Dr. Alexander Berzin: Minha Infância e Educação na Universidade Rutgers

Meus Pais e Irmãos

Nasci em 10 de dezembro de 1944, em Paterson, Nova Jersey, em uma família judia secular de classe trabalhadora. Como aprendi mais tarde, ao estudar o calendário tibetano, essa era a data de Ganden Ngamchö, o aniversário do falecimento de Tsongkhapa.

Meu pai, Isadore Berzin, veio de uma família imigrante que havia chegado à América vinda do que hoje é a Letônia, então parte do Império Russo. Quando tinha treze anos, ele quase perdeu completamente a audição devido a uma doença grave. Incapaz de ouvir nas aulas, precisou abandonar a escola. Seu pai, diabético, muitas vezes estava doente demais para trabalhar e na casa da família moravam, sob os cuidados da mãe dele, cinco irmãos e irmãs mais novos, além de três primos. Como filho mais velho, meu pai começou a trabalhar apesar de sua deficiência, assumindo responsabilidades e ajudando a sustentar todos. Seu compromisso com o cuidado da família, especialmente de sua mãe, quando mais velha, e de sua esposa, minha mãe, continuou ao longo de toda a sua vida. Talvez devido a seu exemplo, eu também me comprometi a cuidar das necessidades da minha mãe, não de maneira material, mas telefonando para ela toda semana enquanto estava na universidade e escrevendo-lhe semanalmente enquanto estava na Índia.

Quando adulto, meu pai trabalhou com um de seus irmãos no negócio de sucata, uma versão inicial da reciclagem. Cada um tinha um caminhão e ia às fábricas, pegava o metal de sucata em tambores pesados e o vendia ao ferro-velho que pertencia àqueles primos para quem meu pai havia ajudado a prover sustento na juventude. Os primos ficaram muito mais ricos do que ele, o que deve não ter sido fácil. No ensino médio, muitos dos pais dos meus amigos eram médicos ou advogados. Eu tinha vergonha de dizer a eles que meu pai era sucateiro, como a profissão dele era chamada naqueles dias. Só mais tarde na vida passei a valorizar o trabalho árduo que ele fazia e a vida difícil que foi obrigado a levar por causa de sua deficiência.

Minha mãe, Rose Berzin, também veio de uma família imigrante que vivera sob o Império Russo, no caso dela, da Polônia. Como sua família também tinha poucos recursos, ela precisou abrir mão da educação secundária e começou a trabalhar aos quatorze anos. Seus pais, dois irmãos e uma irmã eram grandes admiradores da cultura iídiche, especialmente do teatro e da música, e eram social e politicamente ativos. Embora fossem pobres, costumavam convidar imigrantes recém-chegados para jantar em sua casa nas noites de sexta-feira, e seus irmãos e irmã recitavam poemas para entretê-los.

Minha mãe era diferente do restante da família. Ela era quieta e tímida. Não compartilhava dos interesses ou das atividades de seus irmãos e jamais pensaria em competir com eles. Não era emotiva, mas, à sua maneira silenciosa, era muito gentil, especialmente com aqueles menos afortunados do que ela. Embora não tivesse formação acadêmica, possuía um enorme senso prático. Quando adulta, trabalhou como contadora em um pequeno escritório. Tanto no trabalho quanto em casa, por ser muito prática e eficiente, ela cuidava imediatamente de tudo o que precisava ser feito, de forma direta, sem nunca procrastinar. Ela me ensinou a fazer o mesmo. Por exemplo, eu respondo aos e-mails assim que os recebo e resolvo as tarefas assim que surgem. Como ela, evito competir com os outros e procuro evitar qualquer tipo de conflito. Também como ela, não sou muito emotivo.

Tenho uma irmã, Charlotte, sete anos mais velha do que eu. Quando crianças, raramente brincávamos juntos e ela se casou quando eu tinha onze anos, passando a se chamar Charlotte Goodnough. Ela teve dois filhos, Glen e Gary, antes dos vinte e um anos, e depois trabalhou em um escritório de ensino médio. É muito sociável, extrovertida e empática, consegue conversar com qualquer pessoa com facilidade, sente suas emoções intensamente e as expressa livremente — bem diferente de mim, especialmente quando criança. Embora muito inteligente, ela nunca chegou a cursar a universidade, mas seus dois filhos cursaram. Glen tornou-se juiz e Gary, professor universitário de aconselhamento. Para mim, eles são como irmãos mais novos, mais do que sobrinhos. Embora eu não mantivesse muito contato com minha irmã ou meus sobrinhos enquanto vivia na Índia, desde que voltei ao ocidente, em 1998, telefono para cada um deles toda semana.

