Mandalas: Uma Explicação de Seu Significado e Uso

Hoje falaremos sobre mandalas. A palavra tibetana para mandala kyilkor (dkyil-‘khor), significa “aquilo que fica em volta de um centro”. E o significado de “centro”, aqui, é “um significado”, e aquilo que fica em volta é um símbolo, ou uma representação do significado. Portanto, a mandala é basicamente um símbolo redondo, ou a representação da algum significado profundo. Mandalas não precisam ser redondas, mas essa é a forma mais usada. Elas não são todas redondas.

Agora, existe uma diferença entre um símbolo e uma representação – algumas mandalas são símbolos e outras são representações. Um símbolo é algo cujo significado fica óbvio para qualquer um que o veja. Não é necessário que se diga qual é o seu significado. Por exemplo, um círculo branco é um símbolo para a lua [na cultura indiana e tibetana], seu significado é óbvio. Isso é um símbolo. Já uma representação é algo cujo significado não é tão óbvio, que precisa ser explicado. Por exemplo, um vajra é a representação de método e um sino é a representação de sabedoria. Isso não fica óbvio simplesmente olhando para um vajra e um sino, não é mesmo? Portanto, isso é uma representação não é um símbolo. Na representação, é preciso que alguém diga qual é o significado. Assim, algumas mandalas são símbolos e outras são representações.

Existem muitos tipos diferentes de mandalas, e elas são usadas com muitos propósitos, tanto no sutra como no tantra. Primeiro vou falar um pouco dos tipos mais comuns de mandala no budismo, e depois falarei um pouco mais sobre algumas delas.

Primeiro temos as mandalas externas. Uma mandala externa é a representação de um universo, e é um dos tipos de mandala usada para fazer oferendas. Essa é uma das principais coisas para a qual se usa a mandala. Oferecemos uma mandala – uma mandala externa, um universo – a um professor espiritual quando pedimos ensinamentos, quando o professor nos confere um conjunto de votos ou quando pedimos para receber uma iniciação. Sempre oferecemos uma mandala primeiro. E depois, no fim, oferecemos uma mandala em agradecimento. Sempre seguimos esse padrão no budismo.

Nesses casos, oferecer uma mandala representa oferecer de presente todo um universo, tudo – tanto o que é nosso quanto as coisas do mundo que não são de ninguém – para receber ensinamentos, votos ou iniciações. Se estivermos dispostos a doar todo um universo para receber ensinamentos, obviamente estaremos dispostos a doar nosso tempo, energia e coração inteiramente para os ensinamentos, votos e iniciações.

E geralmente representamos o universo de duas maneiras: uma delas é emborcando uma tigela de fundo plano e colocando em cima um anel que preenchemos com arroz (ou joias, se você as tiver). Então colocamos outro anel e novamente preenchemos de arroz ou joias. Assim, empilhamos três anéis e colocamos uma finalização em cima, como uma coroa, um tipo de joia.  Essa é uma forma de representar o universo. É claro que isso não é um universo, não é mesmo? Portanto, é uma representação.

A outra forma de representar o universo é através de um mudra, em que arrumamos nossos dedos de uma certa maneira, representando o universo. É bem interessante, não é que isso represente – mas de certa forma realmente representa – o universo; tecnicamente, é apenas uma base sobre a qual pode-se imputar um universo. Você não visualiza um universo do nada; para se visualizar alguma coisa é necessário que haja uma base. Para imputarmos alguma coisa conceitualmente, precisamos de uma base. A tigela com o arroz ou os dedos são essa base.

Você não está oferecendo apenas um prato de arroz ou os seus dedos – afinal, por que o professor iria querer seus dedos? Você está oferecendo um universo. Por serem símbolos, essas bases são apropriadas para colocarmos o rótulo de universo, que é o que imaginamos que estamos oferecendo. Nós não imaginamos que estamos oferecendo arroz ou dedos, imaginamos que estamos oferecendo todo um universo. É importante visualizar e imaginar que realmente estamos oferecendo um universo, e não apenas uma base para um rótulo, não apenas uma representação que funciona como base para rotularmos um universo.

Aqui, o universo é, da maneira como ele é descrito no abidharma; essa é uma possibilidade, com o Monte Meru e os quatro continentes em volta. Os dois dedos que ficam no centro do mudra representam o Monte Meru, e os quatro dedos cruzados em volta representam os quatro continentes. Por isso esse mudra serve como base para rotularmos um Monte Meru e quatro continentes.

