O que é Sensibilidade?
Certas pessoas parecem naturalmente mais sensíveis do que outras. Às vezes, isso é uma qualidade admirável. Parceiros são sensíveis ao estado de espírito um do outro e não fazem exigências quando o outro teve um dia difícil. Graças a esse tipo de sensibilidade, nossos relacionamentos são mais saudáveis e nossas vidas, mais felizes. Chamemos essa capacidade de “sensibilidade equilibrada”. Em outros casos, ser sensível é uma limitação. Pessoas inseguras são sensíveis a ponto de se sentirem magoadas com o menor comentário. Essa síndrome é conhecida como hipersensibilidade. No outro extremo do espectro está a insensibilidade. Pessoas egocêntricas são insensíveis ao efeito de suas palavras sobre os outros e dizem tudo o que lhes vem à cabeça.
Assim, a sensibilidade é uma variável que abrange um amplo espectro. Ela vai da insensibilidade à hipersensibilidade, tendo a sensibilidade equilibrada em algum ponto intermediário. Contudo, o grau e a qualidade da nossa sensibilidade não são constantes matemáticas que permanecem fixas ao longo da vida. Podemos modificá-los por meio da educação e do treinamento se assim desejarmos. Para isso, precisamos examinar atentamente o que significa sensibilidade para podermos diferenciar os fatores que a tornam uma vantagem ou uma desvantagem. Podemos então explorar diversos métodos para desenvolver ou fortalecer a sensibilidade positiva e reduzir ou eliminar os tipos de sensibilidade negativa.
A sensibilidade possui formas físicas e mentais. A sensibilidade física depende do aparato sensorial do corpo ou do sistema imunológico. Um cirurgião, por exemplo, tem dedos sensíveis e uma pessoa com alergias é sensível à poeira. Aqui trataremos exclusivamente da forma de sensibilidade que é uma qualidade da mente e do coração. Essa sensibilidade pode ser em relação ao ambiente, aos negócios, à política, à vida selvagem, a outras pessoas ou a nós mesmos. Aqui investigaremos os dois últimos tipos.
A sensibilidade é função de duas variáveis, a atenção e a resposta, sendo que cada uma delas ou as duas podem ser fracas, desproporcionais ou equilibradas. Com a atenção, percebemos a condição de alguém, as consequências do nosso comportamento em relação a essa pessoa, ou as duas coisas. A resposta permite uma reação espontânea ou ponderada ao que percebemos. Não reagimos apenas física ou quimicamente ao que acontece ao nosso redor ou conosco, como o papel tornassol reage ao ácido. Respondemos com uma emoção, um pensamento, palavras, ações ou uma combinação desses quatro elementos.
Outra dimensão da sensibilidade equilibrada é encontrar um equilíbrio entre ser sensível ao que os outros precisam, pedem ou exigem de nós e ser sensível às nossas próprias necessidades. Se constantemente atendemos aos outros sem estabelecer limites, podemos esgotar nossos recursos físicos e emocionais. Esse tipo de padrão, especialmente quando acompanhado de baixa autoestima ou complexo de mártir, é prejudicial para todos os envolvidos. Da mesma forma, se considerarmos apenas nosso próprio ponto de vista nas relações interpessoais, nossa atitude narcisista pode nos afastar dos outros.
Ninguém é totalmente insensível ou hipersensível; ninguém atende exclusivamente a si mesmo ou aos outros. Nosso comportamento varia conforme a situação, as pessoas e nosso humor. Além disso, a sensibilidade desequilibrada frequentemente abrange os dois polos do problema. Uma reação excessivamente emocional a alguém muitas vezes é insensível ao efeito que tal comportamento pode ter sobre essa pessoa. Uma falta impassível de atenção ou de reação pode mascarar um medo hipersensível de inadequação ou rejeição. Quando somos hipersensíveis às necessidades dos outros, podemos facilmente perder de vista o que nós mesmos precisamos. Quando damos atenção excessiva aos nossos sentimentos ou desejos, podemos ser insensíveis ao que os outros sentem ou preferem. Desenvolver sensibilidade equilibrada requer uma abordagem multidirecional.
