Dr. Alexander Berzin: O Segundo Serkong Rinpoche & Arquivos Berzin

Conhecendo a Reencarnação de Serkong Rinpoche e Minha Interação com Ele Durante Sua Infância e Juventude

A reencarnação de Tsenshap Serkong Rinpoche nasceu em Spiti, em 1984, exatamente nove meses após o dia de seu falecimento. Aos dois anos de idade, ele apontou para uma foto de seu predecessor e disse: “Esse era eu”, além de reconhecer pelo nome um de seus antigos assistentes que fora em busca do tulku. Quando me encontrou pela primeira vez, aos quatro anos, e lhe perguntaram: “Você sabe quem é este?”, ele respondeu: “Não seja estúpido. Claro que eu sei quem é.” Com essas poucas palavras, retomamos o forte vínculo que existia entre nós.

À medida que o Segundo Serkong Rinpoche crescia, seus jovens assistentes, Gendun Samdup e Thupten Sherab, sabiam como educá-lo no dharma, mas recorreram a mim para cuidar do restante. Eu considerava importante que ele fosse capaz de se relacionar bem com as pessoas de Spiti e com os tibetanos em geral. Assim, além de um professor de gramática e ortografia tibetanas, organizei tutores tibetanos para lhe ensinar matérias modernas, usando os mesmos livros didáticos que as crianças tibetanas e de Spiti utilizavam. Procurei manter as influências ocidentais ao mínimo, para que Rinpoche não enfrentasse conflitos culturais entre o Ocidente e o Oriente. Por esse motivo, exceto por visitas ocasionais, mantive certa distância dele durante sua infância e início da adolescência.

Rinpoche foi ao Ocidente pela primeira vez aos dezoito anos, só para participar da iniciação de Kalachakra concedida por Sua Santidade em Graz, Áustria, e para tomar parte, todas as manhãs, na auto-iniciação junto à Sua Santidade. Eu também estive presente e fiquei por perto durante as duas semanas de sua estadia. Além disso, quando ele tinha vinte anos, acompanhei-o em uma viagem de férias de um mês pelos Estados Unidos, para conhecer os principais locais e visitar as comunidades tibetanas. Assim como seu predecessor, o anterior Serkong Rinpoche, ele não se impressionou com os pontos turísticos habituais, como a Disneylândia, que considerou “nada de especial”. O jovem Rinpoche afirmou que o ponto alto da viagem foi a visita ao Museu do Holocausto, em Washington, D.C., pois isso o levou a meditar sobre a compaixão tanto pelas vítimas quanto pelos torturadores.

Como resultado da minha experiência com o jovem Serkong Rinpoche, fui convidado pelo Gabinete Particular de Sua Santidade a integrar o comitê responsável por decidir como prosseguir com a educação do jovem tulku Ling Rinpoche, após seu retorno de uma estadia prolongada na América com um rico patrono ocidental, quando ele tinha nove anos de idade. Decidimos que seria melhor que ele se mudasse de Dharamsala para seu mosteiro, Drepung Loseling, no sul da Índia, e que ali desse continuidade a seus estudos sérios, afastado de influências externas.

À medida que o Segundo Serkong Rinpoche crescia e eu o comparava com seu predecessor, o Primeiro Serkong Rinpoche, e juntava essa comparação aos ensinamentos sobre a vacuidade do eu, a originação dependente e a vacuidade de causa e efeito, finalmente me convenci plenamente da existência do renascimento. Como o próprio Segundo Serkong Rinpoche me disse, ele não sabe se é a reencarnação de seu predecessor. Tudo o que pode dizer é que nasceu tendo as oportunidades preciosas de receber orientação pessoal de Sua Santidade, dos melhores professores e assim por diante. Tudo isso existe graças às atividades e qualidades do Primeiro Serkong Rinpoche e ele carrega o seu nome. Portanto, como ensina o lam-rim, ele tem procurado aproveitar ao máximo as oportunidades proporcionadas por esse renascimento incrivelmente afortunado e precioso.

Tendo-se tornado um excelente mestre como resultado de aproveitar essas oportunidades, ele fez questão de tentar se reconectar com o maior número possível de alunos de seu predecessor e de continuar a ensiná-los e guiá-los. Ele não é nem a mesma pessoa nem uma pessoa totalmente diferente do antigo Serkong Rinpoche, e isso se deve ao fato de não existir a reencarnação de uma pessoa autoestabelecida. Não é que todas as qualidades de uma vida deem origem às qualidades da vida seguinte. Afinal, com incontáveis vidas passadas, um conjunto de qualidades provenientes de muitas vidas diferentes desempenha um papel causal — mas não no sentido de um conjunto de causas autoestabelecidas de muitas vidas passadas dando origem a um resultado autoestabelecido nesta vida. Minha firme crença no renascimento baseia-se na compreensão que Rinpoche tem de sua experiência pessoal de ser reconhecido como uma reencarnação, no grande tempo que passei com duas vidas da pessoa chamada Serkong Rinpoche e no fato de que ambas concordam perfeitamente com os ensinamentos sobre a vacuidade do eu e a vacuidade de causa e efeito.

Retornando ao Ocidente e Digitalizando Meus Trabalhos

Em 1997, após ter viajado muito ensinando e trabalhando em projetos para Sua Santidade desde 1984, decidi deixar a Índia por uma combinação de razões pessoais e profissionais. Senti que havia aproveitado o máximo possível de ter a Índia como base residencial. Como quando decidi deixar a vida acadêmica, percebi que para continuar a crescer precisaria retornar ao ocidente. Era difícil comunicar-me da Índia com meus editores americanos, a Snow Lion Publications, e eu desejava ter alunos regulares em vez de ser o que eu chamava de um “guru da elite”, voando para um lugar por alguns dias apenas uma vez a cada um ou dois anos.

Além dessa ideia de me estabelecer no ocidente, havia várias outras possibilidades do que eu poderia fazer — continuar sendo um professor itinerante, mas permanecendo mais tempo em cada lugar; estabelecer-me na Mongólia e ajudar no renascimento do budismo ali e assim por diante. Todas seriam benéficas, então pedi o conselho de Sua Santidade. Sua Santidade disse para escolher algo que quase ninguém mais estivesse fazendo e no qual eu fosse bom. Ele confiou que eu tomaria a decisão correta.