Nos ensinamentos do Kalachakra, existe uma descrição ligeiramente diferente do Monte Meru e dos quatro continentes. Nesse sistema, oferecemos a mandala de acordo com a descrição Kalachakra do universo. Por haver duas descrições do universo que oferecemos em uma mandala, Sua Santidade o Dalai Lama diz que podemos também visualizar o universo da forma que a ciência o descreve. Podemos também oferecer o planeta Terra, o sistema solar, a galáxia ou todo o universo. Ou seja, devemos oferecer o universo de uma forma que faça sentido para nós, de forma que a oferenda seja sincera. Se oferecermos um universo com o Monte Meru e os quatro continentes, pode parecer um jogo bobo, não haverá um sentimento envolvido, não haverá uma emoção, portanto não ajudará em nada. Sua Santidade disse: “Vai! Um sistema solar, planetas orbitando em volta, o que quiser oferecer”.

Esse oferecimento de uma mandala externa também é parte das práticas preliminares especiais, que fazemos para gerar uma enorme quantidade de força positiva e conseguirmos ter algum sucesso na prática do tantra. Nesse contexto, oferecemos a mandala cem mil vezes, no mínimo – e não apenas para “Klausur” (prova ou teste em alemão), não apenas para o retiro – oferecemos para termos sucesso na prática do tantra em geral. Porém, quando entramos em um retiro de três anos, fazemos todas as preliminares novamente, mesmo se já as tivermos feito antes.  E geralmente oferecemos a mandala a uma assembleia visualizada de budas, bodhisattvas e mestres de linhagem.

É importante oferecer a mandala a alguém – novamente, não é só um jogo. O ponto é gerar, através dessa oferenda, uma enorme quantidade de força positiva, e isso depende muito do estado mental no qual fazemos a oferenda.  Os três elementos mais importante no nosso estado mental são a motivação adequada, um nível de concentração adequado e profundidade em nossa compreensão da vacuidade. No caso, a vacuidade de nós mesmos fazendo a oferenda, dos objetos que estamos oferecendo, da mandala que estamos oferecendo e da ação de fazer a oferenda.

Não devemos fazer do ato de oferecer algo muito especial, do tipo: “Oh, como sou maravilhoso por estar oferecendo isso” ou “Como você é maravilhoso, por isso estou lhe fazendo a oferenda” ou “Como essa mandala é linda!” Não devemos solidificar essas coisas. Obviamente, se oferecermos uma mandala cem mil vezes, mas como uma viagem do ego só para aumentar nosso orgulho, não vai funcionar. Não vai gerar força positiva pura, não é mesmo?

Entretanto, se fizermos a oferenda da forma adequada, ela gerará uma enorme quantidade de força positiva. A vida de Tsongkhapa é um exemplo disso. Tsongkhapa esforçou-se muito para compreender a vacuidade. Já tinha feito muitos anos de retiro intenso para meditar sobre a vacuidade e ainda não estava satisfeito – e Tsongkhapa não era um idiota, ele era muito inteligente.  Então ele entrou novamente em retiro e ofereceu dezoito conjuntos de cem mil oferecimentos de mandala e trinta e cinco conjuntos de cem mil prostrações para gerar a força positiva a fim de conseguir realmente compreender a vacuidade, compreender de forma não conceitual. Tsongkhapa não estava em um estágio inicial da prática, ele estava em um estágio muito avançado, que não podemos sequer esperar alcançar com nossas mentes limitadas.  Realmente é muito impressionante e inspirador que, no estágio em que estava, precisasse gerar mais força positiva para conseguir avançar. Portanto, é óbvio que esse oferecimento de todo o universo tem um significado muito profundo e, se tivermos tempo, investigaremos mais o motivo disso ser tão eficiente para gerar força positiva, se feito adequadamente, claro.

Existem ainda outros níveis de oferecimento de mandala, que estão conectados à classe mais elevada do tantra, o anutarayoga, a quarta classe do tantra. Nessa classe, há quatro iniciações, quatro tipos de oferendas comuns e quatro tipos de oferendas de mandala. Temos o oferecimento da mandala externa e o oferecimento da mandala interna. Neste último, oferecemos diferentes aspectos de nosso corpo – não o mundo externo, mas o mundo interno, nosso corpo – e o corpo também pode ser uma representação do Monte Meru e dos quatro continentes. A coluna é o Monte Meru, os quatro membros são os quatro continentes; você oferece o corpo, as coisas internas. Basicamente, estamos oferecendo todo o nosso corpo – os agregados, os elementos, os canais de energia, etc – à prática.

