Estados Mentais Necessários à Meditação em Bodhichitta

Verso de Homenagem e Verso 1

Atisha, o Autor

A Guirlanda de Joias do Bodhisattva (Skt. Bodhisattva-mani-avali) foi escrita pelo mestre indiano Atisha (Atisha Dipamkarashrijnana, 982-1054). Atisha foi um grande mestre budista do monastério Vikramashila. Ele preocupava-se muito em obter e preservar os ensinamentos sobre bodhichitta, que não eram amplamente disponíveis na Índia.

Os ensinamentos do Buda deram origem a três linhagens de sutras Mahayana, e não a duas, como é normalmente mencionado nas orações de linhagem. Uma dessas linhagens era amplamente ensinada e tratava de bodhichitta e a outra eram os ensinamentos profundos sobre a vacuidade — essas duas linhagens estavam relativamente disponíveis na Índia. Mas, além dessas duas, havia uma terceira, de prática de bodhichitta. Essa foi a linhagem que Atisha quis aprender. Para isso, ele fez uma viagem de 13 meses a Sumatra, a fim de estudar com o grande mestre Serlingpa, o detentor dessa linhagem.

Depois de estudar os ensinamentos dessa linhagem, que mais tarde passou a ser conhecida como um treinamento mental (lojong, treinamento de atitude), Atisha retornou à Índia. Algum tempo depois ele foi convidado para ir ao Tibete. Naquela época, o dharma havia declinado na Terra das Neves, estava seriamente degenerado, havia muita confusão a respeito de quais eram os ensinamentos corretos. Por isso Atisha foi convidado ao Tibete, para restaurar os ensinamentos corretos. Depois de uma viagem muito difícil, ele começou a segunda transmissão do dharma no Tibete, e também transmitiu os ensinamentos sobre a prática de bodhichitta.

Atisha também é conhecido por ser o autor do primeiro lam-rim, o texto sobre os estágios graduais do caminho. A tradição Kadam vem de Atisha e de seu principal discípulo tibetano, Dromtonpa (1005-1064) — as pessoas que seguem essa tradição são chamadas de “Kadampas”. A Guirlanda de Joias do Bodhisattva faz parte do Conjunto Pai de Ensinamentos do “Livro do Kadam”, junto com o comentário sobre cada um dos versos de Atisha em resposta às perguntas de Dromtonpa, o “pai” da tradição Kadam.

Gampopa juntou na tradição Kagyu as linhagens da tradição Kadam com os ensinamentos mahamudra. O resultado foi que os ensinamentos sobre bodhichitta e treinamento mental são fortemente enfatizados nas tradições Kagyu ligadas a ele. E as tradições Sakya e Nyingma também adotaram esses treinamentos mentais, ou ensinamentos de lojong. Fica claro, portanto, que esses ensinamentos tiveram um papel central no desenvolvimento do budismo no Tibete. Eu acredito que o fato desses textos aparecerem em primeiro lugar em um conjunto de cem textos de treinamento mental em tibetano é muito significativo. Isso indica, de várias formas, que este texto é um dos precursores do gênero.

A uma certa altura, a tradição Kadam se dividiu em três linhagens. Tsongkhapa foi que as reunificou e originou a tradição Gelug, que continua com a tradição Kadam de combinar sutra e tantra. Afinal, Atisha também era um mestre tantra, apesar de ter mantido suas práticas em segredo. Contudo, vemos indícios de seu lado tântrico em diversos lugares de nosso texto, A Guirlanda de Joias do Bodhisattva.

O Verso de Homenagem

A primeira indicação dessa combinação de sutra e tantra está no verso de homenagem com o qual Atisha começa texto:

Prostro-me diante da grande compaixão. Prostro-me diante dos sublimes professores. Prostro-me diante das figuras búdicas, esses são em quem devemos acreditar.

Grande Compaixão

Compaixão é a aspiração de que os outros estejam livres do sofrimento e das causas do sofrimento. A grande compaixão é “grande” no sentido de que não é só a aspiração de que os outros seres estejam livres do sofrimento da dor e do sofrimento da mudança (a felicidade comum, mundana, que não dura e que não sabemos o que virá a seguir), é também a aspiração de que estejam livres do tipo de sofrimento chamado sofrimento que tudo permeia. Esse sofrimento que tudo permeia está relacionado aos fatores agregados de nossa experiência, ou seja, à enorme variedade de componentes que compõem cada momento de nossa experiência em cada um dos renascimentos samsáricos. Esses fatores agregados originam-se da confusão, são misturados à confusão e perpetuam a confusão e o sofrimento.

