Alegria Incomensurável e da Equanimidade Incomensurável

A partir desta pesquisa, torna-se evidente que a alegria incomensurável tem duas principais variantes. De acordo com as tradições Theravada e Nichiren, trata-se do estado mental que se alegra com a felicidade alheia. De acordo com as duas tradições do abhidharma (mngon-par chos, tópicos de conhecimento) e seus textos associados, seguidos por várias escola de budismo tibetano, esse estado mental vai além de meramente alegrar-se. Vasubandhu, que representa a posição Vaibhashika/Sautrantika, afirma que a alegria incomensurável também é essencialmente o desejo de que os outros tenham felicidade mental; enquanto Asanga, que representa a escola Chittamatra, explica que também é essencialmente o desejo de que os outros nunca deixem de ter a felicidade que já têm. As várias tradições do budismo tibetano adotam ou a formulação de Asanga ou de Vasubandhu e, portanto, diferem em um primeiro momento, em suas explicações sobre a felicidade da alegria incomensurável, que pode ser a felicidade que desejamos aos outros ou a felicidade que desejamos que os outros não deixem de ter. E também diferem no que diz respeito aos outros já terem ou ainda não terem a felicidade.

De acordo com o Filigrana para os Sutras Mahayana, os objetos a que se destina a equanimidade incomensurável são seres limitados que têm atração ou repulsão em relação aos outros, por dividi-los entre próximos e distantes. Em outra passagem do mesmo texto, Asanga especifica o objeto da equanimidade incomensurável como sendo a mente que tem aflições mentais. No entanto, uma mente sob influência das aflições mentais pode ser simplesmente a mente do meditador como também a mente de todos os outros seres.

A apresentação de Asanga, na Antologia de Tópicos Especiais do Conhecimento, sobre o pensamento que acompanha a equanimidade incomensurável, “Que os seres limitados sejam beneficiados”, afirma que há duas formas de equanimidade aqui, já que a frase está aberta a duas interpretações. Uma é “Que os seres limitados sejam igualmente beneficiados” e portanto indica equanimidade na mente do meditador. A outra é “Que os seres limitados sejam beneficiados por seu próprio desenvolvimento da equanimidade.”

Portanto, Tsongkhapa, na Grande Apresentação dos Estágios do Caminho Gradual (Lam-rim chen-mo), identifica dois tipos de equanimidade incomensurável. Um tipo é livre de apego e aversão, com uma atitude imperturbável dirigida aos outros, o que está de acordo com as apresentações Theravada, Nichiren, e Vaibhashika/Sautrantika. O outro tipo deseja principalmente que os outros seres tenham equanimidade, que estejam livres de atração e repulsão. Novamente, diferentes textos dentro das várias tradições do budismo tibetano afirmam um ou outro tipo.

Atitudes que Levam ao Desenvolvimento da Bodhichitta

Diferentes textos dentro das várias tradições do budismo tibetano também divergem no que diz respeito à colocação da meditação das quatro atitudes incomensuráveis no caminho do bodhisattva. Alguns seguem a apresentação de Maitreya em Uma Filigrana de Realizações e Uma Filigrana para os Sutras do Mahayana, colocando a meditação das quatro atitudes depois do desenvolvimento de bodhichitta, como sendo uma das práticas nas quais os bodhisattvas se engajam a fim de alcançar a iluminação para o amadurecimento de todos os seres. Outros seguem a apresentação oferecida pelo mestre indiano Atisha, do fim do século X. Em Um Comentário sobre os Pontos Difíceis em “Uma Lâmpada no Caminho Para a Iluminação” (Byang-chub lam-gyi sgron-me'i dka'-'grel, sct. Bodhimargapradipa-panjika) e Método de Redação Concisa para Realizar o Caminho do Mahayana (Theg-pa chen-po'i lam-gyi sgrub-thabs yi-ger bsdus-pa, sct. Mahayana-patha-sadhana-varna-samgraha), Atisha afirma que as quatro atitudes incomensuráveis são preliminares ao desenvolvimento do ideal de iluminação de bodhichitta.

Antes de fazer essa afirmação, no primeiro desses dois textos, Atisha cita uma longa passagem de O Sutra Ensinado pelo Arya Akshayamati, que contém a citação mencionada acima. Assim sendo, poderíamos supor que Atisha concorda com a ordem das quatro atitudes incomensuráveis encontrada neste sutra, que começa com amor. No entanto, muitos dos textos tibetanos que seguem sua orientação a respeito da sequência das meditações mudam a ordem e colocam a equanimidade em primeiro lugar.

Exemplos Nyingma onde Atisha Coloca a Meditação nas Quatro Atitudes antes da Bodhichitta e a Equanimidade em Primeiro Lugar

"Repouso e Restauração na Natureza da Mente" de Longchenpa

Dentro da tradição Nyingma, o mestre Longchenpa (Klong-chen-pa Dri-med ‘od-zer), do século XIV, segue a explicação de Atisha. Em Repouso e Restauração na Natureza da Mente (Sems-nyid ngal-gso; Gentilmente Curvado para nos Aliviar), ele apresenta uma explicação extensa das quatro atitudes incomensuráveis como prática preliminar ao desenvolvimento de bodhichitta. Ele afirma que, embora a ordem tradicional das quatro seja amor, compaixão, alegria, e equanimidade, elas não possuem uma ordem fixa de prática. Para iniciantes, é mais adequado meditar primeiro na equanimidade; caso contrário as outras três atitudes serão parciais e não serão estendidas igualmente a todos. Quando este é o caso, as quatro atitudes geram apenas resultados samsáricos.