E temos o oferecimento da mandala secreta, ou oculta. “Secreta” e “oculta” são apenas duas formas de traduzir-se a mesma palavra. Isso pode ser explicado de duas formas: pode ser o oferecimento de nossa consciência bem-aventurada em geral ou da consciência bem-aventurada da vacuidade pela mente sútil, a mente de clara luz. Basicamente, oferecemos para alcançar a iluminação. Usamos isso para atingir a iluminação. Isso é uma mandala. Fazemos disso uma mandala, uma oferenda, uma representação. Apesar de ser um tipo especial de mandala, não é como se fosse uma tijela especial ou algo do gênero; geralmente não é assim que é representada. Ela pode ser representada por uma linda donzela, uma dakini.

O quarto tipo de oferecimento é o da mandala da natureza da realidade, normalmente traduzida como “mandala da talidade”. “Talidade” é uma palavra muito esquisita, significa a natureza da realidade. O que oferecemos pode ser a nossa compreensão da vacuidade, esse seria um nível. Ou então, podemos oferecer as duas verdades, esse seria outro nível. O que oferecemos nesse caso é a bem-aventurada compreensão da vacuidade com a mente de clara luz e nossa aparição simultânea como uma figura búdica. Isso está conectado ao tantra, ao tantra mais elevado. Oferecemos isso. Portanto, esses são os tipos de oferecimentos de mandala, quatro níveis diferentes de oferecimento de mandalas, e estão conectados a quatro níveis diferentes e progressivos da prática do tantra.

Há também mandalas que são como uma base sobre a qual recebemos iniciações. Podemos ver se a iniciação é realmente uma iniciação quando a primeira parte é outorgada como base em uma mandala. Se for uma permissão subsequente – jenang (rjes-snang) em tibetano – não se usa uma mandala, usa-se uma torma (gtor-ma), um bolo de cevada, e a iniciação é outorgada com base nessa representação de uma figura búdica. Sempre é possível percebermos essa diferença na cerimônia.

Existem muitos tipos diferentes de iniciações. A iniciação do vaso é encontrada em todas as quatro classes do tantra. Ela é outorgada com base em uma mandala simbólica de um mundo onde vive uma figura búdica ou um conjunto de figuras búdicas (a mandala de Cherenzig, de Vajrabhairava, de Kalachakra); a base é a representação desse mundo. Essa mandala consiste de uma mandala de sustentação – o palácio e o meio-ambiente – e uma mandala sustentada, o conjunto de todas as figuras que lá vivem. Mas a mandala consiste das duas coisas. Um sistema de deidades não é apenas uma figura; existem muitas figuras na mandala.

Durante a iniciação do vaso, pode-se usar quatro tipos diferentes de mandalas, ou bases que representarão o universo da figura búdica, a yidam. A mais usada é a mandala de pano. Uma mandala de pano – pode ser também de papel – é um pano ou papel em que a representação de um universo bidimensional é pintada. Hoje em dia, usa-se até uma fotografia algumas vezes.

Com base nessa pintura, imputamos e imaginamos um mundo tridimensional. Então dizemos: “Agora você entra na mandala”. Isso não significa que agora você virou um ser bidimensional e está andando no papel. O que fazemos é imaginar um mundo tridimensional, enorme, imputado com base nesse desenho. Esse é o tipo de mandala que normalmente vemos por aí, esses desenhos. Muitas pessoas tem a noção errada de que temos que visualizar esses desenhos bidimensionais. Mas ninguém visualiza desenhos bidimensionais, todos visualizam construções tridimensionais com base em desenhos bidimensionais. Eles funcionam como as plantas baixas usadas pelos arquitetos.

Se a ciência lhe for mais familiar, você pode pensar que esses desenhos são como um holograma. Em um holograma, temos uma película bidimensional que contém toda a informação de uma imagem tridimensional, e quando a luz incide sobre essa película de uma determinada maneira, temos um holograma tridimensional.  Esse processo é mais análogo ao que estamos falando. Com base nessa película bidimensional, que contém toda a informação – como as dimensões e o desenho de uma construção – criamos o holograma de um universo em nossa mente. Acho que essa maneira de explicar ajuda bastante na compreensão. Assim fica bastante claro que é como uma ilusão, fica clara a vacuidade desse mundo tridimensional.