Ao longo de quase trinta anos na Índia, eu havia acumulado aproximadamente 30.000 páginas de traduções que fizera, manuscritos inéditos de livros e artigos que escrevera, transcrições de ensinamentos que havia traduzido ou ministrado e anotações manuscritas de leituras que havia feito. Eu também tinha centenas de fitas de áudio com outros ensinamentos que precisavam ser transcritos. Tudo isso era de valor inestimável, especialmente os ensinamentos de Sua Santidade, de Serkong Rinpoche, de Geshe Ngawang Dhargyey e dos outros grandes lamas com quem estudei. Seguindo o conselho de Sua Santidade, decidi que a melhor coisa que eu poderia fazer seria torná-los disponíveis ao mundo. Eles haviam sido de grande benefício para mim e imaginei que, da mesma forma, seriam benéficos para outras pessoas.

Como eu já havia publicado vários livros com a Snow Lion, discuti com eles a ideia de compilar uma série de volumes contendo itens selecionados desse material e eles concordaram. Eu já tinha um laptop desde 1985 e cerca de metade desse material já havia sido digitalizada. O restante estava manuscrito ou datilografado. Eu havia feito fotocópias da maior parte, mas agora elas também precisavam ser digitalizadas. Com uma pequena bolsa que recebi, contratei Peter Green, que conheci na Snow Lion, para iniciar essa enorme tarefa. Embora ele tenha trabalhado nela em meio período por alguns anos, conseguiu concluir apenas uma pequena parte. Peter mais tarde tornou-se bibliotecário em Princeton.

Estabelecendo-me em Berlim, Alemanha

Depois que deixei a Índia, passei o ano seguinte experimentando diferentes lugares como uma nova base: Munique, Seattle, Cidade do México e País de Gales. Contudo, por diversos motivos, nenhum deles funcionou. Alguns anos antes, durante um ensinamento que eu estava dando em Berlim, Aldemar Hegewald, um jovem alemão de ascendência colombiana, aproximou-se de mim para conversar após a palestra e decidimos manter contato. Cada vez que eu ia à Alemanha, passávamos tempo juntos e logo nos tornamos amigos. Permanecemos amigos próximos desde então. Ele viria a seguir uma carreira muito bem-sucedida como neurocirurgião especializado em cirurgia da coluna, mas naquela época estava cursando medicina e dividia um apartamento em Berlim com um amigo que estava sendo transferido para outra cidade. Ele sugeriu que eu me mudasse para lá e dividisse o apartamento com ele.

Eu já falava alemão desde o ensino médio e a universidade, embora estivesse enferrujado, e já havia tentado morar em Munique. Lá eu ficara no apartamento do centro de dharma, ensinava no centro e precisava pedir permissão se quisesse ensinar em outro lugar. Em Berlim, havia a Sociedade Budista, onde eu já havia ensinado muitas vezes antes. Era apenas um conjunto de salas onde diversos grupos budistas davam aulas. Eu poderia dar aulas ali e permanecer independente. Assim, aceitei a oferta de Aldemar. Um benefício adicional de morar em Berlim era o fácil acesso à Rússia e aos países do Leste Europeu, onde eu sabia que Sua Santidade consideraria importante que eu continuasse a ensinar. Ainda hoje dou palestras ocasionais por Zoom para grupos de meus alunos na Rússia e na Ucrânia.

Mudei-me para Berlim em dezembro de 1998 e compartilhei o apartamento com Aldemar durante os dois primeiros anos, até que ele se mudou para mais perto de sua faculdade de medicina; desde então, tenho morado sozinho. Nos primeiros anos, realizei uma aula semanal na Sociedade Budista. No entanto, o local ficava bastante longe de onde eu e a maioria dos meus alunos morávamos. Como as turmas eram pequenas e eu não divulgava as aulas, acabamos por transferi-las para o meu apartamento.

Apesar da diferença de idade, Aldemar e eu tínhamos muita afinidade. Para relaxar de seus estudos, ele lia uma enciclopédia alemã do começo ao fim. Ao longo dos anos, nossas conversas intelectuais têm sido um dos pontos altos de nossa relação. Atualmente, ele é chefe do departamento de cirurgia da coluna em um grande hospital ortopédico no norte da Alemanha, próximo à fronteira com a Dinamarca, e vive nas proximidades com sua esposa italiana, que também é médica, e seus dois filhos.

Uma das primeiras coisas que fiz depois de me estabelecer em Berlim foi mandar digitalizar todo o meu material manuscrito e datilografado para fins de preservação. As fotocópias não eram suficientes. Além disso, estavam começando a desbotar. Aldemar então sugeriu que eu colocasse todo o meu material em um site. Em meados da década de 1990, a internet havia se tornado amplamente conhecida e, na virada do século, os sites começavam a se popularizar. Percebi que os livros tinham uma distribuição limitada e que era necessário aguardar uma segunda edição para que quaisquer alterações pudessem ser feitas. Um site evitaria esses problemas e ainda poderia ser uma fonte de pesquisas.

Além disso, como eu levava a sério os ensinamentos de escopo inicial do lam-rim sobre trabalhar para beneficiar vidas futuras e fazê-lo por meio da construção de causas cármicas, também pensei que a força positiva (“mérito”) de disponibilizar esse material ao mundo em um site teria dois efeitos cármicos sobre mim. Como causa do amadurecimento, poderia resultar em eu obter um precioso renascimento humano na próxima vida. Como causa semelhante ao seu resultado, nessa próxima vida eu poderia nascer em um lugar onde esses ensinamentos estivessem disponíveis nesse site, ser instintivamente atraído por eles e inspirado não apenas a colocá-los em prática, mas também a trabalhar para torná-los ainda mais acessíveis.

Está escrito que um renascimento desses ocorre apenas uma vez a cada cem anos, é tão raro quanto o proverbial surgimento de uma tartaruga cega à superfície do oceano exatamente no ponto onde ela enfia o pescoço em um jugo dourado e flutuante. Ainda assim, se alguém acumular as causas para um precioso renascimento humano e as circunstâncias estiverem presentes, o renascimento provavelmente ocorrerá. O método consiste em manter uma rigorosa autodisciplina ética e complementá-la com a prática das outras atitudes de amplo alcance (paramitas), como a generosidade, além de fazer dedicatórias apropriadas da força positiva das ações construtivas realizadas. Tenho seguido esse método da melhor forma possível.