Quanto às características que definem as quatro atitudes:

  • Equanimidade incomensurável – uma mente que considera a todos igualmente
  • Amor incomensurável – o desejo de que todos os seres sejam felizes
  • Compaixão incomensurável – o desejo de que estejam livres do sofrimento
  • Alegria incomensurável – o desejo de que nunca se afastem da felicidade

A lista de Longchenpa junta o tratamento de Asanga da alegria incomensurável com o tratamento de Vasubandhu da equanimidade incomensurável. No entanto, a elaboração de Longchenpa sobre as quatro atitudes revela diferenças significativas das duas apresentações indianas:

  • A equanimidade incomensurável é desenvolvida em estágios. Primeiro nos livramos das emoções destrutivas do apego, aversão e indiferença em relação aos outros, bem como de qualquer noção de proximidade ou distância dos outros seres. Na terminologia Gelug usada na Coleção de Trabalhos do Tutor Trijang Rinpoche (Yongs-'dzin Khri-byang gsung-‘bum), essa é a “mera equanimidade” (btang-snyoms-tsam): a equanimidade compartilhada entre Hinayana e Mahayana. Depois vem o segundo tipo de equanimidade, que é a desenvolvida quando estamos prestes a ajudar alguém. Na terminologia Gelug, esse tipo de equanimidade é desenvolvida exclusivamente no Mahayana (thun-mong ma-yin-pa'i btang-snyoms). Para desenvolvermos esses dois tipos de equanimidade pensamos que a pessoa foi nossa amiga, inimiga ou simplesmente uma estranha em várias vidas, e depois geramos o desejo de que, assim como essa pessoa, todos os seres possam estar livres do apego, aversão e indiferença e da noção de proximidade e distância. Assim, Longchenpa apresenta os dois tipos de equanimidade mencionados por Tsongkhapa: uma atitude mental igualitária para com todos e o desejo de que tenham essa mesma atitude. Dessa forma, desenvolve-se uma atitude de igualdade, tanto no que diz respeito a si mesmo quanto no que diz respeito aos outros.
  • O amor incomensurável aspira que todos tenham a felicidade temporária dos renascimento melhores e a felicidade definitiva do estado iluminado. Esse amor é maior do que o amor de uma mãe por seu filho. Aqui, Longchenpa apresenta o amor incondicional como sendo muito mais do que a aspiração de que os outros seres tenham felicidade física, conforme afirma Vasubandhu. E é maior inclusive do que a aspiração de que os outros tenham felicidade mental, que é o pensamento que, segundo Vasubandhu, acompanha a alegria incomensurável.
  • A compaixão incomensurável aspira que todos os seres estejam livres do sofrimento, temos a mesma intolerância frente ao sofrimento dos outros seres que temos com o sofrimento de nossos próprios pais. Essa atitude também oferece a todos os seres em sofrimento nossa força positiva (mérito), do passado, presente e futuro, assim como nosso corpo e posses, a fim de ajudá-los a livrarem-se de sua dor.
  • A alegria incomensurável está baseada na compreensão de que não há necessidade de fazermos com que todos os seres permaneçam em um estado de felicidade suprema, já que todos os seres tem a felicidade como um aspecto de sua natureza búdica. Portanto, essa atitude incomensurável é a aspiração de que nunca se afastem da realização de sua felicidade inata. Os seres não realizam sua felicidade inata quando a falta de consciência de sua existência a obscurece.

Em conformidade com os ensinamentos do dzogchen (rdzogs-chen, grande completitude), Longchenpa explica que cada uma das quatro atitudes incomensuráveis tem duas formas. Uma tem todos os seres como alvo (dmigs-bcas) da mente limitada (sems) e está misturada com as máculas fugazes dos obscurecimentos emocionais e cognitivos (nyon-sgrib e shes-sgrib). A outra baseia-se na consciência prístina (rig-pa) e não tem um alvo (dmigs-med) como a anterior, entretanto, difere significativamente das apresentações sobre as formas sem alvo das escolas Chittamatra e Madhyamaka, conforme explicado por Tsongkhapa. Depois de desenvolver cada uma das quatro incomensuráveis na forma com alvo tenta-se desenvolve-las na forma sem alvo.

  • Na equanimidade sem alvo, repousamos no aspecto de espaço aberto (klong) da consciência prístina, primordialmente livre das máculas efêmeras das aflições mentais, como o apego ou aversão e o conceito de proximidade ou distância.
  • No amor sem alvo, repousamos no aspecto de igualdade (mnyam-nyid) do espaço aberto da consciência prístina que, com o amor, estende-se igualmente para todos os lugares.
  • Na compaixão sem alvo, repousamos no aspecto de absorção total (mnyam-bzhag) do espaço aberto da consciência prístina, que também se estende pela fase de realização subsequente (rjes-thob) com a inseparabilidade da abertura e compaixão.

Após a meditação nas formas com alvo e sem alvo das quatro atitudes incomensuráveis, utilizando-se a sequência que começa com a equanimidade, Longchenpa descreve mais meditações, mas agora começando pelo amor. Estas meditações, que utilizam a ordem tradicional das quatro atitudes, ajudam na diminuição do apego que pode surgir ao alvo da meditação.

  • Quando, por conta da meditação do amor com alvo, nos apegamos à todas as pessoas como sendo nossos amigos devemos meditar na compaixão sem alvo, a fim de superarmos o sofrimento que surge do entrelaçamento kármico confuso com os outros.
  • Quando nos fixamos demais nos outros seres como objetos realmente existentes, por conta da compaixão com alvo, devemos meditar na alegria sem alvo, a fim de superarmos a depressão e a exaustão que surgem de tal fixação.
  • Quando nossa mente fica muito entusiasmada ou inconstante, por conta da alegria com alvo, devemos meditar na equanimidade sem alvo, a fim de nos livrarmos do apego à proximidade ou distância dos outros.
  • Quando nos tornamos indiferentes ou passivos, por conta da equanimidade com alvo, devemos meditar no amor sem alvo, que se estende igualmente para todos.

Quando nossa prática das quatro atitudes tornar-se estável, podemos meditar usando qualquer ordem.