O palácio representado é quadrado e geralmente tem dois andares, mas algumas vezes tem mais. No meio de cada um dos lados há um enorme portão com uma entrada– é bastante elaborado – e do lado de fora desse elaborado portal, do lado de fora do prédio, há um arco, em cada um dos lados. O prédio tem características arquitetônicas bem detalhadas. Tudo no estilo indiano antigo. Vemos coisas parecidas nos templos do sul da Índia, especialmente os arcos. Mas o telhado dos templos tem um estilo um pouco chinês, é uma mistura, o que é frequente com algumas coisas da cultura tibetana – essa mistura de Índia, China e dos povos nativos do Tibete. Esse universo, esse universo usado para a iniciação do vaso, pode ser representado por uma mandala de pano. Portanto, esse é o primeiro tipo de mandala usada nas iniciações de vaso.

O segundo tipo de mandala é uma mandala de areia. Essa representação bidimensional de um universo é feita com diferentes minerais coloridos em pó. Ela tem um pouco de profundidade, tem alguns centímetros de grossura. Tanto a mandala de pano como a de areia são normalmente colocadas, durante a cerimônia, em uma mesa arrumada como um palácio, com uma moldura de madeira e um pequeno telhado por cima, e cortinas nos quatro lados – isso deixa óbvio que se trata de uma iniciação. Se tratasse de uma permissão subsequente, não haveria tudo isso. Seria usada uma torma.

O terceiro tipo de mandala é a mandala de corpo – isso se aplica apenas a alguns anuttarayoga tantras mãe, estamos tomando apenas a quarta classe do tantra, e dentro dessa classe apenas o tantra mãe, e dentro do tantra mãe apenas uma parte.  O mestre tântrico, nesse caso, “efetivou” – esse é o termo técnico, “efetivou” – ou seja, realmente transformou algumas partes de seu corpo sutil na mandala de sustentação e na mandala sustentada: as várias partes da construção e as várias figuras que ficam dentro. E é com base nisso – nessa transformação que esse mestre realmente sofreu – que a iniciação é dada. Esse é o universo.

Encontramos isso em Chakrasamvara, também chamado de Heruka, em Vajrayogini, em Chittamani Tara e em Hevajra. Essas são as principais deidades que possuem a iniciação com base em uma mandala de corpo. Para receber uma iniciação de uma mandala de corpo, você precisa ter recebido uma iniciação de alguma das outras mandalas primeiro. As tradições Gelug e Sakya seguem isso com bastante rigor.

A quarta base que se utiliza para receber a iniciação do vaso é chamada mandala da constância mental (nível constante da mente) ou mandala da concentração. Encontramos isso em todas as classes do tantra. A base aqui é o que o mestre tântrico efetivou em seu samadhi, em sua concentração absorvida. Ele não apenas imagina a mandala, ele é capaz de efetivá-la a partir de sua concentração. Pode ser que não consigamos ver, mas ele a cria a partir de sua concentração e ela pode ser oferecida, com base nisso, por discípulos muito especiais, que são muito pobres e não possuem nada para oferecer.

Alguns mestres conseguem sustentar uma mandala tão vivida que não é nem bem uma visualização, a mandala realmente está lá. Lembro-me de Ling Rinpoche, que foi tutor sênior de Sua Santidade o Dalai Lama. Ele era expert em Yamantaka, Vajrabhairava. Uma vez ele estava dando uma palestra e descrevendo o palácio da mandala, e ele simplesmente apontava para as características arquitetônicas “Aqui é assim e ali é assado”. Ele simplesmente apontava. O que eu quero dizer é que, para ele, o palácio realmente estava lá, então ele podia simplesmente apontar, como apontamos para uma parede que estamos vendo. Essa força precisa estar presente para se dar uma iniciação com base na constância mental. Tenho que dizer que é muito impressionante.

Às vezes, realmente constrói-se uma mandala tridimensional, apesar de ela não contar como um dos quatro tipos de base. Existe uma na biblioteca de Dharamsala. Essas mandalas são feitas em madeira, plástico ou bronze. Parece uma casinha de bonecas tridimensional. Uma das grandes coisas que Tsongkhapa tinha no monastério de Ganden era esses enormes palácios tridimensionais dos três principais tantras Gelug. Também é possível fazer a oferenda com base nessas representações.

No tantra, temos quatro iniciações, e a do vaso é só a primeira. As outras três são dadas com base em outros tipos de mandalas, que são mais profundas:

  • A iniciação secreta é conferida usando-se uma mandala simbólica e redonda da bodhichitta convencional. São gotas, geralmente de iogurte ou chá, que servem como base para rotularmos as gotas sutis de energia da bodhichitta branca e vermelha. Essas gotas são oferecidas para serem degustadas.
  • A iniciação da profunda consciência discriminativa é dada usando-se uma mandala redonda simbolizando um útero.
  • A quarta iniciação, ou iniciação da palavra, é dada com base na mandala redonda simbólica da bodhichitta mais profunda. Essa mandala refere-se à profunda compreensão da vacuidade.