Começando o Site dos Arquivos Berzin

Alguns meses depois, ainda sem ter tomado providências para concretizar a sugestão de Aldemar, Wolfgang Saumweber, um empresário alemão que eu havia conhecido em minhas viagens, escreveu-me oferecendo-se para criar um site para mim. Sua primeira versão, berzinarchives.com, entrou no ar em 1º de dezembro de 2001. Seu princípio fundador era ser não sectário, sempre gratuito e livre de publicidade.

A experiência que adquiri ao organizar o grande projeto médico na URSS me preparou para organizar o projeto Berzin Archives em grande escala. Para administrá-lo como diretor executivo, gestor administrativo e gestor de conteúdo, funções que ainda desempenho hoje, ensinei a mim mesmo os fundamentos de Tecnologia da Informação (TI) relacionados à construção, manutenção e administração de um site complexo. Rudy Hardewijk, um programador holandês, ficou comigo por alguns meses em Berlim e desenvolveu ainda mais o site. Em seguida, Christian Steinert, um aluno alemão meu e programador de alto nível, assumiu o desenvolvimento do site. Steinert também traduziu minhas aulas de dharma na Sociedade Budista. Posteriormente, ele participou do primeiro curso de mestrado de três anos no Instituto Lama Tzong Khapa e depois passou a ministrar as sessões diárias de revisão do segundo curso de três anos. De vez em quando, ele ensina em centros budistas na Suíça, onde atualmente trabalha e reside.

Tendo ensinado em tantos países, percebi que nem todos compreendem o inglês; as pessoas gostam de aprender o dharma em sua própria língua. Para atender a essa necessidade, comecei traduzindo o site para o alemão, o que se popularizou bastante. Assim, ao longo dos anos seguintes, expandi gradualmente para o russo e outras línguas europeias, bem como para o chinês, o hindi, o tibetano e o mongol. Embora eu nunca tivesse estudado as línguas românicas, minha formação em latim me permitiu supervisionar essas seções linguísticas. Ter passado tantos anos na Índia, além do meu conhecimento de sânscrito, tornou a supervisão da seção em hindi relativamente fácil.

Enquanto trabalhava para acrescentar mais conteúdo ao site, eu relatava nosso progresso a Sua Santidade sempre que ele ensinava na Europa e buscava orientações adicionais. Traduzi várias outras iniciações de Kalachakra para ele e lidei com a imprensa em diversos de seus ensinamentos. Por exemplo, quando teorias da conspiração se espalharam sobre os motivos que levaram Sua Santidade a conceder a iniciação de Kalachakra de 2002 em Graz, Áustria, atuei como porta-voz no gerenciamento da crise. Quando protestos contra o Dalai Lama tornaram-se especialmente ruidosos tanto fora quanto dentro dos locais de seus eventos de ensinamento, Sua Santidade pediu minhas recomendações para transmitir aos organizadores e às autoridades locais sobre a melhor forma de lidar com as perturbações causadas.

Ampliando a Equipe do Berzin Archives

Em 2003, Andreas Killmann mudou-se para Berlim para trabalhar no Ministério da Justiça do governo alemão, onde ainda atua como assessor jurídico. Ele logo passou a frequentar minhas aulas na Sociedade Budista e tornou-se tanto um amigo próximo quanto meu principal conselheiro. Em fevereiro de 2005, ele nos orientou sobre os estatutos necessários para os Artigos de Associação com os quais fundei uma associação alemã sem fins lucrativos, a Berzin Archives e.V., para apoiar o site, e Aldemar concordou em ser o presidente do conselho diretor. Desde então, Andreas tem cuidado de todas as nossas necessidades legais, comunicando-se com profissionais das áreas fiscal e jurídica, bem como com órgãos administrativos alemães, proprietários de imóveis, bancos, seguradoras e assim por diante. À medida que o projeto foi crescendo, ao longo dos anos, às vezes contando com até oitenta colaboradores freelancers, ele tem sido sustentado exclusivamente por doações e subsídios. As pessoas têm sido extremamente generosas.

O trabalho de Andreas no Ministério consiste em avaliar propostas de novas leis para determinar se algum ponto entra em conflito com regulamentos existentes ou mesmo com preceitos da Constituição alemã. Sendo um especialista em identificar falhas, ele faz o mesmo em relação ao nosso projeto. Eu o chamo de “Sr. Copo Meio Vazio”, em contraste comigo como “Sr. Copo Meio Cheio”. Sempre que tenho uma nova ideia para o site, primeiro a verifico com ele. Invariavelmente, ele representa o lado da cautela e aponta os possíveis riscos em tudo o que proponho. Isso frequentemente leva a debates animados, mas em geral preciso admitir que o que ele está sugerindo faz sentido. Juntos, encontramos um caminho do meio. Sou extremamente grato por sua ajuda em minimizar problemas no projeto.

Em 2009, Sua Santidade, sabendo de meus esforços para promover o diálogo entre budistas e muçulmanos, pediu-me que tornasse o conteúdo do site também disponível ao mundo muçulmano. Assim, ao longo dos anos seguintes, incluí sete línguas islâmicas no site, começando pelo árabe. Para poder supervisionar esse trabalho, ensinei a mim mesmo a escrita árabe.

O conhecimento básico da gramática e do vocabulário hebraicos que adquiri na infância permitiu-me, anos mais tarde, conduzir pesquisas em árabe original para um estudo comparativo sobre o amor no budismo e no islã. Mais uma vez, foi o curso de pesquisa em sinologia de Harvard que me ensinou a encontrar soluções engenhosas para isso. Utilizando um mecanismo de busca árabe do Alcorão, pude encontrar todos os versículos que continham flexões da palavra árabe para “amor”. Em seguida, consultando traduções palavra por palavra desses versículos, pude compreender o conceito corânico de amor.

Em 2011, Matt Linden, fotógrafo e videógrafo profissional britânico, juntou-se à equipe como editor-chefe em inglês. Ele se encaixou muito bem em nossa abordagem multilíngue, sendo fluente em chinês (mandarim e cantonês) e conhecendo tibetano, francês, alemão, italiano, finlandês, sueco e um pouco de japonês. Tendo aprendido em minhas viagens que muitas pessoas preferem ouvir ensinamentos em vez de lê-los, logo comecei a pedir que Matt preparasse e adicionasse conteúdo multimídia ao site, tanto em áudio quanto em vídeo.