Longchenpa também conecta a meditação nas quatro atitudes incomensuráveis com as práticas para dissolver as cinco aflições mentais em suas formas subjacentes de consciência profunda:

  • O amor age como a circunstância que permite ao ódio e à raiva dissolverem-se na consciência profunda subjacente do espelho (me-long lta-bu'i ye-shes).
  • A compaixão age como a circunstância que permite ao desejo e ao apego dissolverem-se na consciência profunda subjacente da individualização (so-sor rtogs-pa'i ye-shes).
  • A alegria age como a circunstância que permite ao ciúme e à inveja dissolverem-se na consciência profunda subjacente realizadora (bya-ba grub-pa'i ye-shes).
  • A equanimidade age como a circunstância que permite ao orgulho e à arrogância dissolverem-se na consciência profunda subjacente da esfera da realidade (bya-ba grub-pa'i ye-shes).

“Instruções Pessoais de Meu Professor Totalmente Excelente” de Patrul

Em seu livro Instruções Pessoais de Meu Professor Totalmente Excelente (Kun-bzang bla-ma'i zhal-lung; Palavras de Meu Professor Perfeito) Patrul, um mestre Nyingma do século XIX, também segue a colocação de Atisha no que se refere às quatro incomensuráveis como preliminares para o desenvolvimento de bodhichitta. Assim, Patrul estruturou o método para o desenvolvimento do ideal de iluminação de acordo com as quatro atitudes e seguiu Longchenpa ao mudar sua ordem tradicional, colocando a equanimidade em primeiro lugar.

Além disso, ele entremeia a meditação das quatro atitudes incomensuráveis com grande parte dos componentes dos ensinamentos em sete partes da quintessência da causa e efeito para desenvolver-se bodhichitta (rgyu-'bras man-ngag bdun), derivado dos Estágios Mentais do Bodhisattva (Byang-chub sems-dpa'i sa, Skt. Bodhisattvabhumi), do mestre indiano Asanga. As sete partes são: desenvolver equanimidade, reconhecer todos os seres como tendo sido nossas mães em vidas passadas, lembrar da gentileza materna, apreciar e aspirar retribuir essa gentileza, amor, compaixão, uma resolução excepcional e um ideal bodhichitta.

Patrul explica:

  • Equanimidade incomensurável: é o estado mental que está livre de apego, aversão e indiferença em relação a todos os seres, e também está livre de considerar alguns seres como próximos e outros como distantes. Baseia-se em reconhecer todos os seres limitados como tendo sido igualmente nossa mãe em vidas anteriores, independentemente desse status ter mudado na vida atual.
  • Amor: desenvolvemos o amor ao considerarmos todos os seres da mesma forma que os pais consideram seus filhos, ou seja, com um amor que aquece o coração (yid-du ‘ong-ba’i byams-pa). Esse é o amor que nos dá alegria ao encontrarmos alguém e tristeza se algo de ruim acontecer a essa pessoa. Além disso, é necessário pensarmos que todos querem ser felizes, assim como nós. A ênfase está em sermos gentis com os outros, especialmente com nossos pais, como retribuição por sua gentileza.
  • Compaixão: vem de vermos os seres que sofrem como se fossem nossa própria mãe sofrendo, portanto, vem de vermos os outros como tendo sido nossas mães.
  • Alegria: é o estado mental que se regozija com a alegria e prosperidade do outro e, sem inveja, deseja que ele tenha ainda mais. A alegria incomensurável leva à bodhichitta, a aspiração de que todos os seres limitados tenham a felicidade (bem aventurança) da iluminação.

Exemplos Gelug em que a Prática das Quatro Atitudes Incomensuráveis Vem Depois do Desenvolvimento de Bodhichitta e Começa com Equanimidade

A Razão Para Essa Sequência

Diversos textos da tradição Gelug para a prática de recitação colocam a equanimidade em primeiro lugar na apresentação das quatro incomensuráveis. Entretanto, de acordo com as explicações de Maitreya e Asanga, esses textos apresentam a meditação nas quatro incomensuráveis depois do ideal bodhichitta. Os dois textos mais praticados são:

  • Um Yoga Extensivo de Seis Sessões (Thun-drug-gi rnal-‘byor rgyas-pa), do mestre do século XVII, o Quarto Panchen Lama (Pan-chen Blo-bzang chos-kyi rgyal-mtshan)
  • Um Texto Ritual de Práticas Preparatórias (Byang-chub lam-gyi-rim-pa’i dmar-khrid myur-lam-gyi sngon-‘gro’i ngag-‘don-gyi rim-pa khyer bde-bklag chog bskal-bzang mgrin-rgyan, sByor-chos; Jorcho: O Puja do Lam-Rim) do mestre do final do século XIX, Dagpo Jampel-lhundrub (Dvags-po Blo-bzang 'jam-dpal lhun-grub).

Esses textos começam com o verso genérico de darmos uma direção segura à vida (tomar refúgio) e desenvolvermos o ideal bodhichitta: “Tomo a direção segura até o estado purificado dos Budas, do Dharma e da Suprema Assembléia. Pela força positiva das minha oferendas e assim por diante, que eu possa atingir o estado búdico para ajudar a todos os seres errantes.” A isso seguem os versos para o desenvolvimento do ideal bodhichitta e depois para tomar-se os votos de bodhisattva com bodhichitta engajada. Depois disso, vem o verso para o desenvolvimento das quatro atitudes incomensuráveis.

Em Liberação na Palma da Mão (rNam-grol lag-bcangs), o mestre do início do século XX, Pabongka (Pha-bong-kha Byams-pa bstan-'dzin 'phrin-las rgya-mtsho), explica a razão para essa sequência ao comentar o texto de Dagpo Jampel-lhundrub. As quatro atitudes incomensuráveis não são práticas cujo objetivo é desenvolvermos o ideal bodhichitta pela primeira vez. A meditação nessas quatro atitudes serve para fortalecermos o ideal de iluminação, uma vez que já o tenhamos desenvolvido. Na prática, primeiro reafirmamos nosso ideal bodhichitta e depois nos perguntamos porque ainda não atingimos a iluminação. A resposta será que não desenvolvemos totalmente as quatro atitudes incomensuráveis. Isso nos leva a meditarmos nas quatro atitudes.