Exercício 1: Identificando Desequilíbrios de Sensibilidade
O mestre budista indiano do século VIII, Shantideva, explicou que sem ver claramente um alvo não é possível acertar o centro com uma flecha. Da mesma forma, sem reconhecer os tipos específicos de sensibilidade desequilibrada de que sofremos, não poderemos tratá-los de modo eficaz. Portanto, o primeiro passo do nosso programa é considerar várias formas de hipersensibilidade e insensibilidade e verificar se alguma vez as experimentamos. Como os dois tipos de sensibilidade são problemas multifacetados, examinaremos suas diferentes manifestações concentrando-nos em duas variáveis principais: atenção e reação. Embora a análise não seja exaustiva, inclui as formas mais comuns de desequilíbrio da sensibilidade.
O processo introspectivo que propomos aqui não tem como objetivo fazer julgamentos sobre nós mesmos. Não há estigma moral a quem demonstra menor sensibilidade em determinadas áreas. O objetivo do primeiro exercício é simplesmente examinar nossa personalidade, da mesma forma que analisamos nossas preferências de consumo. A presença mental em relação aos nossos hábitos e tendências nos proporciona uma ideia mais clara dos aspectos de nosso modo de ser que precisam ser trabalhados.
Em um workshop, o facilitador pode escolher um exemplo de cada categoria dos esquemas apresentados. Ao praticar em casa, podemos fazer o mesmo, escolhendo apenas exemplos relevantes a nível pessoal. Para uma prática avançada ou mais aprofundada, podemos considerar todos os exemplos citados.
Formas de Hipersensibilidade
O primeiro esquema apresenta quatro conjuntos de formas alternativas de comportamento em relação aos outros ou a nós mesmos. As alternativas são uma maneira equilibrada de agir ou uma maneira hipersensível. Após cada duas alternativas, devemos refletir sobre qual dos exemplos é mais típico em nós. Se nenhum deles se aplicar ao nosso padrão de comportamento, podemos buscar exemplos que têm mais a ver com nossa vida pessoal.
- Podemos prestar atenção a uma situação de maneira equilibrada ou intensa demais. Em relação aos outros, podemos perguntar ao nosso filho doente como ele está se sentindo ou insistir com essa pergunta a cada cinco minutos. Em relação a nós mesmos, podemos cuidar da saúde ou ser hipocondríacos.
- Podemos prestar atenção às consequências de nossas ações de uma forma equilibrada ou ansiosa. Em relação aos outros, podemos considerar a opinião deles ao tomar uma decisão ou ficar com tanto medo da rejeição que isso nos impeça de fazer o que é melhor. Em relação a nós mesmos, podemos nos esforçar para ir bem na escola ou nos preocupar obsessivamente com o fracasso.
- Respondemos ao que percebemos de duas maneiras: com serenidade ou de modo excessivamente emocional. Em relação aos outros, se notamos alguém tentando nos ultrapassar na estrada, podemos simplesmente mudar de faixa ou ficar irritados e xingar mentalmente. Em relação a nós mesmos, podemos procurar calmamente as chaves que perdemos ou entrar em pânico.
- Além disso, uma resposta emocional não precisa ser exagerada. Pode ser equilibrada ou perturbada. Em relação aos outros, podemos perceber que nosso parceiro está chateado e responder com ternura e compaixão ou podemos nos chatear também. Ao focar em nós mesmos quando sofremos uma perda, podemos sentir tristeza mantendo nossa dignidade ou nos afundar na autopiedade e na depressão.
Alternativas Equilibradas e Hipersensíveis
Manifestações de Insensibilidade
O segundo esquema apresenta cinco manifestações comuns de insensibilidade, cada uma podendo referir-se aos outros ou a nós mesmos. Dando continuidade à nossa introspecção, devemos procurar em nós traços dos exemplos mencionados ou de outras manifestações semelhantes.
- Podemos não perceber ou não prestar atenção a uma situação. Em relação aos outros, podemos não notar que um parente está chateado. Em relação a nós mesmos, podemos não perceber que nosso relacionamento não é saudável.