Conheci Matt pela primeira vez em 2006, quando participei de uma conferência em Londres sobre a interação cultural entre o islã e o Tibete. Em uma das sessões, Joona Repo, um doutorando finlandês da Escola de Estudos Orientais e Africanos (School of Oriental and African Studies - SOAS), aproximou-se de mim e contou o quanto havia se beneficiado do site Berzin Archives. Matt, que acabara de se formar na SOAS, era seu parceiro, e os dois se juntaram a mim para jantar no dia seguinte. Mantivemos contato desde então, encontrando-nos sempre que Sua Santidade ensinava na Europa. Ambos haviam estudado na Universidade de Lhasa por dois anos e depois em Dharamsala.

Joona acabou tornando-se o coordenador das traduções da Fundação para Preservação da Tradição Mahayana (Foundation for the Preservation of the Mahayana Tradition - FPMT).

Em 2013, Yury Milyutin, um estrategista russo de marketing digital, juntou-se à equipe como meu assistente. Aos quinze anos de idade, ele havia vencido o campeonato russo de um videogame de estratégia. Quando jovem, trabalhando como professor de ioga em Kiev, na Ucrânia, ele se aproximou de mim ao final de um seminário que eu havia ministrado e, como aconteceu com Aldemar, mantivemos contato depois disso e seguimos nos encontrando sempre que eu ensinava em Kiev. Quando ele manifestou interesse em trabalhar no site, convidei-o para Berlim.

Renomeando o "Berzin Archives" para "Study Buddhism”

Em 2015, a programação do site havia se tornado obsoleta e, apesar de o "Berzin Archives" ter se tornado uma “marca” bem conhecida, decidi encomendar a criação de um novo site. Para fins de marketing, Yury recomendou que mudássemos o nome. No início, fui contra a ideia. Refletindo melhor, percebi que minha resistência vinha do apego ao site como sendo “meu”. Compreendendo que este tipo de apego não era benéfico, concordei com a mudança. Ao procurar um novo nome, fiquei surpreendido ao descobrir que “Study Buddhism” ainda estava disponível. Seria um nome mais adequado, pois retiraria o foco de mim e o levaria para o dharma. Além disso, no futuro, seria mais fácil de encontrar nos mecanismos de busca. Foi um grande risco, pois inicialmente a mudança faria com que caíssemos no ranking do Google, mas decidimos assumi-lo. Foi assim que o "Berzin Archives" passou a se chamar "Study Buddhism”.

Com o apoio de um generoso patrono, contratei a principal empresa de TI de Berlim, a Edenspiekermann, para construir o novo site, já que Steinert não tinha mais tempo disponível. Julia Sysmäläinen, premiada designer finlandesa de fontes e design gráfico e arquiteta da informação, criou o novo formato e, após concluir o projeto, juntou-se à nossa equipe. Yury supervisionou a construção para garantir que permanecesse de acordo com nossas necessidades. Ele continuou conosco por mais alguns anos, ajudando a expandir nossa presença na internet, e depois retornou a Kiev. Quando a guerra começou, ele conseguiu fugir para Portugal com sua esposa ucraniana.

O novo site entrou no ar em maio de 2016. Logo expandimos para diversas plataformas de redes sociais e criamos um canal no YouTube (youtube.com/studybuddhism), com Matt gerenciando ambos a partir de sua base em Helsinque. Convidei Maxim Severin, de Moscou, na Rússia, que havia participado de meus ensinamentos ali, para integrar a equipe como analista de dados, e providenciei para que ele e sua família se mudassem para Berlim. Por meio de Yury, também contratei Andreii Zdorovtsov, em Dnipro, na Ucrânia. Ele assumiu a função de desenvolvedor de sites, completando nossa equipe principal. Quando a guerra eclodiu na Ucrânia, primeiro ajudamos sua esposa e filhos a se mudarem para a Alemanha e depois ele próprio conseguiu juntar-se a eles.

Ao longo dos anos, com essa equipe dedicada, expandi ainda mais o site de acordo com os pedidos de Sua Santidade. Para promover valores humanos básicos e a ética secular, que Sua Santidade pediu explicitamente que eu incluísse, acrescentei uma seção abrangente sobre valores universais. Para fomentar a harmonia religiosa, concentrei-me não apenas na harmonia inter-religiosa entre o budismo e o islã, mas também na harmonia intra-religiosa entre os diversos tipos de budismo. Para isso, mandei traduzir o site para as línguas de todos os demais países budistas da Ásia.

Para promover o não sectarismo, Matt realizou entrevistas em vídeo com mais de cinquenta mestres do budismo tibetano, do budismo chinês e do budismo Theravada, de todas as tradições, como também da tradição religiosa Bon, além de professores universitários de Estudos Budistas e cientistas que pesquisam meditação e inteligência animal. Essas entrevistas estão disponíveis em nosso canal no YouTube, com legendas em todas as nossas línguas.

Para preservar e promover a língua tibetana, ampliei nossa seção de tibetano coloquial para mais de quinhentos artigos. Recentemente, um mosteiro tibetano na Índia solicitou permissão para reimprimir e distribuir um desses artigos durante um ensinamento público que estavam realizando. Para retribuir a gentileza da Índia, disponibilizei o site em dez línguas indianas.

Agora, em março de 2025, o site conta com mais de dezesseis mil artigos distribuídos em trinta e sete seções linguísticas e, em 2024, recebeu 3,2 milhões de visitantes. Além de realizar o trabalho administrativo do projeto, continuo a fazer pesquisas e a escrever novos materiais, apesar de ter acabado de completar oitenta anos.

Pesquisa Atual

Seguindo o conselho de Sua Santidade de sempre confiar nos mestres de Nalanda, venho compilando, analisando e traduzindo do sânscrito, quando disponível, caso contrário do tibetano e ocasionalmente do chinês, o que eles escreveram sobre carma e ignorância. Tenho organizado essas explicações de acordo com os quatro sistemas de princípios filosóficos. Assim como a relação com um mestre espiritual, o carma e a ignorância são temas ainda pouco compreendidos pela maioria dos praticantes ocidentais.