Pabongka explica um outro motivo para essa sequência em A Maneira de se Praticar a Yoga das “Cem Deidades de Tushita” (Zab-lam dga'-ldan lha-rgya-ma'i rnal-'byor nyams-su len-tshul snyan-brgyud zhal-shes lhug-par bkod-pa'i man-ngag rin-chen gter-gyi bang-mdzod). Nesse comentário, Pabongka adiciona, como prática preliminar a das Cem Deidades de Tushita, a formulação das quatro atitudes incomensuráveis do texto de Dagpo Jampel-lhundrub. Ele explica que, além de fazer com que o poder de nossa bodhichitta cresça, as quatro atitudes também aumentam nossa bodhichitta ao eliminar interferências.

“Yoga Extensivo de Seis Sessões” do Quarto Panchen Lama

A definição das quatro atividades incomensuráveis segundo o Yoga Extensivo de Seis Sessões, do Quatro Panchen Lama, é:

  • Equanimidade incomensurável - “Que todos os seres sencientes estejam livres (de sentimentos) de proximidade ou distância e apego ou aversão"
  • Amor incomensurável - “Que eles obtenham a felicidade que é especialmente nobre”
  • Compaixão incomensurável - “Que se livrem do oceano de seus sofrimentos insuportáveis”
  • Alegria incomensurável - “Que nunca se afastem da felicidade da iluminação”

Diferentemente da apresentação de Longchenpa e de Patrul, aqui a equanimidade incomensurável é o estado mental que aspiramos que todos os seres obtenham, e não uma atitude igualitária que nós desenvolvemos em relação a todos os seres. Entretanto, considerando-se que nós estamos incluídos entre todos os seres sencientes, também estaremos aspirando ser equânimes. Assim, ambas as formas de equanimidade mencionadas por Tsongkhapa são desenvolvidas.

“A felicidade que é especialmente nobre” é o estado de bem aventurança de um arya, um ser altamente realizado que tem uma cognição direta e não conceitual da vacuidade. O amor incomensurável deseja que os outros seres experimentem esse nível de felicidade, enquanto a alegria incomensurável deseja que nunca se afastem do estado de bem aventurança da iluminação de um buda.

Em Breves Notas de um Discurso Explanatório sobre o "Yoga Extensivo de Seis Sessões" (Thun-drug bla-ma'i rnal-'byor bshad-khrid gnang-ba'i zin-tho mdor-bsdus), Pabongka destaca que a geração da equanimidade incomensurável faz com que seja cumprido o compromisso (dam-tshig, Skt. samaya) de Ratnasambhava de libertar os seres do sofrimento. Quando não temos medo de nos agarrar a alguém com apego, rejeitar com aversão, ignorar com indiferença ou considerar esse alguém mais próximo do que realmente é, essa pessoa nos libertou do medo. Nenhum ser limitado a teme.

“Texto Ritual de Práticas Preparatórias” de Dagpo Jampel-lhundrub

O Texto Ritual de Práticas Preparatórias de Dagpo Jampel-lhundrub também apresenta a meditação das quatro atitudes incomensuráveis como sendo uma forma de reforçarmos o ideal bodhichitta, depois de já o termos desenvolvido. Ele também começa a sequência com a equanimidade incomensurável.

De acordo com sua definição,

  • Equanimidade incomensurável - é a aspiração de que todos os seres limitados tenham equanimidade, que estejam livres (de sentimentos) de proximidade ou distância e apego ou aversão
  • Amor incomensurável - é a aspiração de que tenham felicidade e encontrem as causas da felicidade
  • Compaixão incomensurável - é a aspiração de que não sofram e não cultivem as causas do sofrimento.
  • Alegria incomensurável - é a aspiração de que nunca se afastem da felicidade pura dos estados superiores de renascimento (mtho-ris) e da liberação.

O que é digno de nota aqui é que o amor incomensurável é a aspiração de que os seres limitados obtenham não apenas a felicidade, mas também as causas da felicidade. Compaixão incomensurável aspira que não sofram, mas também que não cultivem as causas do sofrimento. Essas adições estão de acordo com as definições padrão das quatro atitudes incomensuráveis encontradas em vários textos de escolas não Gelug do budismo tibetano e do Bon.

No que diz respeito à alegria incomensurável, Dagpo Jampel-lhundrub adiciona à apresentação do Quarto Panchen Lama — a aspiração de que os seres limitados tenham sempre a felicidade da iluminação — a aspiração de que tenham a felicidade pura dos estados superiores de renascimento. Desta forma, ele inclui na esfera da alegria incomensurável a felicidade de se alcançar todos os três objetivos espirituais progressivos discutidos na tradição dos estágios mentais graduais do lam-rim. Aqueles com um nível inicial de motivação objetivam a liberação como um arhat. Aqueles com um nível de motivação avançado têm como objetivo a liberação completa de um buda iluminado.

No texto Liberação na Palma da Mão, Pabongka explica que, de acordo com o texto ritual de Dagpo Jampel-lhundrub, cada uma das quatro atitudes incomensuráveis tem outras quatro atitudes incomensuráveis. No caso da compaixão, por exemplo, essas atitudes seriam:

  • Intenção incomensurável ('dun-pa tshad-med) - “Seria maravilhoso se todos os seres limitados se livrassem do sofrimento e de suas causas”
  • Aspiração incomensurável (smon-pa tshad-med) - “Que eles se livrem”
  • Resolução excepcional incomensurável (lhag-bsam tshad-med) - “Eu devo fazer com que se livrem”
  • Solicitação incomensurável (gsol-'debs tshad-med) - “Para que eu seja capaz disso, guru/deidade, solicito inspiração”

Dagpo Jampel-lhundrub elabora, aqui, os quatro aspectos do amor e compaixão que o mestre Sakya Ngorchen Konchog-lhundrub (Ngor-chen dKon-mchog lhun-grub) apresenta em A Filigrana para Embelezar as Três Aparências (sNang-gsum mdzes-par byed-pa'i rgyan, O Belo Ornamento das Três Visões). Entretanto, na apresentação de Ngorchen Konchog-lhundrub o aspecto da resolução excepcional é chamado de aspecto da bodhichitta, e vem antes do aspecto da aspiração. O aspecto da solicitação é o guru e as três jóias.