A grande compaixão, portanto, aspira que os outros seres estejam livres de tudo isso, ou seja, que obtenham a liberação, e mais, que atinjam a iluminação. Essa compaixão também é grande no sentido de que se estende igualmente a absolutamente todos os seres sencientes, com a mesma atitude que uma mãe amorosa tem com seu único filho. Isso é a grande compaixão. É realmente um estado mental extraordinário. É direcionado a absolutamente todos os seres e seu objetivo é que todos atinjam a iluminação.

Gurus

A segunda linha do verso de homenagem é: prostro-me diante dos sublimes professores, ou gurus — os mestres espirituais que corporificam a qualidade da grande compaixão.

Por possuírem essa qualidade, são professores espirituais devidamente qualificados. Sua compaixão estende-se igualmente a todos e portanto ajudam todos os seres a atingirem a iluminação, e não apenas a seus alunos. Talvez o maior exemplo de um mestre como esse é Sua Santidade o Dalai Lama. Seu incessante esforço visa ajudar a todos os seres, em todo o mundo, para que todos superem seus sofrimento. Mesmo quando se cansa, ele tenta continuar. Esse é um professor sublime, esse é um lama.

A Natureza Búdica e a Inseparabilidade do Guru, de Avalokiteshvara e da Grande Compaixão

Atisha acrescenta, prostro-me diante das figuras búdicas. Isso refere-se especialmente a Avalokiteshvara, ou, em tibetano, “Chenrezig”, que é a corporificação da compaixão no nível iluminado, a total compaixão de um buda. É bastante significativo o fato de Atisha mencionar os gurus em primeiro lugar, antes das figuras búdicas (yidams). O motivo disso é porque, como costuma-se dizer, é através dos professores que fazemos contato com essas figuras búdicas.

Quando falamos em ver o professor como um buda, estamos nos referindo a ver natureza búdica do professor. Ao olharmos para o professor, focamos nos aspectos de sua natureza búdica e destacamos aquele que, quando suficientemente fortalecido, é a habilidade de dar surgimento a um buda completamente iluminado, que é representado pelo guru. Se o guru é realmente iluminado não vem ao caso. O ponto não é esse. O ponto é focar em sua natureza búdica como inspiração, a fim de despertarmos para a nossa própria natureza búdica.

Aqui, o aspecto que é destacado é a total compaixão dos budas, corporificada pela figura búdica Avalokiteshvara. É por isso que costumamos visualizar essas figuras búdicas no coração do guru e no nosso. E também é por isso que costumamos visualizar o guru em nosso coração. Sem o guru, não teríamos acesso às figuras búdicas e à iluminação. Foi por isso que Atisha falou primeiro do guru e depois das figuras búdicas.

Referindo-se aos três — à compaixão, ao professor espiritual e à Avalokiteshvara — Atisha nos fala daqueles em quem devemos acreditar. Isso refere-se especificamente a acreditar naquilo que é fato. Isso significa não acreditar em coisas que não temos como saber se é verdade ou que são incertas, tipo “acredito que vai chover amanhã”; significa acreditar naquilo que é fato. O fato aqui é a inseparabilidade da compaixão, do guru e de Avalokiteshvara. Então, com total confiança, consideramos esses três inseparáveis e nos prostramos.

Esse verso de homenagem é muito profundo. Nos faz pensar muito em Sua Santidade o Dalai Lama, que é reconhecido por todos os seguidores do budismo tibetano como uma corporificação de Avalokiteshvara, a corporificação da compaixão. Para acreditarmos nisso como fato, é importante entendemos o que significa ser uma corporificação. Nossa crença não pode ser baseada em superstições ou em “Eu não faço a mínima ideia do que isso significa, mas tudo bem, eu acredito”. Esse tipo de crença não é muito profunda, além de ser instável. Acho que é muito importante entendermos o que é compaixão, especialmente a grande compaixão, para que possamos ter uma noção de quem é Sua Santidade e o que ele faz, e realmente apreciar suas qualidades.