Prática Atual de meditação

Também mantenho uma prática diária de meditação, que evoluiu ao longo dos anos. No início, eu praticava, em tibetano, as longas sadhanas de todas as principais divindades para as quais havia recebido iniciação, incluindo ou não um compromisso vitalício de prática diária. Depois de ter realizado os retiros de todas elas e iniciado minhas longas viagens, Sua Santidade meu deu a permissão de limitá-las apenas às visualizações, às seções de bodhichitta e vacuidade e aos mantras.

Sua Santidade sempre explica que o ponto principal da prática do dharma é superar o autoapego e o autocentramento. Sem essa orientação, a recitação de sadhanas tem pouco efeito. Por isso, embora eu mantenha a prática abreviada das sadhanas, além de algumas outras práticas com as quais me comprometi, atualmente sigo o exemplo de Sua Santidade e enfatizo a meditação analítica sobre bodhichitta e vacuidade. Para a meditação sobre a vacuidade, utilizo as cinco grandes linhas de raciocínio da Madhyamaka e os versos de Chandrakirti, o Madhyamakavatara (Entrando no Madhyamaka), que Sua Santidade afirma contemplar diariamente. Dessa forma, incorporo a meditação analítica sobre qualquer tema em que eu esteja trabalhando no momento para o site como, por exemplo, o carma.

Ao escrever este relato de minha vida, concentrei minha meditação sobre a vacuidade em analisar algumas questões pessoais com as quais tive de lidar, especificamente, a sensação de que eu não existia e a aversão, semelhante à de um morcego, que eu tinha a possuir uma identidade sólida e fixa. Queria obter maior clareza sobre qual era a causa real de meus problemas. Como esse tipo de análise desempenha um papel tão importante em minha vida e pode ser útil para alguns leitores que estudaram a vacuidade ver como tal análise funciona, exporei aqui o que descobri.

Com uma visão distorcida inata em relação a um conjunto transitório (’jig-lta lhan-skyes), projetamos um eu autoestabelecido (inerentemente existente) como sendo idêntico aos agregados ou como possuidor de algo neles (como os votos e o comportamento de um monge ou de um leigo), e nos agarramos a isso como sendo a nossa verdadeira identidade. Isso tem como base a queda no extremo do essencialismo que é o apego a um eu autoestabelecido. Por outro lado, caímos no extremo do niilismo, como aconteceu comigo, imaginamos que o eu não existe de modo algum, rejeitamos projetá-lo sobre qualquer identidade e assim viramos o “morcego”. Uma variante dessa visão niilista é o apego a um eu autoestabelecido que não possui identidade. Essa variante estava mais próxima da condição que me fazia sofrer.

Um “eu” surge de forma dependente não apenas com base em um contínuo de cinco agregados e na rotulagem mental. Um “eu” também surge de forma dependente em contraste com um “outro”, mas somente com base no fato de que tanto o eu quanto o outro são desprovidos de existência autoestabelecida e não com base em ambos serem autoestabelecidos. Eu me agarrava ao meu “eu” como tendo uma não-existência autoestabelecida e à sensação física de contato do corpo como sendo o “outro” dotado de existência autoestabelecida. Sentindo-me desconfortável com a ideia de não existir e rejeitando qualquer identidade verdadeira como monge, leigo e assim por diante, imaginei que tocar objetos, como as vitrines das lojas enquanto caminhava pela rua, poderia estabelecer que eu de fato existia. Era como se eu pudesse extrair minha existência das vitrines.

Já se passaram muitas décadas desde que toquei vitrines compulsivamente, mas sem dúvida ainda restam vestígios dos equívocos subjacentes que deram origem a esse comportamento. Ainda assim, quanto mais analiso com precisão as questões que antes me afligiam, encaixando-as na estrutura técnica da Madhyamaka e descobrindo o quão bem ela as descreve, mais confiante me torno de que a compreensão correta da vacuidade dentro dessa estrutura é o antídoto mais profundo para o sofrimento. Certamente não posso afirmar que compreendi plena e corretamente a vacuidade, mas qualquer nível de compreensão que tenha alcançado até agora tem sido uma grande ajuda. Se outros também levarem a sério o conselho de Sua Santidade e praticarem meditação analítica diariamente, estou certo de que eles também se beneficiarão disso.

Além da meditação analítica, pratico também o que é conhecido como “meditação direta”, para revisar os ensinamentos e mantê-los frescos na mente. Assim, todos os dias faço uma leitura extremamente rápida de uma série de dez textos curtos que estudei sobre lam-rim, lojong e vacuidade. Utilizo as traduções que fiz desses textos para o inglês, pois elas transmitem mais significado para mim do que os originais em tibetano.

Adquiri a ideia de treinar dessa forma ao viajar com Sua Santidade e com o Primeiro Serkong Rinpoche. Entre compromissos, no carro ou no avião, ambos recitavam silenciosamente textos de memória em velocidade extremamente rápida. Apenas recitar os textos como um exercício de memória traz benefícios limitados. O mais importante é que treinar dessa maneira é um método eficaz de integrar todo o conteúdo e tornar-se automaticamente consciente dele em resposta aos eventos do dia a dia. Essa é a base para conseguir transformar os ensinamentos do dharma em um comportamento instintivo.

Esse método de obter familiaridade com os ensinamentos também está de acordo com a orientação de Serkong Rinpoche de que precisamos ser capazes de trazer à mente todo o ensinamento do lam-rim no tempo que leva para colocar um pé no estribo e passar a outra perna por cima do cavalo. Quando a morte chega, ela não espera até você lembre de sua motivação e estabeleça lentamente um estado mental construtivo.

Treinamento Físico Atual

Outro aspecto importante da minha vida atual é o exercício físico. Durante a maior parte da minha vida nunca me exercitei e só comecei em 1999, quando dividia um apartamento com Aldemar. Além de seus estudos em medicina, Aldemar ensinava ninjutsu, a arte marcial dos guerreiros ninja. Fiquei curioso e decidi assistir à aula dele junto com estudantes do ensino médio e universitários. Participei dos exercícios de aquecimento e aprendi a usar uma espada samurai, o que foi muito divertido, mas fiquei de fora da parte em que praticavam combate. No final da aula, ensinei meditação a todos eles. Achei a energia e o entusiasmo desses jovens muito revigorantes. No entanto, parei de frequentar quando Aldemar se mudou para o próprio apartamento.