Meus pais também tiveram outro filho, Joel, que morreu subitamente aos dois anos de idade, antes de eu nascer. Aparentemente, ele engasgou com um pedaço de comida. Tossindo muito, foi levado ao hospital em meio a uma nevasca, no meio da noite e acabou sufocando antes que um médico pudesse chegar. Ninguém na família jamais falou sobre ele.

Nasci um ano depois e era exatamente como Joel. À medida que crescia, senti que eu havia nascido para substituí-lo. Meu raciocínio era que, se ele não tivesse morrido, eu nunca teria nascido. Portanto, eu era responsável por sua morte. Embora eu quase nunca pensasse nisso enquanto crescia, essa culpa do sobrevivente desempenhou um papel mais tarde no meu desenvolvimento espiritual. Ela me deu material para reflexão ao tentar compreender os ensinamentos budistas sobre karma e renascimento.

Minha Infância

Desde a primeira infância, sofro de asma grave. Por causa disso, fui hospitalizado com frequência nos meus primeiros anos de vida. Minha lembrança mais antiga é estar em um berço no hospital e ver, pela janela, um desfile passando na rua. Lembro-me de chorar porque não podia sair para ver, mas ninguém respondeu ao meu choro. Mesmo em casa, meu pai não conseguia me ouvir chorar quando ficava sozinho comigo. Ele só comprou seu primeiro aparelho auditivo depois que os vizinhos contaram à minha mãe o quanto se sentiam frustrados de ouvir meus choros quando ela saía. Contudo, o fato de minhas necessidades emocionais não terem sido atendidas quando bebê me ensinou a ser autossuficiente e a não depender de ninguém para satisfazer essa necessidade em um relacionamento pessoal. Por mais doloroso que tenha sido, trouxe o benefício de fazer com que eu buscasse no Dharma a satisfação dessa carência.

Por lembrar meu irmão falecido, especialmente quando eu tinha crises de asma, minha mãe era muito protetora comigo, mas eu sempre resistia a ser tratado como um bebê e queria fazer tudo sozinho. Essa vontade de ser independente me acompanhou por toda a vida. Eu não queria restrições na realização e no uso de todo o meu potencial. Minha mãe era muito gentil e fez questão de me dar liberdade para crescer. Lia para mim com frequência quando eu era pequeno e, assim que aprendi a ler, ela me inscreveu em um clube infantil chamado Livro do Mês. Esse programa me enviava um clássico da literatura infantil a cada mês. Mais tarde, devido ao meu interesse, ela me inscreveu em um programa semelhante, só que de livros de ficção científica. Quando fiquei um pouco mais velho, ela pediu ao meu pai que me comprasse uma enciclopédia ilustrada chamada Os Livros do Conhecimento, que eu simplesmente adorava.        

Quando criança, nunca pratiquei esportes e não tinha interesse algum em assistir a jogos ou mesmo em andar no triciclo que meu pai me comprou. Nunca quis aprender a andar de bicicleta nem a dirigir e, de fato, nunca aprendi. Meu pai tentou me levar em seu caminhão e também a um jogo de beisebol, mas eu fiquei completamente entediado.

Desde muito jovem, minha paixão era estudar e aprender sobre tudo. Eu adorava a escola, adorava fazer lição de casa e até gostava de fazer provas. Sempre tive motivação própria, era muito disciplinado e naturalmente concentrado. Não precisava de incentivo nem de ajuda dos meus pais. Durante toda a minha educação, tudo me parecia fácil e natural e eu sempre recebia notas muito altas em todas as matérias acadêmicas. Fui promovido duas vezes para turmas mais avançadas e, por isso, era mais novo que a maioria dos colegas. Meu apelido na escola primária era “Professor”.

Todos os meus tios e tias e todos os primos dos meus pais moravam a poucos quilômetros uns dos outros. Eram pessoas muito gentis, ninguém bebia ou fumava. Todos se davam bem e nos visitávamos com frequência. Embora eu tivesse muitos primos, apenas alguns tinham a minha idade. Brincávamos quando nossos pais se encontravam, mas eu nunca gostei muito de brincar.