Na iniciação de Kalachakra, existe ainda um outro conjunto de quatro mandalas que servem como base para as iniciações:

  • A iniciação do vaso é conferida usando-se um vaso simbólico redondo que se parece com um seio, ao invés de um vaso contendo água consagrada como nos outros sistemas de anuttarayoga.
  • A iniciação secreta é conferida usando-se um vaso simbólico redondo na forma de um útero, que é a fonte de gotas simbólicas. Nos outros sistemas do anuttarayoga as gotas vêm da mandala de bodhichitta convencional.
  • A iniciação da consciência discriminativa mais profunda é conferida usando-se uma mandala simbólica redonda de bodhichitta convencional – gotas de energia sutil que descendem no corpo – ao invés de virem da mandala de um útero como em outros sistemas de anuttarayoga.
  • A quarta iniciação, ou a iniciação da palavra, é conferida usando-se a mandala simbólica redonda da bodhichitta mais profunda, como nos outros sistemas de anuttarayoga.

Quando nos engajamos na prática do tantra, visualizamos vários níveis diferentes de mandalas. Primeiro temos as mandalas que são discos simbólicos. Alguns são símbolos, como a lua branca e o sol vermelho, mas são mandalas, são chamados de mandalas, a mandala da lua e a mandala do sol. São símbolos nos quais se senta. A maioria das figuras búdicas estão em um lótus, um sol e uma lua ou uma lua com um sol em cima. O lótus é um símbolo e também uma representação da renúncia. A lua representa bodhichitta e o sol representa a compreensão da vacuidade. Portanto, o surgimento da figura búdica tem sempre como base os três caminhos principais: renúncia, bodhichitta e vacuidade. Aqui, o sol e a lua são chamados de mandalas.

Também temos as mandalas dos elementos: uma mandala de terra, uma mandala de água, uma mandala de fogo, uma mandala de vento e uma mandala de espaço. São representações. A mandala da terra, por exemplo, é quadrada e amarela. Visualizamos isso em vários lugares da prática tântrica. Em geral elas ficam embaixo do universo, embaixo do palácio e das coisas que rodeiam o palácio. E geralmente, como na prática de Yamataka, isso vem logo após a meditação na clara luz da morte, que é basicamente uma meditação na vacuidade, tendo como analogia o que acontece quando morremos. E quando nascemos novamente, a mente de clara luz conecta-se com os níveis mais grosseiros, com o corpo físico. Ela conecta-se em estágios com os elementos de um corpo grosseiro. Isso é representado por essas mandalas dos elementos que ficam embaixo da mandala em que aparecemos, como um renascimento. Visualizamos esses elementos embaixo do palácio para purificar tudo, todo processo, para mostrar que ele surge da clara luz.

No Sistema Kalachakra, temos mandalas de diferentes corpos celestes. Visualizamos a mandala de uma lua, de um sol e dos dois planetas envolvidos no eclipse do sol e da lua, chamados Rahu e Kalagni. Essas mandalas representam as quatro gotas sutis dentro do corpo, que têm a ver com o mecanismo pelo qual a mente cria as aparências. Representa isso, e estamos em pé em cima disso como (a deidade) Kalachakra.

De qualquer forma, o importante é que nos visualizamos sentados ou de pé ou visualizamos o palácio sobre essas várias mandalas – do sol, da lua, dos planetas, elementos, etc – e todas representam coisas muito significativas; elas não estão lá só para efeito decorativo. São chamadas de mandalas por representarem coisas. Às vezes você as tem no coração, sóis e luas, essas coisas. Chamamos de mandala porque representam alguma coisa – o mais comum é o sol e a lua representando vacuidade e bodhichitta.

E há os palácios mandala, que visualizamos na prática. Já descrevi o quadrado, os quatro portais, etc. Cada uma das características arquitetônicas representa alguma coisa, representa um insight que precisamos ter ao longo do caminho, assim como todos os braços e pernas da figura também representam alguma coisa, algum tipo de insight do caminho. Por exemplo, os quatro lados representam a compreensão das quatro nobres verdades, por isso são quatro lados. E são cinco cores, o chão é sempre dividido de forma que cada lado seja de uma cor diferente e o centro de outra, e as cores das paredes geralmente são pintadas em cinco camadas com essas cinco cores. Isso representa os cinco tipos de consciência profunda: do espelho, equanimidade, etc, essas coisas que precisamos desenvolver.