Em 2007 sofri uma lesão leve nas costas. Após me recuperar, entrei para uma academia a pedido insistente de alguns de meus alunos e comecei a frequentar aulas de hidroginástica e exercícios para fortalecer os músculos das costas. As aulas me ajudaram bastante. Em 2011, meu instrutor de hidroginástica, Sebastian Werner, disse que com sessenta e sete anos era importante que eu prevenisse a perda de massa muscular relacionada à idade, a fim de evitar possíveis lesões causadas pela fraqueza. Ele explicou que, de acordo com pesquisas médicas, o melhor método de prevenção seria levantar pesos. Assim, comecei a fazer aulas particulares com ele três vezes por semana e aprendi a fazer musculação. Para minha surpresa, descobri que eu era muito forte e tinha um corpo como o do meu pai. Ele teria ficado muito satisfeito e orgulhoso ao me ver.

Em 2019, machuquei o pulso e tive de parar de levantar pesos pesados. No entanto, continuei treinando com Sebastian como antes, fazendo exercícios que não sobrecarregavam os pulsos e melhoravam meu equilíbrio e flexibilidade. Em 2021, tive um ataque de angina do peito devido a uma artéria cardíaca obstruída e precisei colocar alguns stents. Acredito firmemente que todo o treinamento físico que eu vinha fazendo salvou minha vida. Ele fortaleceu meu coração de tal forma que a angina não desencadeou um ataque cardíaco.

Desde que me recuperei da cirurgia, mantive minha rotina de exercícios com Sebastian e tento nadar uma vez por semana. Como sou altamente motivado a trabalhar no site pelo maior tempo possível, é importante para minha longevidade e saúde que eu me afaste regularmente da mesa e do computador e cuide do meu corpo.

Servindo como uma Ponte entre o Primeiro e o Segundo Serkong Rinpoches

Em resumo, desde que ouvi aquela palestra sobre como o budismo foi difundido e adaptado de cultura em cultura, mantive uma firme determinação de também servir como uma ponte entre o budismo e o mundo moderno. Do mesmo modo, desde que me ofereci para servir Sua Santidade pelo resto da minha vida, nunca me afastei de meu compromisso de ajudá-lo a construir essa ponte. Assim, tentei investir tudo o que estudei e tudo o que fiz nessa tarefa.

Além disso, desde que me tornei discípulo do Primeiro Serkong Rinpoche, nunca deixei de trabalhar para tornar seus ensinamentos disponíveis ao mundo. Primeiro, fiz isso como seu tradutor e, desde então, tenho servido como uma ponte entre ele e sua próxima encarnação. Sempre que passei tempo com o Segundo Serkong Rinpoche, não apenas contei a ele muitas histórias da vida de seu predecessor, como também transmiti tudo o que pude lembrar do que ele havia compartilhado informalmente comigo de seu vasto conhecimento e suas percepções. Incluí especialmente as interpretações únicas que ele havia compartilhado sobre certos pontos profundos do dharma, obtidas em suas meditações analíticas, para que nesta sua próxima vida ele pudesse continuar e avançar ainda mais em sua análise. Embora eu suspeitasse que o Primeiro Serkong Rinpoche tivesse me escolhido conscientemente e preparado para o papel de transmitir seus ensinamentos à sua próxima encarnação, Rato Khyongla Rinpoche, um amigo próximo do Primeiro Serkong Rinpoche, confirmou isso para mim alguns anos atrás, pouco antes de falecer.

Com a permissão de Sua Santidade, cheguei até mesmo a conceder ao jovem tulku o lung, a transmissão oral de uma linhagem especial que seu predecessor havia transmitido a Thurman e a mim do texto de Tsongkhapa sobre significados interpretáveis e definitivos, Drang-nges legs-bshad snying-po. Thurman havia trabalhado esse texto em sua tese de doutorado em Harvard e, quando o Primeiro Serkong Rinpoche e eu o visitamos em uma das turnês de Rinpoche pelo Ocidente, ele havia solicitado o lung. O pai do Primeiro Serkong Rinpoche, o grande iogue Serkong Dorjechang, havia recebido o lung diretamente de Tsongkhapa em uma visão pura, mas Rinpoche nunca o havia transmitido a Sua Santidade. Rinpoche me disse que estava esperando até alcançar a plena realização de algumas percepções especiais que havia obtido a partir do texto.

Esse texto tem 303 páginas em sua edição ocidental e Rinpoche costumava recitá-lo de memória em velocidade extremamente rápida como parte de sua prática diária. Ele chegou inclusive a conceder a Thurman e a mim o lung da maneira clássica, recitando a partir da memória. O Segundo Serkong Rinpoche, por sua vez, quis receber o lung de mim e eu concordei, mas primeiro precisei pedir permissão a Sua Santidade. Embora eu nunca tivesse tido a oportunidade de estudar o texto, Sua Santidade me disse que tê-lo ouvido do Primeiro Serkong Rinpoche era suficiente e me dava a qualificação necessária para poder transmiti-lo. Tive de praticar durante meses lendo-o em voz alta para que, quando concedesse o lung, pudesse fazê-lo de maneira adequada.

O Primeiro Serkong Rinpoche havia me dito que Em Louvor da Originação Dependente (In Praise of Dependent Arising), de Tsongkhapa, contém a essência de Drang-nges legs-bshad snying-po. Eu havia recebido ensinamentos sobre essa obra de Geshe Ngawang Dhargyey e a havia traduzido para o inglês. Embora eu não consiga recitar esse texto, muito mais curto, de memória, segui a tradição de Rinpoche de uma forma muito mais modesta e também o incluí entre os textos que leio rapidamente todos os dias como parte das minhas sessões de meditação. De fato, eu o incluo tanto na minha prática matinal quanto na vespertina.