Não fui feliz nesses anos. Eu era uma criança gordinha, metida e, para ser sincero, insuportável, vivia corrigindo os professores e achava que sabia demais. Tinha poucos amigos e ocasionalmente sofria bullying na escola. O treinamento budista envolve tanto o método quanto a sabedoria, o coração e a mente. Eu não tinha grandes dificuldades em desenvolver a mente. Para mim, muito mais difícil seria desenvolver o coração. Eu teria que trabalhar bastante para melhorar minha personalidade e minhas habilidades sociais.

Começando a Aprender Línguas Estrangeiras

Os meus avôs faleceram antes de eu nascer, mas as minhas avós ainda estavam vivas durante a minha infância e falavam apenas ídiche. Por causa disso, quando eu tinha oito anos, meus pais me enviaram para uma escola ídiche, para que eu aprendesse um pouco da língua e da cultura. Fiquei feliz em ir e desenvolvi um amor por línguas estrangeiras e por alfabetos não latinos. Além disso, dois dos meus primos maternos participavam de um grupo de teatro adolescente que encenava, em inglês, algumas das obras do grande dramaturgo ídiche Shalom Aleichem. Quando fiquei mais velho, juntei-me a eles. Mesmo adolescente, eu nunca ficava nervoso ao falar diante de uma plateia.

Quando tinha onze anos, também frequentei a escola hebraica para me preparar para o bar mitzvah e para agradar ao meu pai. Embora a maioria dos meninos começasse mais cedo, minha mãe disse ao professor, o rabino Reuben Kaufman, que não se preocupasse com o fato de eu estar começando tarde. Garantiu-lhe que eu não teria problema em acompanhar a turma, já que eu já conhecia o alfabeto hebraico. Ele foi muito gentil em me aceitar e, todos os dias depois da escola, eu caminhava até o templo para suas aulas. Líamos um livro infantil sobre a história dos judeus e as festas judaicas. Eu gostaria de ter aprendido sobre as crenças religiosas judaicas, mas o rabino Kaufman nunca falava sobre elas. Quanto ao estudo do hebraico, apenas líamos o Gênesis, memorizando o equivalente em inglês de cada palavra. Durante a aula, o rabino nos chamava um por um à sua mesa e cada um recitava os trechos do dia. Infelizmente, ele nunca nos ensinou a gramática, algo que eu ansiava aprender. Tive que descobrir o máximo que pude por conta própria.

Aprendemos a entoar os rituais em hebraico, mas nunca o significado deles. No meu bar mitzvah, conduzi e entoei todo o serviço da manhã, não por devoção religiosa, mas principalmente para mostrar do que eu era capaz. O rabino Kaufman apenas se sentou de lado, cheio de esperança de que eu seguiria seus passos. No entanto, depois de deixar meu pai orgulhoso, especialmente diante de seus primos ricos, nunca mais voltei. Embora eu tenha gostado das entoações até certo ponto, achei a experiência insatisfatória. Sem o significado, era um ritual vazio, e eu buscava algo mais profundo. Mais tarde, quando entrei em contato com os rituais do budismo tibetano, inicialmente pensei o mesmo. Felizmente, tive maturidade e paciência para não rejeitá-los de imediato, mas esperar até poder compreender seu significado.

Por volta dos doze anos, talvez inspirado por "Os Livros do Conhecimento", desenvolvi o desejo de adquirir conhecimento sobre o pensamento espiritual e as realizações literárias de todas as civilizações, ao longo de toda a história, e de ser capaz de integrar tudo isso, tendo consciência de tudo ao mesmo tempo. Com esse objetivo ambicioso em mente, comecei a ler ainda mais do que antes, concentrando-me nos clássicos da literatura ocidental. Lia rapidamente e, quando os livros não eram muito longos, devorava um por dia. Minha mãe começou a se preocupar um pouco. Para me afastar dos livros, meus pais me mandaram primeiro para acampamentos diurnos e depois para acampamentos de verão com pernoite, onde eu precisava ser fisicamente ativo e socializar com pessoas da minha idade. Era algo de que eu realmente precisava

O colégio em que estudei tinha as chamadas turmas “alfa”, para os alunos mais avançados. Eu estava em todas elas e foi ali que conheci outros colegas que também aprendiam rapidamente. Nessa época, eu já havia desenvolvido um bom senso de humor, o que facilitou fazer amizade com alguns deles. Entrei para o clube de teatro, atuei em algumas peças e até tive uma namorada no último ano. Mas meu principal interesse continuava sendo aprender o máximo possível.