Também é importante termos alguma compreensão do que é a natureza búdica e o que significa vermos a natureza búdica no guru. O que Avalokiteshvara representa? Ele representa a natureza búdica da compaixão, de todos os seres. Ou seja, ele representa a natureza básica da mente de ser calorosa, de cuidar dos outros, etc. Assim como os outros aspectos da natureza búdica, a compaixão ocorre no nível da base, do caminho e do resultado.

  • O nível da base — aquilo que todos nós temos naturalmente, indicado pelo instinto maternal ou paternal.
  • O nível do caminho — aquilo que estamos desenvolvendo ao alimentarmos esse nível básico de compaixão, através do treinamento budista.
  • O nível do resultado — o nível de um buda.

Podemos obter insights sobre esses três níveis ao olharmos as qualidades do guru. O guru nos ajuda no processo de desenvolvermos a compaixão nesses três níveis. Se conseguirmos entender isso, podemos fazer prostrações para a compaixão, o guru e a yidam Avalokiteshvara com a firme convicção e crença em sua inseparabilidade.

E é aqui que Atisha coloca um pouquinho do tantra, de forma bem sutil e velada — que é como que deve ser. Meu próprio professor, de quem recebi este ensinamento, Geshe Ngawang Dhargyey, sempre enfatizou que existem muitas coisas a serem contempladas no verso de homenagem. Não devemos achar que ele só está lá para adornar o início do texto e que basta passarmos os olhos rapidamente sem prestar atenção.

Verso 1: Estados Mentais Necessários à Meditação em Bodhichitta

Se analisarmos bem, veremos que os pontos principais do texto estão baseados nos ensinamentos de Shantideva em Engajando-se no Comportamento do Bodhisattva (Skt. Bodhicharyavatara). Assim como diversos pontos dos treinamentos mentais — especialmente dos Oito Versos de Treinamento Mental e do Treinamento da Mente em Sete Pontos — baseiam-se neste texto de Atisha.

Atisha fala principalmente sobre como meditar em bodhichitta e como colocá-la em prática.

Ele começa assim:

Que eu me livre de todas as dúvidas aflitivas e valorize ser realmente sincero em minha prática. Assim, que eu me livre completamente da sonolência, da mente nebulosa e da preguiça, e sempre me esforce com perseverança.

Livrando-nos da Dúvida Aflitiva sobre o Que É Bodhichitta e Como Meditar em Bodhichitta

Para conseguirmos meditar sobre bodhichitta, precisamos primeiro ouvir o que os ensinamentos nos falam sobre esse estado mental. Começamos nos livrando de toda dúvida aflitiva sobre onde encontrar esses ensinamentos: eles derivam dos Três Cestos (Skt. Tripitaka) de palavras do Buda. Depois precisamos escutar ou ler cuidadosamente as palavras do Buda e pensar sobre elas, para as compreendermos corretamente. Fazemos isso para nos livrar da dúvida aflitiva a respeito de quais ensinamentos devemos seguir, o que são esses ensinamento e o que é bodhichitta.

Precisamos saber com muita precisão que bodhichitta é uma mente focada em sua própria iluminação — não na iluminação de um Buda ou em uma iluminação genérica e amorfa lá em cima no céu. Bodhichitta é uma mente focada especificamente em sua própria e futura iluminação, que ainda não aconteceu mas que pode acontecer com base em suas causas, ou seja, com base nos aspectos da natureza búdica. Portanto, bodhichitta foca em nossa iluminação, que ainda não aconteceu, com a intenção de atingi-la. O que nos motiva a atingi-la é amor e compaixão — o desejo de beneficiar todos os seres e ajudá-los a se livrar do sofrimento. Beneficiar os outros é a segunda intenção que acompanha bodhichitta. É o que pretendemos fazer quando atingirmos a iluminação, apesar de, obviamente, tentarmos ajudá-los da melhor forma possível durante todo nosso caminho.

Portanto, precisamos nos livrar de toda dúvida aflitiva sobre o tópico da meditação — bodhichitta —, sobre como meditar em bodhichitta e qual é o estado mental exato que precisamos gerar. Assim, precisamos ouvir os ensinamentos, pensar sobre eles e compreendê-los. É óbvio que tudo isso é muito importante. Caso contrário, como poderíamos meditar em bodhichitta?