A Vida de Serkong Rinpoche após Deixar a Vida Monástica

Em 2008, depois de concluir apenas parte do treinamento de Geshe no Mosteiro Ganden Jangtse, no sul da Índia, o Segundo Serkong Rinpoche decidiu deixar a vida monástica. Ele retornou a Dharamsala e, após um período de adaptação à sua nova vida, continuou seus estudos no Instituto de Dialética Budista, seguindo o conselho de Sua Santidade. Por não ser monge, ele não pôde estudar o Vinaya, o conjunto de regras disciplinares monásticas, que faz parte do currículo de Geshe. Portanto, não pôde receber o grau de Geshe. Como parte de sua formação, Sua Santidade o aconselhou a complementar a educação Gelugpa que vinha recebendo com o estudo da abordagem Nyingma ao Madhyamaka e à meditação sobre a vacuidade. O Primeiro Serkong Rinpoche era especialista nas quatro tradições do budismo tibetano, especialmente nas tradições Gelugpa e Nyingma, e o Segundo Serkong Rinpoche também se tornou bem versado nas abordagens Gelugpa e Nyingma da vacuidade.

Sua Santidade também aconselhou Rinpoche a melhorar seu inglês e o enviou ao Canadá por dois anos para estudar em uma faculdade. Essa experiência de ser tratado como um estudante qualquer e não ser venerado nem receber o tratamento especial de Rinpoche o ajudou a se relacionar com bastante facilidade com os estudantes ocidentais que agora participam de seus ensinamentos. Ele é muito acessível e, como o Primeiro Serkong Rinpoche, tem um grande senso de humor sem se colocar acima dos outros.

Como seu predecessor, ele assumiu a responsabilidade de ajudar o povo de Spiti, onde renasceu. Em 2009, fundou a Escola Serkong em Tabo, do jardim de infância até o décimo ano, e pessoalmente ensina o dharma aos jovens de Spiti que vão a Dharamsala para concluir o ensino médio. Tabo abriga o mais antigo mosteiro budista ainda existente na Índia, fundado há mais de mil anos. Rinpoche assumiu a responsabilidade de preservá-lo. Ele também mandou construir um novo mosteiro em Tabo e está encarregado de sua administração.

Em 2024, ele fundou a Academia Serkong em Dharamsala para o estudo de lógica, debate e filosofia budistas, destinada a leigos ocidentais, indianos e tibetanos. Ele também atua como interlocutor junto ao Governo Central da Índia em nome de Spiti e em projetos especiais, como o reconhecimento do tibetano como língua oficial da Índia. Como cidadão indiano e não como refugiado tibetano, ele é frequentemente solicitado a cuidar de trâmites oficiais com o governo indiano em nome do Escritório Privado de Sua Santidade.

Além de tudo isso, Rinpoche também ensina ocasionalmente em Spiti e Dharamsala, onde reside atualmente, e realizou várias turnês internacionais de ensinamentos. Ele se tornou um excelente professor, igualmente habilidoso em explicar temas tanto de nível iniciante quanto avançado. Desde que começou a dar ensinamentos, ele confiou à nossa equipe do Study Buddhism a tarefa de coletar e arquivar suas gravações. Temos trabalhado lentamente, transcrevendo e traduzindo quando necessário, editando e publicando esses registros em nosso site. Dessa forma, o Study Buddhism está se tornando o veículo para preservar e transmitir os ensinamentos da linhagem Serkong. Atualmente, Rinpoche atua como conselheiro espiritual do nosso projeto online.

Ensinando com Serkong Rinpoche na Áustria

Após ter transmitido do Primeiro ao Segundo Serkong Rinpoche o lung do texto de Tsongkhapa sobre significados definitivos e interpretáveis, bem como algumas características especiais do estilo de ensinamentos de seu predecessor, o Segundo Serkong Rinpoche me disse que me considera um de seus professores. Embora minha formação e compreensão do dharma não se comparem às dele, eu continue aprendendo muito com ele e o considere meu mestre, estudei diversos temas do dharma que ele ainda não teve a oportunidade de aprender. Por isso, no ano passado (2024), ele me pediu que me juntasse a ele na Áustria e o auxiliasse no ensino do capítulo sobre os doze elos da originação dependente, extraído do Prasannapada (Palavras Claras), de Chandrakirti. Eu não apenas conduzi as sessões noturnas de perguntas e respostas, como Rinpoche também me deu permissão para esclarecer pontos durante as palestras quando seu inglês ou a tradução do tibetano para o inglês não estavam claros. Quando ele mencionava um ponto avançado sem fornecer as informações de base necessárias para que pessoas não familiarizadas com o tema pudessem compreendê-lo, eu complementava a explicação. Durante a semana de ensinamentos, Rinpoche não se sentiu bem por vários dias. Ele me pediu que assumisse a sessão da tarde diariamente, na qual os alunos solicitavam um resumo da palestra da manhã e faziam mais perguntas. Tanto Rinpoche quanto os alunos ficaram muito satisfeitos com esse estilo de ensino compartilhado.

Decidimos que seria benéfico continuar dessa forma e concordamos em fazê-lo, sempre que possível, quando ele estiver ensinando algum tema avançado. Sou imensamente grato por essa oportunidade inesperada de poder ajudar a tornar a sabedoria de Serkong Rinpoche acessível ao mundo em duas de suas vidas. Espero poder continuar ajudando-o a ajudar os outros por muitos anos.

 Considerações Finais

Escrever esta autobiografia levou vários meses, durante os quais tive a oportunidade, depois de muitos anos, de refletir sobre os acontecimentos da minha vida. Normalmente, não penso no meu passado. É uma perspectiva interessante fazê-lo agora, aos oitenta anos de idade, quando as questões importantes são o legado que deixarei e como desejo que as pessoas se lembrem de mim. Permitam-me compartilhar alguns de meus pensamentos.

Por natureza, sou uma pessoa muito reservada. Por exemplo, nunca quis ter qualquer presença pessoal nas redes sociais. Quando concordei em escrever sobre minha vida, mostrei um primeiro rascunho a Catherine e ela fez uma crítica muito útil. Ela me disse que eu precisava considerar minha relação com os leitores. Eu deveria reescrever o texto como se fosse uma carta a um amigo que conheci há pouco tempo e não como se fosse um artigo em um livro de história. Deixe que as pessoas conheçam você como pessoa, ela aconselhou, alguém que enfrentou dificuldades e recorreu ao budismo para superá-las. Deixe que descubram as paixões que o moveram, os professores e amigos que o apoiaram e ajudaram ao longo do caminho. Vá além da sua zona de conforto e abra-se para seus alunos e leitores.