Exemplos em que se Coloca a Meditação depois do Desenvolvimento de Bodhichitta e com o Amor Primeiro Lugar

A Tradição Bon

Um dos exemplos tibetanos mais antigos, no que se refere a colocar a meditação das quatro atitudes incomensuráveis depois do desenvolvimento de bodhichitta e com a ordem tradicional de começar com o amor incomensurável, está na tradição Bon. Além disso, essa é uma das definições tibetanas mais antigas onde as causas da felicidade e do sofrimento são explicitamente mencionadas. A especificação de Asanga de que a consciência discriminativa relacionada às três formas de focar deve acompanhar as quatro atitudes incomensuráves implica um entendimento das causas da felicidade e do sofrimento. No entanto, os textos indianos parecem não mencionar essas causas em suas formulações das quatro atitudes.

Em Uma Caverna de Tesouros (mDzod-phug), desenterrado como uma texto tesouro Bon por Shenchen Luga (gShen-chen Klu-dga’) no início do século XI, as quatro atitudes incomensuráveis são:

  • Grande amor - a aspiração de que todos os seres limitados encontrem a felicidade e as causas da felicidade.
  • Grande compaixão - a aspiração de que estejam livres do sofrimento e de suas causas
  • Grande alegria - o estado mental que se alegra quando eles encontram a felicidade e suas causas
  • Grande equanimidade - a atitude que estende essas aspirações imparcialmente a todos, sem discriminar amigos, inimigos e estranhos.

Ao definir a grande alegria como sendo o estado mental que se alegra com a felicidade alheia, o Bon concorda com o Theravada, com o Nichiren e com Patrul, mestre da tradição Nyingma. Apesar de muitas tradições e textos tibetanos incluírem menções às causas da felicidade no amor incomensurável e às causas do sofrimento na compaixão incomensurável, o Bon parece ser o único a mencionar as causas da felicidade na alegria incomensurável.

A definição Bon da grande equanimidade também parece única. Em outras definições, em que a equanimidade incomensurável é uma atitude de se ter uma mente igualitária com todos os seres e seu desenvolvimento vem por último na sequência das quatro atitudes, a ênfase parece estar em deixar a sequência paralela ao quatro níveis de estabilidade mental. Na tradição Theravada, por exemplo, equanimidade é termos a mesma atitude em relação a todos os seres, no sentido de ter igualdade ao ajudar, não se deixando envolver demais e não sendo indiferente, uma vez que todos precisam atingir a iluminação através de seu próprio esforço.

No Nichiren, o paralelo com os quatro níveis de estabilidade mental é muito maior. Nessa tradição, a equanimidade incomensurável é um estado mental completamente tranquilo e equânime em relação à felicidade e à infelicidade, em todas as circunstâncias, como, por exemplo, quando encontramos amigos ou inimigos. É um estado mental livre das atitudes de amor, compaixão e alegria incomensuráveis.

No Bon, por outro lado, a equanimidade incomensurável não é um estado livre das outras três atitudes, mas que as estende igualmente a todos. No entanto, na definição dos mestres Nyingma, Longchenpa e Patrul, o estado mental imparcial que é livre das noções de amigo, inimigo e estranho é necessário antes, e não depois, de se desenvolver o amor, compaixão e alegria incomensuráveis, para que seja possível estendermos igualmente essas três atitudes á todos.

A Formulação Padrão nas Tradições Kagyu e Sakya

Na tradição Sakya e nas várias escolas Kagyu do budismo tibetano – Karma Kagyu, Drigung Kagyu e Drugpa Kagyu – a definição mais comum das quatro atitudes incomensuráveis é:

  • Amor incomensurável - “Que todos os seres limitados sejam felizes e encontrem as causas da felicidade”
  • Compaixão incomensurável - “Que todos os seres limitados estejam livres do sofrimento e das causas do sofrimento”
  • Alegria incomensurável - Que todos os seres limitados nunca se afastem do felicidade pura, livre de qualquer sofrimento”
  • Equanimidade incomensurável - “Que todos os seres estejam sempre em equanimidade, livres do dualismo (de sentimentos) de proximidade ou distância e apego ou aversão.”

Na formulação de alegria incomensurável, “felicidade pura, livre de qualquer sofrimento” refere-se ao estado bem aventurado da liberação pura de um buda, conforme o Yoga Extensivo de Seis Sessões do Quarto Panchen Lama.

Um exemplo dessa fórmula da tradição Karma Kagyu é Uma Sadhana de Sahaja Vajrayogini (dPal-ldan lhan-cig-skyes-ma rdo-rje rnal-'byor sgrub-thabs dkyil-'khor-gyi-cho-ga gsang-chen mchog-gi myur-lam gsal-ba'i-'dren-pa) escrita pelo Sexto Karmapa, no começo do século XVI (rGyal-ba Kar-ma-pa mThong-ba don-ldan). Um exemplo da tradição Sakya é Uma Sadhana Média de Hevajra (dPal kye rdo-rje'i mngon-par rtogs-pa 'bring-du bya-ba yan-lag drug-pa'i mdzes-rgyan) de Ngorchen Konchog-lhundrub.

Essa formulação padrão também está presente em vários textos Gelug. Por exemplo:

  • Uma Sadhana de Longa Vida de Tara, a Roda Realizadora de Desejos (Kun-mkhyen rGyal-ba bsKal-bzang rgya-mtsho'i lha-tshogs sgrub-skor-las rje-btsun sgrol-ma yid-bzhin 'khor-lo'i tshe-sgrub) escrita pelo Sétimo Dalai Lama no século XVIII (rGyal-ba bsKal-bzang rgya-mtsho)
  • Uma Sadhana de Vajrapani Mahachakra (bCom-ldan-'das gsang-bdag 'khor-lo chen-po'i mngon-rtogs dngos-grub kun-gyi gter-mdzod)
  • Uma Sadhana de Chittamani Tara, (rJe-btsun sgrol-ljang bla-med lugs nye-brgyud 'phags-ma'i zhal-lung tsitta ma-ni-las sgrub-thabs rkyang-pa'i 'don-sgrigs zur-du bkol-ba)
  • Um Yoga do Mestre Espiritual Inseparável de Avalokiteshvara (Bla-ma-dang spyan-ras-gzigs dbyer-med-kyi rnal-'byor dngos-grub kun-'byung) por Sua Santidade o Décimo Quarto Dalai Lama (rGyal-ba bsTan-'dzin rgya-mtsho).