Meditar em bodhichitta e realmente a desenvolvê-la não é tão simples. O que fazer durante a meditação e no que focar não é tão óbvio. Não é nem um pouco óbvio ou fácil. Como focarmos em nossa futura iluminação, que ainda não aconteceu? Precisamos de algo que a represente. Ela pode ser representada por um buda, pelo guru, pela árvore de gurus reunidos ou pela yidam, a figura búdica. Ela pode ser representada por diversas coisas.

Podemos nos questionar como o debate e a meditação em bodhichitta se encaixam. O propósito do debate é justamente acabar com a dúvida aflitiva. Para meditarmos adequadamente, precisamos saber no que a mente deve se focar, como ela deve se focar e quais fatores mentais devem acompanhá-la — amor, compaixão, intenção, motivação, etc. Então precisamos saber como gerar esse estado mental. Através do debate conseguimos esclarecer qualquer tipo de dúvida em relação a esses aspectos.

Muitas pessoas confundem bodhichitta com compaixão. Acham que estão meditando em bodhichitta quando, na verdade, estão meditando em amor e compaixão por todos os seres. Meditar sobre a aspiração de que todos os seres sejam felizes e obtenham as causas da felicidade e estejam livres do sofrimento e das causas do sofrimentos é uma parte da base de bodhichitta. Essas aspirações acompanham bodhichitta, mas não são a mesma coisa que bodhichitta. Uma confusão parecida acontece com a compaixão: muitas pessoas meditam em compaixão mas não na grande compaixão. Portanto, novamente, é importante tentarmos nos livrar de toda incerteza e dúvida aflitiva sobre essas questões.

Além disso, quando não temos certeza do que estamos fazendo ao meditar, teremos o obstáculo da divagação mental. Divagamos pensando: “Será que isso é bodhichitta, ou será que é aquilo?” “Será que estou meditando corretamente ou será que entendi tudo errado?” Estamos sempre questionando o que estamos fazendo.

Portanto, não só precisamos ganhar confiança no que é bodhichitta e em como meditar em bodhichitta, como também precisamos ter confiança de que a prática que estamos fazendo é válida. Precisamos nos livrar da dúvida aflitiva que nos faz divagar, pensando: “Será que esta é a prática correta?” “Será que vai funcionar?” “ Será que não vai funcionar?”. Temos que nos livrar de todas essas dúvidas no estágio de escutar os ensinamentos e, principalmente, no estágio de pensar sobre os ensinamentos; o debate pode nos ajudar nisso. Só então conseguiremos meditar corretamente. Conforme diríamos em alemão: “Alles klar”, tudo tem que estar claro para que realmente possamos meditar corretamente sobre um determinado tópico. Caso contrário, estaremos apenas fingindo que estamos meditando. Estaremos apenas sentados brincando, sem saber exatamente o que estamos fazendo. Isso não nos levará muito longe.

Para Sermos Totalmente Sinceros em nossa Prática de Bodhichitta a Motivação Precisa Ser Sincera

Uma vez que tenhamos escutado e pensado com cuidado sobre os ensinamentos, e nos livrado da dúvida aflitiva, podemos tratar de sermos realmente sinceros em nossa prática. Isso refere-se à meditação em que cultivamos bodhichitta como um hábito. Geramos esse estado mental repetidamente, fazendo com que ele fique cada vez mais forte. Ser realmente sincero significa que nossos esforços em gerar bodhichitta são totalmente sinceros e que estamos nisso com todo nosso coração.

Para colocarmos todo nosso coração em alguma coisa, precisamos de motivação. Se nossa motivação for realmente sincera, seremos sinceros em nossa prática e não a faremos por obrigação, culpa ou algo do gênero. Portanto, é muito importante trabalharmos na motivação. Para as horas em que ela não for forte, e muitos dias isso vai acontecer, precisaremos conhecer os vários métodos para a reavivar.

Nossa motivação também vai depender muito de nossas companhias — se as pessoas ao nosso redor apoiam nossa prática. Ter uma comunidade amistosa e acolhedora de pessoas engajadas nas mesmas coisas, ter um professor espiritual por perto e assim por diante, nos ajuda a manter a motivação forte. Além disso, estar perto de seres que sofrem intensamente pode fortalecer muito a nossa motivação. Podemos nos inspirar naqueles que estão em uma posição melhor, como os grandes mestres, e nos que estão em uma posição pior, como os que sofrem miseravelmente. Conforme disse Shantideva, a iluminação vem tanto dos budas quanto dos seres sencientes.