No início, resisti. Tradicionalmente, os professores budistas não fazem isso. Há um ditado tibetano que diz que o melhor professor é aquele que vive do outro lado das montanhas. Deve haver uma aura de mistério em torno da pessoa. As biografias tradicionais tibetanas de mestres budistas são chamadas namthar (rnam-thar), o que significa “relato libertador”. Elas são escritas para inspirar o leitor a se esforçar pela libertação, seguindo o caminho budista da mesma forma que o sujeito do namthar o fez. Elas listam tudo o que a pessoa estudou e ensinou, mas apresentam muito pouco sobre sua vida pessoal ou personalidade.

Agora que já houve uma primeira geração de professores budistas ocidentais e as pessoas têm interesse em conhecer suas vidas, surge a questão se o estilo tradicional de namthar é adequado para essa tarefa. Será que outra abordagem não seria mais apropriada e benéfica para um público ocidental? Decidi que Catherine estava certa, revisei e ampliei o texto.

Ao fazer isso, a principal pergunta para mim foi: qual é o propósito de compartilhar minha história de vida com os outros? Derek Kolleeny, o professor sênior de budismo tibetano que me pediu que a escrevesse, achou que ela poderia ser útil para aspirantes ocidentais a tradutores e professores budistas aprenderem sobre o árduo trabalho que minha geração dedicou à sua formação. Ele sentiu que isso os inspiraria a se esforçar também. Tudo bem, mas o público potencial do site studybuddhism.com é muito mais amplo do que isso. Portanto, refleti para entender qual benefício o público em geral poderia obter ao ler minha autobiografia.

Oferecer ao público apenas uma história interessante para entretenimento não é uma razão muito profunda para escrever este texto. Escrevê-lo para que as pessoas me conheçam e me apreciem como pessoa parece bastante narcisista e não é meu objetivo. Tampouco é meu propósito me exibir e impressionar os outros para que fiquem admirados por tudo que fiz. Quando pedi ao meu sobrinho Gary que lesse o manuscrito revisado, após terminar ele me disse: “Você é um unicórnio. Sua vida é fora do comum, ninguém jamais poderia viver algo igual.” Eu acrescentaria, como disse minha irmã Charlotte, que não é uma vida com a qual outros consigam se identificar. Então, por que dediquei tanto tempo a escrever isto?

Não estou nem perto do nível dos personagens dos namthars tibetanos, mas assim como em um namthar, espero que os leitores se beneficiem com este texto. Acredito que a principal lição é que, com uma boa motivação, trabalho árduo e condições favoráveis, é possível transformar e melhorar a própria personalidade se ela apresentar características que consideramos problemáticas e causadoras de infelicidade. Nossas personalidades são uma combinação de uma ampla gama de fatores mentais. Elas incluem fatores perturbadores, como a raiva; positivos, como a compaixão; e neutros, como a concentração. Cada um deles abrange um espectro de intensidade, que vai de mais fraca a mais forte, com a qual podem se manifestar.  Ainda que cada um deles tenha o potencial de se manifestar de maneira diferente ao nascer, dependendo de nosso comportamento em vidas passadas e das circunstâncias desta vida que os fazem surgir, essa intensidade pode ser modificada ao longo de nossa vida.

Por exemplo, durante a infância e os anos universitários, minha arrogância, egoísmo e turbulência emocional eram fortes, enquanto minha empatia, compaixão e tranquilidade mental eram fracas. Ao longo da minha vida, inverti essa forma de funcionar. Embora às vezes eu ainda seja arrogante, egoísta e emocionalmente perturbado, esses episódios tornaram-se gradualmente mais curtos, menos frequentes e menos intensos. Por outro lado, os episódios de empatia e compaixão passaram a se estender por mais tempo, a ocorrer com mais frequência e com maior força, e eu me tornei muito mais calmo, com maior paz de espírito. Tudo isso se deve à bondade de meus professores ao me treinarem e a todo o estudo, meditação e trabalho que realizei.

Além disso, de acordo com os ensinamentos budistas sobre o carma, um dos resultados de nossas ações cármicas passadas é o resultado que corresponde à sua causa em nossa experiência e em nosso comportamento. Trata-se de situações que nos oferecem a oportunidade de repetir um tipo instintivo de comportamento construtivo ou destrutivo que já temos. Precisamos usar a consciência discriminativa para decidir se devemos ou não aproveitar a oportunidade e repetir algo semelhante ao que fizemos antes. Assim, quando surge uma oportunidade única de fazer algo que você é capaz de realizar e, após uma análise lógica, conclui que será benéfico tanto para você quanto para os outros, é preciso arriscar a aproveitar. Tudo na vida envolve risco. Com muito esforço e uma boa motivação, você terá uma chance maior de alcançar o sucesso.

Por exemplo, em minha vida, duas situações surgiram mais ou menos ao mesmo tempo. Uma foi a oportunidade de estudar com mestres budistas tibetanos em Dharamsala e traduzir textos para Sua Santidade o Dalai Lama. A outra foi iniciar o caminho para me tornar professor na Universidade Cornell. Eu tinha os instintos e as propensões para fazer ambas as coisas. Os ensinamentos do carma explicariam que encontrar essas situações e ter esses instintos foi o resultado de, em vidas passadas, ter sido um professor e tradutor budista. Acreditemos ou não em vidas passadas, essa é a explicação budista.

Eu poderia ter escolhido seguir qualquer um desses caminhos ou até fazer outra coisa. Contudo, para mim, a escolha era óbvia. Os instintos que me atraíam para a Índia, para os tibetanos e para o Dalai Lama eram mais fortes do que aqueles que me levavam a uma carreira universitária de docência ou a qualquer outra coisa. Embora retornar à Índia envolvesse riscos, fui e aproveitei plenamente as oportunidades que lá surgiram. O mesmo aconteceu quando escolhi estudar chinês em Princeton, ensinar nos países comunistas e retornar ao ocidente para viver em Berlim. O ponto central é que, assim como os ensinamentos graduais do lam-rim nos instruem a aproveitar o fato de termos obtido um precioso renascimento humano, precisamos aplicar essa orientação às oportunidades valiosas que surgem na vida.

Após ter lido sobre a minha vida, quaisquer que sejam as circunstâncias da sua vida, faço votos de que você aproveite as oportunidades que surgirem para promover o seu crescimento, trabalhar para se tornar uma pessoa mais gentil e ser benéfico para os outros.

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