Nesses exemplos, ao invés da equanimidade ser um estado mental igualitário em relação aos outros é o desejo de que todos os seres limitados tenham equanimidade. Conforme a explicação oral de Tsenzhab Serkong Rinpoche (mTshan-zhabs Ser-kong Rin-po-che Ngag-dbang blo-bzang thub-bstan stobs-‘byor), após aspirarmos que os outros seres tenham sempre a felicidade pura (bem aventurança) da iluminação, devemos refletir sobre por que eles ainda não atingiram esse estado. O motivo é que ainda não desenvolveram equanimidade. Portanto, desejamos que desenvolvam equanimidade. Essa é a razão para colocar-se a equanimidade por último na sequência das quatro atitudes incomensuráveis.

Variações Gelug

As várias práticas da tradição Gelug para nos efetivarmos como uma figura búdica expõem uma grande diversidade de variações na formulação das quatro atitudes incomensuráveis.

Kalachakra

Em Uma Sadhana Extensa da Mandala do Corpo, Fala e Mente de Kalachakra (bCom-ldan-'das dpal dus-kyi 'khor-lo'i sku-gsung-thugs yongs-su rdzogs-pa'i dkyil-'khor-gyi sgrub-thabs mkhas-sgrub zhal-lung) do Sétimo Dalai Lama, repetida em Um Guru-Yoga Kalachakra Juntamente com uma Prática de Seis Sessões (Thun-drug-dang ‘brel-ba’i dus-‘khor bla-ma’i rnal-’byor dpag-bsam yongs-’du’i snye-ma) de Sua Santidade o Décimo Quarto Dalai Lama, colocada em verso por Ling Rinpoche (Yongs-’dzin Gling Rinpoche Thub-bstan lung-rtogs rnam-rgyal ‘phrin-las):

  • Amor incomensurável - a aspiração de “Que todos os seres limitados sejam felizes”
  • Compaixão incomensurável - “Que estejam livres do sofrimento”
  • Alegria incomensurável - “Que tenham a alegria de estarem sempre felizes (em bem aventurança)
  • Compaixão incomensurável - “Que tenham a equanimidade da igualdade (mnyam-nyid).

Aqui, os pensamentos de amor e compaixão incomensuráveis não fazem nenhuma menção às causas da felicidade ou do sofrimento. Mas de acordo com a explicação oral, elas devem ser incluídas. No que diz respeito à alegria incomensurável, ao invés de seguir a formulação de Asanga, “Que os seres limitados estejam sempre felizes”, o Sétimo Dalai Lama segue a de Vasubandhu, “Que eles sejam felizes”. Ao adicionar a palavra sempre, o Sétimo Dalai Lama quer dizer que a felicidade a que se aspira com a alegria incomensurável é a infinita consciência bem aventurada da iluminação.

Aqui, a definição de equanimidade incomensurável também lembra a de Vasubhandu, “Seres limitados são iguais (mnyam-pa).” Também nos faz lembrar da discussão de Longchenpa de que a equanimidade age como circunstância para que o orgulho e a arrogância se dissolvam na consciência profunda equalizadora (mnyam-pa nyid-kyi ye-shes). Assim, a equanimidade inclui tanto uma atitude igualitária perante todos os seres, livre de apego e aversão, quanto um compreensão de que todos são iguais no sentido de não terem uma existência verdadeira encontrável.

A Mandala do Corpo de Chakrasamvara

Em Uma Sadhana Abreviada da Linhagem Ghantapada da Mandala do Corpo de Chakrasamvara (Grub-chen Dril-bu-pa'i lugs-kyi 'Khor-lo bde-mchog lus-dkyil-gyi bdag-bskyed mdor-bsdus) de Trijang Rinpoche (Yongs-'dzin Khri-byang Rin-po-che Blo-bzang ye-shes):

  • Amor incomensurável - é a aspiração de “Que todos os seres obtenham a felicidade que é especialmente nobre”
  • Compaixão incomensurável - “Que todos os seres limitados estejam livres do sofrimento e das causas do sofrimento”
  • Alegria incomensurável - “Que todos os seres limitados nunca se afastem da felicidade (bem aventurança) que já conquistaram”
  • Compaixão incomensurável - “Que todos os seres limitados se livrem de todas as aflições mentais primárias e secundárias”

Trijang Rinpoche usa a mesma formulação do amor incomensurável que o Quarto Panchen Lama usou em Um Yoga Extensivo de Seis Sessões. A felicidade que é especialmente nobre refere-se à consciência de bem aventurança de um arya. Não é feita nenhuma menção às causas dessa felicidade. Entretanto, a compaixão incomensurável repete a definição mais comum e inclui explicitamente a aspiração de que os outros também estejam livres das causas de sofrimento.

A definição de alegria incomensurável lembra a especificação de Maitreya, em Uma Filigrana para os Sutras Mahayana, de que o objeto para essa atitude é todos os seres senciente que já possuem felicidade. Segundo a explicação oral, “a felicidade que já conquistaram” refere-se ao estado de bem aventurança de um buda. Assim, a definição de Trijang Rinpoche é semelhante à do Quarto Panchen Lama em Yoga Extensivo de Seis Sessões, na qual alegria incomensurável é a aspiração de que os outros seres tenham sempre a felicidade da liberação pura.

A definição de equanimidade incomensurável parece ser uma forma mais geral de se expressar a aspiração de que todos os seres limitados tenham a equanimidade que não inclui pensamentos de aflições mentais de apego ou aversão. Parece derivar da menção de Maitreya em Uma Filigrana para os Sutras Mahayana, de que o objeto da equanimidade incomensurável é a mente que tem aflições mentais. Também parece estar de acordo com a explicação de Asanga sobre a função da equanimidade, em Antologia de Tópicos Especiais de Conhecimento, “nunca permitir que a mente fique sob influência de aflições mentais primárias ou secundárias e nunca dar oportunidade para o surgimento de fatores associados com confusão (zag-bcas; fatores maculados, fatores contaminados).”