(VI. 113) Se a realização do dharma do Buda depende tanto dos seres sencientes quanto dos Triunfantes (budas), porque não demonstramos aos seres sencientes o mesmo respeito que demonstramos ao Triunfante?

Esclarecimento sobre Como Meditar em Bodhichitta

Focando em Nossa Iluminação que Ainda Não Aconteceu

A meditação em bodhichitta foca em nossa própria iluminação futura. Não quero entrar em muitos detalhes, mas, se pensarmos em termos de nosso contínuo mental, nossa iluminação é algo que pode ser validamente rotulado em nosso futuro contínuo mental. Nossa futura iluminação, que ainda não aconteceu, pode ser validamente rotulada na continuação futura de nosso contínuo mental, com base na continuidade dos aspectos da natureza búdica. Se essas várias causas forem criadas, nomeadamente as redes de força negativa e consciência profunda, o estado iluminado, que pode acontecer, vai acontecer. Precisamos nos convencer disso.

Para conseguirmos focar na iluminação, usamos algo para representá-la, que pode ser, por exemplo, uma figura búdica ou um Buda. O que a figura búdica ou buda representam é nossa iluminação futura que pode ser validamente rotulada no contínuo mental, e que pode ser obtida com base nos aspectos da natureza búdica. É nisso que nossa mente deve se focar. Essa consciência deve vir acompanhada de amor, compaixão e da intenção de alcançar esse objetivo para ajudar todos os outros seres. Existem vários fatores mental que acompanham esse processo, mas isso é um pouco mais complicado.

Assim como podemos pensar, ver e ouvir ao mesmo tempo, podemos estar cientes de várias coisas ao mesmo tempo como objetos de nossa cognição — mas o tipo de atenção que direcionamos a cada uma é diferente. Tanto o amor quanto a compaixão são direcionados aos seres sencientes, mas a forma como o amor foca é com a aspiração de que sejam felizes. Já a compaixão foca no sofrimento e com a aspiração de que todos se livrem dele. Geramos os amor e compaixão, um de cada vez, já que possuem formas diferentes de focar em seu objeto. Quando geramos o ideal de bodhichitta, com base no amor e na compaixão, o foco é em nossa futura iluminação, e a forma como focamos é com a aspiração de alcançá-la. As duas intenções, a de atingir a iluminação e a de, com isso, beneficiar os seres, também focam em nossa futura iluminação. Nossa atenção deve estar principalmente em bodhichitta. Apesar do amor e da compaixão continuarem presentes, eles não são o foco principal. De certa forma, eles colorem nosso ideal de bodhichitta, mas seu objeto focal, todos os seres sencientes, não aparece em nossa mente.

Como eu disse, leva tempo e muito pensamento e discussão para realmente termos uma ideia clara do que significa meditar em bodhichitta. “Agora vou sentar-me e meditar em bodhichitta” — bom, o que você quer dizer com isso?

Logicamente, precisamos passar por vários estágios até sentirmos bodhichitta sincera. Precisamos desenvolver amor e compaixão, e existem diversos métodos para isso: a meditação de causa e efeito de sete partes, a meditação da equalização e troca de lugar com os outros e a meditação de onze partes, que combina as duas primeiras.

Quero só acrescentar algo que é muito importante para entendermos o que significa ter grande compaixão. Quando nosso objetivo é desenvolver e atingir a iluminação, precisamos saber o que é iluminação. Precisamos saber o que isso significa e quais são as qualidades do estado iluminado. Por isso, um buda ou uma figura búdica são uma boa representação. Quando visualizamos um buda ou figura búdica, precisamos pensar sobre todas as qualidades de um ser iluminado. E, logicamente, com a grande compaixão o fazemos com a intenção de ajudarmos a todos os seres. Estamos falando de incontáveis seres, o escopo é incrivelmente amplo.

Quando começamos a perceber o que é o estado mental de bodhichitta em sua incrível vastidão, começamos a apreciar o primeiro capítulo de Shantideva, no qual ele elogia bodhichitta. Caso contrário, é apenas uma bela poesia.