Enquanto estava no colégio, estudei latim e alemão, línguas que eu adorava. Na época, acreditava-se que era preciso saber latim para entrar na universidade e alemão para estudar ciências. Nossos livros de alemão ainda eram impressos em caracteres góticos antigos. Meu amor por alfabetos não latinos começava a crescer.

O Despertar do Interesse pelo Budismo

Embora ninguém na minha família compartilhasse meus interesses, desde a adolescência eu me sentia naturalmente atraído pela cultura asiática. Na era dos beatniks, eu me interessava por questões espirituais e lia o que havia disponível na época, os livros de Alan Watts e D. T. Suzuki e, é claro, Sidarta e outras obras de Hermann Hesse. Eu me sentia profundamente intrigado e comecei a praticar hatha yoga simples com alguns amigos quando tinha treze anos.

Embora não houvesse problemas em nossa grande família, nessa idade desenvolvi uma aversão à ideia de casar, ter filhos, comprar uma casa e um carro e trabalhar a vida toda em um emprego sem propósito só para pagar hipotecas e empréstimos. Para mim, levar uma vida chamada de “normal” era uma armadilha, um obstáculo que me impediria de realizar plenamente meu potencial. Talvez eu tenha sido influenciado pelos livros de Hesse, especialmente Demian e Narciso e Goldmund, mas mantive esse sentimento por toda a vida.

Meu pai sofreu um derrame incapacitante quando eu tinha quatorze anos, o que o deixou meio paralisado e incapaz de falar ou reconhecer as pessoas. Ele chorava e gritava a maior parte do tempo. Embora os médicos nos assegurassem que ele não tinha consciência de sua condição, eu não tinha certeza disso. Evitava pensar nele. Depois que minha mãe tentou cuidar dele em casa, o que ela não conseguiu fazer, ele teve que ser internado em uma instituição estadual para doentes incuráveis. Estava agitado e barulhento demais para ser mantido em outro lugar.

Na primeira vez que o visitei, com minha mãe, um funcionário empurrou uma maca com um cadáver para dentro do elevador em que estávamos. Ao sairmos do elevador e entrarmos na ala onde meu pai ficava, encontrei uma sala cheia de pacientes, sendo que a maioria deles, como ele, choravam e gritavam. Meu pai não me reconheceu e minha reação foi de me fechar emocionalmente. Vendo o efeito traumatizante que aquele sofrimento teve sobre mim, minha mãe nunca mais me levou para visitá-lo.

Como minha mãe teve então que sair para trabalhar em tempo integral, precisei amadurecer muito rápido e assumir mais responsabilidades. Felizmente fui acolhido pela família do meu melhor amigo, Jonathan Landaw, e eu passava muito tempo na casa deles. O pai de Jon, um médico muito gentil, demonstrou especial interesse por mim e costumava envolver-me em discussões intelectuais animadas. Como eu nunca tivera esse tipo de relação com meu próprio pai, nem mesmo antes de ele adoecer, eu adorava passar tempo com ele.

Logo, Jon e eu éramos como irmãos. Lembro-me de uma vez, enquanto trabalhávamos juntos num projeto do colégio, sentir subitamente que teríamos um papel em algo historicamente significativo. Claro que eu não fazia ideia de que, no futuro, tanto Jon quanto eu nos tornaríamos professores de budismo e ajudaríamos a levar o budismo tibetano ao mundo não tibetano.

Educação em Rutgers

O fim da década de 1950 também foi a era do Sputnik nos Estados Unidos e no colégio éramos todos incentivados a estudar ciências. Eu me interessava em entender como os russos haviam avançado tanto quando comparados à América e, aos quinze anos, decidi fazer uma pesquisa sobre o assunto na biblioteca local. O resultado foi um trabalho de cinquenta páginas sobre o sistema educacional da União Soviética, que era muito mais intenso do que o que eu experimentava nos Estados Unidos. Mal sabia eu que, no futuro, passaria muito tempo na URSS, realizando projetos lá para Sua Santidade o Dalai Lama.