Nesse texto, Asanga afirma que existem três tipos de equanimidade: uma variável subjacente ('du-byed, Skt. samskara) incluída no agregado de outras variáveis subjacentes, um sentimento (tshor-ba, Skt. vedana) e uma atitude incomensurável. A função mencionada acima é a da equanimidade como variável subjacente, não da equanimidade incomensurável. Como variável subjacente, a equanimidade é definida por Asanga como um estado mental apropriado, que espontaneamente realiza seu propósito sem se deixar influenciar por agitação ou torpor.

Vajrabhairava e Hayagriva

Outra variação na formulação ocorre em:

  • Uma Sadhana Extensa de Vajrabhairava de Treze Deidades (dPal rdo-rje 'jigs-byed lha bcu-gsum-ma'i sgrub-thabs rin-po-che'i za-ma-tog) do Primeiro Changkya (lCang-skya Ngag-dbang blo-bzang chos-ldan)
  • Uma Sadhana Extensa de Ekavira Vajrabhairava (bCom-ldan-'das dpal rdo-rje 'jigs-byed dpa'-bo gcig-pa'i sgrub-thabs bdud-las rnam-rgyal-gyi ngag-'don nag-'gros blo-dman las dang-po-pa-la khyer bde-bar bkod-pa) de Pabongka
  • Uma Sadhana Extensa da Linhagem Kyergang Lineage de Hayagriva Secretamente Realizado (sKyer-sgang lugs-kyi rta-mgrin gsang-sgrub-kyi sgrub-thabs rgyas-pa rTa-mchog rol-pa'i zhal-lung).

Segundo essa formulação:

  • Amor incomensurável - é a aspiração de “Que todos os seres sejam felizes”
  • Compaixão incomensurável - “Que todos os seres limitados estejam livres do sofrimento”
  • Alegria incomensurável - “Que todos os seres limitados nunca se afastem da felicidade (bem aventurança)”
  • Equanimidade incomensurável - “Que todos os seres limitados permaneçam em equanimidade, sem que sejam perturbados por pensamentos conceituais sobre as oito coisas transitórias da vida ou sobre a consciência que toma objetos e os objetos por ela tomados.”

Aqui, de acordo com uma explicação oral, faz-se necessário preencher várias lacunas. Por exemplo: as causa da felicidade no caso do amor incomensurável e as causas do sofrimento no caso da compaixão incomensurável. Apensar de não estar explícito, a felicidade a que se refere a alegria incomensurável é a consciência bem aventurada de um buda.

A definição da equanimidade incomensurável parece seguir a Antologia de Tópicos Especiais de Conhecimento, de Asanga, assim como na Sadhana da Mandala de Corpo de Chakrasamvara. Pensamentos conceituais sobre as oito coisas transitórias da vida ('jig-rten-gyi chos-brgyad, oito dharmas mundanos) e sobre a consciência que toma objetos, e seus objetos, caem na esfera da função da equanimidade de não permitir que surjam fatores associados a confusão. As oito coisas transitórias da vida são elogio e crítica, ganhos e perdas, coisas indo bem e coisas indo mal, e boas e más notícias. Os pensamentos conceituais sobre elas, e associados com confusão, são os de sentir-se animado com o primeiro item dos pares acima e deprimido com o segundo. Não se deixar perturbar por pensamentos conceituais associados a confusão sobre a consciência que toma objeto e seus objetos lembra a interpretação Chittamatra das formas sem alvo das atitudes incomensuráveis. Asanga escreveu seu texto a partir do ponto de vista Chittamatra.

Colocando a Compaixão em Primeiro Lugar

A Linhagem Luipa de Chakrasamvara

Outra variação encontrada nas sadhanas Gelug é a colocação da compaixão em primeiro lugar. Por exemplo, em Uma Sadhana para a Linhagem Luipa de Chakrasamvara (dPal 'khor-lo sdom-pa lu-yi-pa lugs-kyi mngon-rtogs) do Quarto Panchen Lama,

  • Compaixão incomensurável - é a aspiração de “Que todos os seres estejam livres do sofrimento”
  • Amor incomensurável - “Que todos os seres limitados sejam felizes (bem aventurados)”
  • Alegria incomensurável - “Que todos os seres limitados estabilizem a felicidade (bem aventurança) que já conquistaram”
  • Equanimidade incomensurável - “Que todos os seres limitado tenham mentes que permaneçam no gosto único da natureza da realidade (de-bzhin-nyid).”

A compaixão também vem antes do amor na prática de dar e receber (gtong-len, tonglen). Esta prática implica em darmos felicidade aos outros com amor e tomarmos seu sofrimento com compaixão. No verso sobre o dar e receber do texto Cerimônia de Oferendas ao Mestre Espiritual (Bla-ma mchod-pa, The Guru Puja), do Quarto Panchen Lama, a tomada do sofrimento com compaixão precede a doação de felicidade com amor. Em Liberação na Palma da Mão, Pabongka explica que primeiro precisamos tomar com compaixão o sofrimento dos outros, caso contrário eles não conseguirão sentir a felicidade que tentamos dar com amor. Novamente, apesar das causas do sofrimento e felicidade não serem mencionadas, estão implícitas.

A aspiração da alegria incomensurável, de que a felicidade já alcançada permaneça estável, é a aspiração de que os seres permaneçam sempre no estado de bem aventurança de um buda. O que é semelhante à aspiração de alegria incomensurável encontrada nas Sadhanas da Mandala de Corpo de Kalachakra e Chakrasamvara, citada acima.

A definição de equanimidade incomensurável, como a aspiração de que a mente de todos os seres permaneça no gosto único da natureza da realidade, é uma aspiração de que suas mentes permaneçam na compreensão de que todos os seres estão livres de maneiras impossíveis de existência. Essa definição também está de acordo com a da Sadhana Kalachakra, em que essa atitude aspira que todos os seres tenham a igualdade da equanimidade.