Quando nos visualizamos, nos visualizamos como a mandala de sustentação e a mandala sustentada, somos ambas as mandalas. Da mesma forma que somos a pele e as coisas dentro da pele. Essa é uma maneira de nos ajudar a manter todas essas coisas em mente, ter todas elas em mente ao mesmo tempo: “Ah, as cinco cores, as cinco consciências profundas e as quatro verdades”, todas essas coisas ao mesmo tempo. Para isso que a mandala é usada. Essa é realmente sua função mais significativa.

A última mandala que quero discutir é a mandala do corpo. Já falamos dela um pouco quando dissemos que a iniciação do vaso pode ser dada com base na mandala de corpo do mestre espiritual, mas também imaginamos, em algumas práticas tântricas, que temos uma mandala de corpo. Temos uma mandala de corpo em alguns tantras pai, mas não todos. Temos no Guhyasamaja, por exemplo, e em alguns, mas não todos, tantras mãe, como Chakrasamvara e Vajrayogini. Mas só no tantra mãe a iniciação pode ser dada a partir de uma mandala de corpo. No tantra pai, a mandala de corpo é feita do corpo grosseiro – dos agregados, elementos, membros. Essas partes do corpo grosseiro são geradas como partes do prédio e das várias figuras búdicas. Já no tantra mãe são os vários canais do sistema energético sutil que são transformados nas deidades e no palácio. A ênfase principal no tantra mãe são as deidades. Ainda não vi fazerem o palácio também.  E Hevajra, que na tradição Sakya é classificado com não-dual, tem a mandala de corpo formada por partes do corpo grosseiro e partes do corpo sutil. Por isso que na tradição Sakya diz-se que essa deidade é não-dual; a tradição Gelug a chama de mãe.

Vou adicionar mais uma questão técnica para que fique mais claro. Fala-se em transformar o corpo, nosso corpo comum, nisso. Estamos falando do corpo comum, como nossos agregados ou elementos. Eles são o que chamamos de causa obtentora (nyer-len-gyi rgyu) – existem seis tipos diferentes de causas discutidos no budismo, e a “obtentora” é a que obtém o resultado. Por exemplo, uma semente é a causa obtentora de um broto, ou seja, a semente é de onde vem o broto, e quando se tem o broto, a semente não mais existe. Isso é uma causa obtentora. Assim, o agregado dá surgimento à figura búdica e então você não tem mais o agregado comum e impuro, assim como a semente dá surgimento a um broto. É bom saber o que realmente estamos fazendo com a mandala de corpo.

Essa causa é muito diferente da causa que faz a argila virar um vaso, por exemplo, ou a massa virar pão. Quando a massa vira pão, ainda é massa, é o mesmo material. Mas não estamos falando desse tipo de causa, onde temos um mesmo material, que apenas mudou de forma. O budismo distingue cuidadosamente os diferentes tipos de causas. Então, como íamos dizendo, não é que partes de nosso corpo se transformem em figuras búdicas, como a argila se transforma em um vaso. É mais como uma semente que dá origem a um broto, não há mais os agregados comuns, agora temos todo um universo dessas figuras búdicas. Isso é o que queremos fazer do corpo, substituí-lo por isso, no que diz respeito atingirmos a iluminação.

Isso é uma mandala de corpo, e é com isso que você trabalha em sua visualização. É bastante profundo se você entender o tipo de causa de que estamos falando. Não é que o nosso corpo comum se torne o corpo iluminado de um buda, assim como a massa se transforma em pão. É como a semente que dá origem a um broto. Quando surge o corpo iluminado de um buda, este corpo comum está terminado, não temos mais um corpo comum, de modo algum.  É muita coisa para se pensar. Fazer a prática da mandala de corpo nos ajuda muito a entender isso e trabalhar com isso. Isso tudo são representações; isso é uma mandala.

Agora eu queria explicar mais um ponto. Quando oferecemos a mandala de oferecimento, recitamos um verso, e esse verso nos faz pensar muito. O verso é: “Essa base, que é purificada”, espargida na verdade, “com água de incenso”, que é água consagrada com fumaça de incenso, e “coberta de flores”, uma vez que a base é purificada, são colocadas flores por cima, e “adornada com o Monte Meru, os quatro continentes, o sol e a lua”, que significa que existem representações dessas coisas no universo, “ofereço isso a um campo búdico”, ofereço aos budas no campo búdico, e “com isso, que todos os seres venham a aproveitar um campo búdico”. Campo búdico é um outro nome para terra pura. Esse verso é usado para requisitar ensinamentos e gerar força positiva, ou mérito.