(I.25) Essa extraordinária joia da mente (bodhichitta) — uma mente voltada para o bem dos seres sencientes e que não surge nos outros seres, nem para o seu próprio bem — cristaliza-se como uma maravilha sem precedentes.
(I.26) Como pode a força de uma mente que é como uma joia, que é a causa da felicidade dos seres sencientes e um elixir para os que sofrem, ser mensurada?

Como Focar em Algo que Ainda Não Aconteceu

Você pode se perguntar: “como podemos focar em algo que ainda não aconteceu?” Darei um exemplo, porque isso é muito importante para entendermos o que é bodhichitta. Nossa iluminação ainda não aconteceu, assim como o amanhã. O amanhã ainda não aconteceu, mas será que o amanhã existe? Será que existe um amanhã? Como podemos focar no amanhã e planejar nosso dia se ele ainda não existe? No que focamos quando pensamos no amanhã? Não estamos focando no nada. Esses são pontos que precisamos pensar a respeito e debater.

Algo que Ainda Não Está Acontecendo é um Fenômeno de Negação

Para respondermos à pergunta sobre como focar em algo que ainda não aconteceu, é muito importante entendermos o conceito filosófico de um fenômeno validamente conhecível e de fenômenos afirmativos e de negação. Isto porque nossas categorias ocidentais de existência e não existência são irrelevantes aqui. De acordo com a apresentação budista, se algo existe pode ser validamente conhecível, quer seja do ponto de vista conceitual ou do não conceitual; e se não existe não pode ser validamente conhecível.

Entre as coisas que podem ser validamente conhecíveis existem os fenômenos afirmativos e os fenômenos de negação. Nossa futura iluminação é um fenômeno afirmativo. Assim como podemos ver um mangusto mesmo que nunca tenhamos visto um mangusto antes, podemos focar na iluminação mesmo sem nunca termos focado na iluminação antes. Quando focamos na iluminação, estamos focando em um fenômeno afirmativo. Esse fenômeno afirmativo é imputado em um determinado aspecto de suas causas, que são as redes de força positiva e consciência profunda. Esse aspecto é sua habilidade de fazer com que a iluminação se manifeste como resultado quando as causas e condições estiverem completas. Essa iluminação imputada em suas causas pode ser validamente conhecível, assim como o amanhã imputado no hoje pode ser validamente conhecível. E mais, o que pode ser imputado em nossa futura iluminação é o fato de ainda não ter acontecido. Esse “não ter acontecido” é um fenômeno de negação; nega seu acontecimento no presente momento. Para sabermos que algo ainda não aconteceu, precisamos saber o que está acontecendo no momento para então podermos negá-lo. Por exemplo, precisamos saber que estamos no hoje para podermos saber que o amanhã ainda não aconteceu.

Podemos representar nossa iluminação que ainda não aconteceu usando uma figura búdica e imputando o “eu” validamente nela, mas somente quando também reconhecemos validamente que ainda não somos um Buda, ou seja, que nosso budato ainda não aconteceu.

Focar a Meditação de Bodhichitta em Algo que Ainda Não Aconteceu Não É o Mesmo que Focar em Algo que Não Existe

É por causa desses aspectos que digo que precisamos nos livrar da dúvida aflitiva. Caso contrário, depois de um tempo podemos pensar: “Eu não sei o que estou fazendo ao sentar aqui tentando meditar sobre bodhichitta. Será que estou focando em algo que não existe?” E vira uma loucura.

O que Atisha quer deixar claro é que se queremos ser capazes de meditar unifocadamente e corretamente, precisamos nos livrar da dúvida aflitiva, ou seja, de nossa incerteza sobre o que estamos fazendo, como fazer, etc. Caso contrário, o que pode acontecer é começarmos a divagar: “Será que estou fazendo isso direito? O que está acontecendo? Talvez isso não exista.” Também podemos começar a divagar quando não estamos convencidos de que realmente podemos alcançar a iluminação. Portanto, aqui Atisha está nos dando instruções muito profundas de meditação em pouquíssimas palavras.

Essa nossa discussão sobre bodhichitta é muito importante. É preciso que o significado do que é meditar sobre bodhichitta esteja muito claro. Se não tivermos clareza, fica tudo um pouco estranho.