Depois de me formar no colégio, aos dezesseis anos, fui para a Universidade Rutgers, em New Brunswick, Nova Jersey, para estudar química, o que fiz por dois anos. O estudo da química foi um excelente treino para aprimorar minhas habilidades analíticas: eu adorava encontrar soluções para problemas complexos de matemática, química e física. Mais tarde, essa paixão se transferiu para a análise de textos e para a meditação analítica sobre os temas complexos dos ensinamentos budistas. Nunca me senti atraído pela meditação de concentração. Eu achava que já tinha concentração suficiente, especialmente nos estudos, e queria desenvolver outras habilidades.

Rutgers exigia que todos os alunos tivessem uma formação equilibrada. Os estudantes de ciências precisavam ser aprovados num exame de Humanidades, e os de Humanidades, num exame de ciências. Achei isso uma política excelente e, além das disciplinas científicas, escolhi algumas optativas em áreas humanas, como História da Arte. Eu valorizava muito o equilíbrio que isso trazia ao meu curso.

Na época, Rutgers era uma universidade exclusivamente masculina, mas podíamos cursar matérias optativas no Douglass College, a faculdade feminina parceira, localizada do outro lado da cidade. Aproveitando essa oportunidade, no meu segundo ano escolhi uma disciplina chamada “Tradição e Transição na Ásia.” Uma das aulas tratava de como o budismo se espalhou pela Ásia e foi se adaptando às culturas que encontrava. Ouvir isso mudou minha vida. Eu tinha apenas dezessete anos, mas depois daquela aula, soube exatamente o que queria fazer da minha vida: aprender como os mestres budistas haviam transmitido e adaptado os ensinamentos a outras culturas, e fazer o mesmo. Queria me tornar uma ponte entre culturas e jamais abandonei esse propósito ao longo da minha vida. Essa meta se encaixava perfeitamente na aspiração da minha infância de conhecer e integrar o conhecimento de todas as civilizações.

O professor Ardath Burks, um dos três que ministravam o curso em Douglass, contou-nos sobre o Programa Cooperativo de Graduação em Línguas Críticas, que começaria no ano seguinte na Universidade Princeton, localizada não muito longe de Rutgers. Princeton possuía todos os recursos para o estudo de línguas do Oriente Médio e da Ásia, mas tinha pouquíssimos alunos interessados nelas. Percebendo que não queria passar o resto da vida em um laboratório de química, entusiasmado com essa oportunidade de ouro de ir para Princeton e seguir o caminho de ser uma ponte entre culturas, candidatei-me para estudar chinês e fui um dos seis aceitos no programa. Assim como Rutgers, Princeton também era uma universidade masculina na época. Entre os seis escolhidos havia uma mulher, que se tornaria a primeira aluna da história da instituição.

Meu pai faleceu pouco depois de eu saber sobre o programa de Princeton. Eu não o visitava desde aquela primeira e traumatizante ida à instituição estatal. Desde então, evitava até pensar se o choro e os gritos dele significavam que tinha consciência de sua situação. Mesmo em seu funeral, senti muito pouco. Ao saber que o budismo falava amplamente sobre a verdade do sofrimento, eu estava preparado para ir mais fundo e aprender mais. O programa de Princeton era totalmente financiado pela Fundação Carnegie, de modo que não havia obstáculo financeiro para participar. Na verdade, por causa das minhas notas altas e da origem familiar modesta, recebi bolsas integrais e generosas bolsas de pesquisa durante toda a minha formação universitária, do bacharelado ao doutorado. Minha educação não me custou um centavo e concluí os estudos sem nenhuma dívida estudantil. Embora o endividamento estudantil, geralmente muito alto, seja algo comum hoje nos EUA, naquela época era bem menos frequente e de valores mais baixos.

Enquanto estudava em Rutgers, eu tinha uma namorada, Bernice Berzof. Quando contei que iria para Princeton, a apenas uma curta viagem de ônibus de New Brunswick, ela sugeriu que ficássemos noivos e nos casássemos em dois anos, depois da formatura. Minha aversão à ideia de me prender a um casamento me fez terminar o relacionamento quando me mudei. Ainda assim, seguimos em contato, mesmo depois que ela se casou e se tornou uma advogada tributarista de sucesso na Filadélfia, sob o nome de casada Bernice Koplin.

Top