O fato de falar-se em campos búdicas é significativo, mas por que? O que é um campo búdico ou terra pura? É uma situação em que tudo é conducente para fazermos práticas intensivas a fim de alcançar a iluminação – você não precisa fazer nada mais. Você não precisa comer, não precisa dormir, não precisa trabalhar, não precisa ir ao banheiro, não precisa fazer nada. E você não simplesmente senta e relaxa. O ponto é que você não precisa fazer nenhuma atividade samsárica, assim você pode estudar, aprender e praticar vinte e quatro horas por dia, o tempo todo – isso é uma terra pura. Na verdade, é um lugar de trabalho duro, não é um lugar para passar férias. Como seria bom não ter que trabalhar, comer, dormir, não ter nada dessas besteiras samsáricas.

E quem fica nessas terras puras, nas terras dos budas? Os arya bodhisattvas. Para estar lá você precisa ser um arya bodhisattva, um bodhisattva que tem cognição não conceitual da vacuidade. São esses os discípulos em campos búdicos puros, e eles estudam com budas sambhogakaya, formas sutis de budas. Esses budas sambhogakaya estão sempre ensinando o Mahayana, e ensinam para sempre – você nem precisa pedir que ensinem – eles ensinam para sempre, até que todos os seres estejam iluminados, até que todos os seres sencientes estejam livres do samsara.

Quando oferecemos a mandala a um professor, para que nos ensine, quando oferecemos uma terra pura, isso está bem no estilo da Universidade de Nalanda. Quando você recebe ensinamentos, precisa visualizar ou imaginar que o professor é um buda, que o local onde está estudando é um campo búdico, uma terra pura, e que você e todos a sua volta são arya bodhisattvas. Portanto, está bem no estilo. Isso também se faz no tantra, mas não é uma exclusividade do tantra visualizar um campo búdico.

Ao oferecer a mandala, você está oferecendo uma representação de um campo búdico. Lembre-se: essa representação, na verdade, é uma base para rotularmos alguma coisa, uma base para imputarmos alguma coisa, é como um holograma, porque tem determinadas características que a define, é como a informação para gerar um holograma. Vários hologramas podem ser gerados utilizando-se uma base, depende da luz, e isso é análogo à mandala. A mandala depende de como a mente a imputa, sob qual ângulo essa mente está olhando. Usando essa representação, podemos imputar um universo samsárico, podemos imputar um Monte Meru e quatro continentes – como no abidharma ou no Kalachakra – ou podemos imputar um sistema solar como o da ciência ocidental, podemos gerar esses hologramas.

Todos esses hologramas estão no nível das aparências impuras; não é só a forma samsárica, mas também a aparência de ser verdadeiramente existente. O tradutor alemão pede para a última frase ser repetida: A aparência não é uma aparência impura apenas pelo fato do contexto ser samsárico, ela também é impura no sentido de que parece ser verdadeiramente existente. Não é uma aparência samsárica impura apenas no que diz respeito ao conteúdo, mas também no sentido de parecer ser verdadeiramente existente. No que diz respeito a aparências puras e impuras, ela é impura tanto no que parece ser o conteúdo, quanto na forma em que parece existir.

Nessa mesma base, você pode imputar – ou gerar um holograma de – uma terra pura, isso estaria no nível do caminho; ou o meio ambiente de um buda, no nível do resultado. Portanto, você gera a base, o caminho e o resultado. É muito interessante. Claro, a mandala simboliza tudo isso. “Purificada com água de incenso e coberta com flores” e assim por diante – ela tem que ser purificada da mesma forma temos que purificar a natureza búdica, pois a partir da natureza búdica podemos gerar esses diferentes níveis de hologramas: a base, o caminho e o resultado.

Podemos fazer isso com a oferenda da mandala interna. Estamos trabalhando aqui com os ventos-energia do corpo – pode ser nosso corpo comum, pode ser o corpo puro e ilusório de um arya bodhisattva em uma terra pura, no anuttarayga tantra, ou pode ser o corpo de um buda. O mesmo acontece com a consciência bem-aventurada – pode ser nosso êxtase comum, mas aqui estamos falando do êxtase natural da mente de clara luz, o êxtase de estar livre de máculas – isso também pode aparecer nesses três níveis. Essa é a mandala secreta.