Akshobhya

Em Uma Sadhana de Vajra Akshobhya (bCom-ldan-'das rdo-rje mi-'khrugs-pa'i sgrub-dkyil yongs-su rdzogs-pa'i cho-ga mngon-par dga'-ba'i sgo-'byed), também do Quarto Panchen Lama,

  • Compaixão incomensurável - é a aspiração de “Que todos os seres estejam livres do sofrimento”
  • Amor incomensurável - “Que todos os seres limitados nunca se afastem da felicidade.”
  • Alegria incomensurável - “Que todos os seres limitados tornem-se felizes (bem aventurados) com a felicidade (bem aventurança) de um buda”
  • Equanimidade incomensurável - “Que todos os seres limitados passem para o nirvana com o nirvana incomparável de um buda”

Aqui, o amor incomensurável é formulado da mesma maneira que, em geral, a alegria incomensurável é formulada. No entanto, a alegria incomensurável ainda é a aspiração de que os outros tenham a felicidade ou bem aventurança de um buda. A equanimidade incomensurável é a aspiração de que todos consigam atingir a iluminação de um buda, com a qual ajudamos igualmente a todos, compreendendo que nada e ninguém possui uma existência encontrável.

Conclusão

A partir desta pesquisa, fica claro que existe uma grande variedade de entendimentos, definições e práticas das quatro atitudes incomensuráveis. Essa diversidade indica o amplo escopo da prática e, se ao invés de vermos as diferentes tradições como contraditórias tomarmos consciência da grande variedade de formas, enriqueceremos nossa prática.

Resumindo, amor incomensurável pode incluir a aspiração de que todos os seres limitados:

  • Sejam felizes
  • Sejam fisicamente felizes
  • Tenham a felicidade de um ser limitado (um ser que ainda não é um buda)
  • Nunca se afastem a felicidade de um ser limitado
  • Tenham a felicidade de um arya
  • Tenham a felicidade temporária de um dos estados melhores de renascimento e a felicidade definitiva da iluminação
  • Tenha qualquer dessas felicidades e as causas dessas felicidades

Compaixão incomensurável pode incluir a aspiração de que todos os seres limitados:

  • Estejam livres do sofrimento (os três tipos de sofrimento)
  • Estejam livres do sofrimento e das causas do sofrimento

Alegria incomensurável pode incluir alegrar-se com:

  • O bem estar e o esforço dos seres limitados em serem construtivos e trabalharem para a liberação
  • A prosperidade dos seres limitados
  • A alegria em geral dos seres limitado
  • O fato dos seres limitados encontrarem a felicidade e as causas da felicidade.

Também pode incluir a aspiração de que todos os seres:

  • Tenham felicidade mental
  • Tenham a alegria de estarem sempre felizes (a felicidade de um buda)
  • Nunca se afastem da felicidade
  • Sempre percebam a felicidade inata como parte de sua natureza búdica
  • Nunca se afastem da felicidade pura dos estados superiores de renascimento e da liberação
  • Nunca se afastem da felicidade pura da liberação
  • Nunca se afastem da felicidade pura de um buda
  • Nunca se afastem da felicidade pura (de um buda) que é livre de sofrimento
  • Nunca se afastem da felicidade (de um buda) que já conseguiram
  • Permaneçam estáveis com a felicidade (de um buda) que já conseguiram

Equanimidade incomensurável é um estado mental que inclui:

  • Tratar todos os seres da mesma forma, no sentido de ajudá-los igualmente, não se envolvendo demais e nem sendo indiferente, já que, em última análise, todos precisam atingir a liberação por seu próprio esforço.
  • Estar totalmente tranquilo e considerar igualmente a felicidade e a infelicidade, o prazer e a dor, em todas as circunstâncias, como quando encontramos amigos ou inimigos, e estar livre das atitudes de amor, compaixão e alegria incomensurável
  • Estender amor, compaixão e equanimidade igualmente para todos, sem importar-se se são amigos, inimigos ou estranhos
  • Estar livre de apego, aversão e indiferença em relação aos outros e não sentir que algumas pessoas são próximas e outras distantes
  • Com a compreensão de que todos são iguais
  • Com a aspiração de que todos os seres sejam igualmente beneficiados.

Também pode incluir a aspiração de que todos os seres:

  • Não tenham sentimentos de proximidade ou distância e atração ou repulsão,
  • Tenham a equanimidade que é livre de sentimentos de proximidade ou distância e atração ou repulsão
  • Tenham a equanimidade que é livre de sentimentos duais de proximidade ou distância e atração ou repulsão,
  • Tenham a equanimidade da igualdade (a consciência profunda equalizadora de que todos os seres são iguais em sua necessidade de estarem livres do sofrimento e de que todos são igualmente destituídos de formas impossíveis de existência),
  • Estejam livres de todas as aflições mentais primárias e secundárias,
  • Estejam sempre na equanimidade, imperturbáveis por pensamentos conceituais sobre as oito coisas transitórias da vida e pela consciência tomadora de objetos e seus objetos,
  • Tenham mentes que permaneçam sempre no gosto único da natureza da realidade (vacuidade),
  • Passem para o nirvana com o nirvana supremo de um buda.

Além disso, para que as quatro atitudes sejam incomensuráveis, é necessário que tenham como alvo todos os seres limitados ou, mais especificamente, todos os seres presentes em um dos seis estados de renascimento do plano de desejos sensoriais. Conforme algumas explicações Mahayana, para que as quatro atitudes sejam incomensuráveis, elas precisam estar acompanhadas das seis atitudes de amplo alcance (seis perfeições), e principalmente de um dos quatro níveis de estabilidade mental e um dos três tipos de consciência discriminativa.

A sequência das quatro atitudes incomensuráveis pode começar com o amor, a equanimidade ou a compaixão. E ainda, na prática Mahayana, as quatro podem ser cultivadas como um método para desenvolver-se bodhichitta, a fim de alcançarmos a iluminação de forma mais eficiente.

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