Livrando-nos de Outros Obstáculos à Meditação

Então estamos sendo realmente sinceros em nossa prática. Uma vez sabendo como gerar bodhichitta e sendo capazes de permanecer focados nesse estado mental, precisamos nos livrar dos obstáculos que surgem na meditação em si. A segunda metade do verso diz: Assim, que eu me livre completamente da sonolência, da mente nebulosa e da preguiça. Já lidamos com a divagação que surge como resultado da dúvida aflitiva; agora temos os obstáculos que surgem por causa do torpor.

Sono e Mente Nebulosa

O tipo mais grosseiro de torpor é a sonolência, cair no sono — o que, obviamente, é um obstáculo a meditação. Com esse tipo de torpor a consciência se retira dos sentidos. Basicamente, é isso que significa cair no sono. A mente nebulosa é um tipo sutil de torpor. Quando sentimos nossa mente e corpo muito pesados, é porque a mente está nebulosa. O terceiro tipo, ainda mais sutil, é a preguiça. Apesar da preguiça não ser exatamente uma forma de torpor mental, ela está subjacente. Quando trabalhamos para nos livrar dos obstáculos mentais, tentamos primeiro nos livrar dos mais grosseiros e só depois dos mais sutis. A preguiça é o mais sutil.

Os Três Tipo de Preguiça

Shantideva discorre detalhadamente sobre a preguiça no sétimo capítulo de seu texto, intitulado “Perseverança”.

Existem três tipos de preguiça. O primeiro é a letargia. Letargia significa falta de energia e entusiasmo — não temos vontade de fazer coisa alguma, então procrastinamos. Existem três causas para isso. Shantideva explica:

  • Apatia em relação aos nossos problemas recorrentes — uma falta de interesse ou preocupação. Quanto estamos apáticos não nos preocupamos, e então nos tornamos letárgicos; não queremos fazer coisa alguma.
  • Gostar de fazer nada — ter prazer em ficar sentado fazendo nada. Isso nos deixa letárgicos e, novamente, não temos vontade de fazer coisa alguma.
  • Tomar o sono como refúgio — Não conseguimos lidar com as coisas, então só queremos fugir para nossa cama quentinha e macia.

O segundo tipo de preguiça é nos apegarmos a coisas bobas. Um exemplo seria ficar de papo furado ou tentar manter-se ocupado com os afazeres domésticos ou qualquer outra coisa, só como desculpa para não fazer algo construtivo. A procrastinação também está envolvida nisso, deixamos as coisas para depois porque estamos apegados a algo bobo no momento.

O terceiro tipo de preguiça é nos desencorajarmos e, portanto, não nos valorizarmos. Pensamos: “Não consigo, não sou capaz”. E então nem tentamos. Isso é uma forma de preguiça.

Perseverança como o Oposto da Preguiça

O oposto da preguiça é a perseverança, o “vigor entusiasmante” ou a “coragem heroica”. A última linha de nosso verso diz: que eu sempre me esforce com perseverança. Conforme explicou Shantideva, a perseverança baseia-se em diversos fatores.

  • Firme intenção — exuberância e energia com base na firme convicção dos benefícios de fazer algo positivo. Com a firme intenção temos o sentimento profundo de que “devo fazer isso e não vou desistir!”
  • Firmeza e orgulho — firmeza é a qualidade de permanecer firme, resoluto. Tem como base a autoconfiança que vem de nos orgulharmos de nós mesmos — sabermos que somos capazes e não pensarmos mau de nós mesmos.
  • Deleite — nos alegrarmos com o que estamos fazendo. E como o que estamos fazendo é algo construtivo, nos alegramos ainda mais por continuar fazendo.
  • Desapego — sermos capazes de nos desapegar do que estamos fazendo quando nos sentirmos cansados e precisarmos descansar. Se nos esforçarmos demais, se formos muito fanáticos, podemos ter uma estafa. Também precisamos desapegar quando terminamos um determinado estágio de prática. Precisamos nos desapegar e continuar para o próximo estágio. Esses são os dois aspectos do desapego, neste caso.

Shantideva menciona ainda mais dois aspectos:

  • Aceitação imediata — precisamos aceitar o fato de que o caminho será difícil. Precisamos aceitar essa realidade e não criar fantasias achando que será fácil e adorável. Precisamos aceitar que teremos dificuldades. Ou seja, precisamos ter uma atitude realista.
  • Assumir o controle — Precisamos assumir o controle de nós mesmo: “Eu vou fazer isso”
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