E no que diz respeito à mandala da natureza da realidade, ela pode ser nossa compreensão comum da vacuidade ou o fato da mente de clara luz ter uma aparência de vacuidade. Ela não entende, mas tem uma aparência que é de vacuidade. Portanto, isso também ser desenvolvido nesses níveis. Temos esses quatro tipos de mandala, e no nível do caminho seriam as realizações de arya bodhisattvas no tantra mais elevado – com o corpo ilusório, a mente de clara luz, o par unificado dos dois e todas essas coisas. É a isso que a mandala está se referindo, isso é muito significativo, é isso que estamos oferecendo. Temos um objetivo, o verso diz “focando nisso”, “oferecendo isso, que todos possam atingir a iluminação”, “que todos cheguem a essa terra pura” – temos que juntar tudo isso que falei com bodhichitta, tudo isso vai junto.

Bodhichitta é uma mente voltada à nossa iluminação que ainda-não-está-acontecendo. É uma ausência; essa iluminação futura não existe agora. O que existe agora é o “ainda-não-acontecendo”, isso é imputado em nosso contínuo mental agora – nesse momento, já que só existe um único momento do contínuo mental de cada vez: o momento presente. O momento passado não existe mais e o momento futuro ainda não aconteceu. Portanto, com base na natureza búdica – nos fatores que permitirão essa iluminação futura, que ainda-não-aconteceu – com base em todos esses potenciais búdicos e na iluminação futura, que ainda-não-está-acontecendo, você pode atingir a iluminação – então, com bodhichitta nossa meta é essa.

Nossa meta não é a iluminação do Buda, nossa meta não é a iluminação em geral, nossa meta é a nossa própria iluminação, que não existe no momento. No que você está focando quando foca em bodhichitta? Essa é uma pergunta muito importante. Estamos focando no ainda-não-acontecimento de nossa futura iluminação, e estamos fazendo isso neste momento do contínuo mental de nossa mente, e estamos focando também nos potencias de natureza búdica deste momento de nosso contínuo mental, que é como focar em uma mandala, nessa representação. E com base nisso que imputamos, como um holograma, nossa futura iluminação. Essa é a nossa meta. Portanto, a oferenda de mandala está totalmente conectada à bodhichitta.

Com base no nosso momento presente podemos gerar o holograma de nossa vida samsárica – em um nível básico – ou podemos gerar o holograma da situação de uma terra pura onde somos um arya bodhisattva e estamos parcialmente purificados. Podemos também gerar nossa futura iluminação. Então fazemos essa oferenda de mandala e a oferecemos basicamente com bodhichitta, oferecemos essa representação da natureza búdica e de todos os potenciais que temos.  E “ao oferecer tudo isso aos budas, alcançamos uma terra pura” e “que todos possam fazer o mesmo” com base em suas naturezas búdicas. Portanto, essa oferenda de mandala tem um significado muito profundo.

Agora, devo confessor que montei isso no avião, vindo para cá. Ninguém me ensinou isso, mas isso vem de todos os outros ensinamentos que recebi. Tudo se encaixa para explicar isso perfeitamente. Eu não ouvi essa explicação assim como expliquei. Eu penso que o oferecimento de mandala realmente é um oferecimento de bodhichitta, por isso gera tanta força positiva. Isso é o que eu queria explicar. E já que isso está tão fresco em minha mente, estou muito animado.

Então pensamos que qualquer entendimento que tenhamos ganho se tornará a base para o holograma de um Buda. Com base no entendimento que adquirimos, quais holograma criaremos? O que vamos imputar? Poderíamos imputar confusão samsárica: “eu não entendi nada”, mas isso não nos ajudaria muito. Mas poderíamos também imputar: que isso gere muita força positiva, que seja cada vez mais profundo, que atue como uma causa para a nossa iluminação a fim de beneficiarmos todos os seres, que se torne a base para o holograma de um buda.

Essa é a abordagem Sakya da inseparabilidade do samsara e do nirvana. Assim, podemos ter tanto um holograma samsárico quanto um holograma nirvânico. A base é a mesma. Portanto, a escolha é sua – então que isso aja como uma causa para atingirmos a iluminação a fim de podermos beneficiar todos os seres. Normalmente, você oferece isso como uma mandala e “com base nisso, que eu alcance uma terra pura, a terra de um buda. E que todos alcancem isso também”. Esse é o verso. Muito profundo.

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