- Da mesma forma, podemos não perceber as consequências de nossas ações. Podemos não notar que ferimos os sentimentos de alguém ou que o excesso de trabalho está nos causando estresse. Nesses casos, a falta de atenção pode ir além de não percebermos algo. Podemos até mesmo negar que a coisa ou a situação existe.
- Mesmo percebendo a situação ou as consequências, podemos não agir. Podemos ver uma pessoa ferida deitada sozinha na rua e não parar para ajudar. Ou perceber que estamos cansados fazendo um trabalho que pode esperar, mas continuar mesmo assim.
- Mesmo quando percebemos e reagimos a uma situação nossa ou alheia, podemos fazer isso sem sentir nada. Podemos cuidar bem de uma pessoa doente, mas sem ter nenhum tipo de sentimento — como um profissional frio e mecânico. Ou seguir um tratamento quando estamos doentes, mas nos distanciar emocionalmente de nosso corpo e da doença. Não sentir nada é diferente de imparcialidade e serenidade; serenidade é equilíbrio, não ausência de sentimentos.
- Podemos ainda perceber a nossa situação ou a situação das outras pessoas, podemos agir e sentir algo enquanto agimos, mas decidir de maneira insensível devido a um discernimento desequilibrado. Podemos oferecer aos outros o que nós queremos, como segurança financeira, em vez do que eles precisam, como compreensão e afeto. Ou fazer o que os outros querem que façamos, como passar muito tempo com eles, em vez do que precisamos, como tomar mais tempo para nós.
Formas de Insensibilifdade
Esquema do Exercício 1: Identificando Desequilíbrios de Sensibilidade
Procedimento
No caso de sensibilidade equilibrada em contraposição à hipersensibilidade, faça uma pausa após cada duas alternativas e considere qual dos exemplos citados é mais típico de você.
No caso das formas de insensibilidade, procure identificar em sua vida traços de cada exemplo apresentado.
- Para prática em workshop, escolha um exemplo de cada categoria.
- Ao praticar em casa, escolha apenas exemplos relevantes para sua vida pessoal.
- Para uma prática avançada ou mais profunda, considere todos os exemplos citados
Exemplos
1. Sensibilidade Equilibrada em Contraposição à Hipersensibilidade
Prestar atenção às consequências de suas ações
- Perguntar ao filho doente como ele se sente – ou ficar insistindo nessa pergunta a cada cinco minutos.
- Cuidar da própria saúde – ou ser hipocondríaco.
Prestar atenção às consequeências de suas ações
- Considerar a opinião dos outros ao tomar uma decisão — ou ficar com tanto medo da rejeição que isso o paralise.
- Esforçar-se para ir bem na escola — ou preocupar-se obsessivamente com o fracasso.
Responder de modo geral
- Mudar de faixa com serenidade quando alguém tenta ultrapassá-lo — ou ficar irritado e xingar mentalmente.
- Procurar calmamente as chaves perdidas — ou entrar em pânico.
Responder de forma emocional
- Sentir ternura e compaixão quando um ente querido está chateado — ou ficar chateado também.
- Sentir tristeza, mas manter a dignidade ao sofrer uma perda — ou afundar-se na autopiedade e na depressão.
2. Formas de insensibilidade
Não perceber uma situação
- Não notar que um parente está chateado.
- Não prestar atenção ao fato de que seu relacionamento com o parceiro não é saudável.
Não perceber as consequências de suas ações
- Não notar que você magoou os sentimentos de alguém.
- Não perceber que o excesso de trabalho está lhe causando estresse.
Perceber, mas não agir
- Ver uma pessoa ferida deitada sozinha na rua, mas não parar para ajudar.
- Notar o cansaço ao realizar um trabalho que pode esperar, mas não fazer uma pausa.
Perceber e agir, mas sem sentimentos
- Cuidar atentamente de uma pessoa doente, mas sem sentir nada.
- Seguir um regime especial quando está doente, mas ser incapaz de se relacionar com o próprio corpo ou com a doença, distanciar-se emocionalmente.
Perceber e agir, mas com um discernimento desequilibrado quanto ao que fazer
- Oferecer aos outros o que você quer, como segurança financeira, em vez do que eles precisam, como mais compreensão e afeto.
- Fazer o que os outros querem que você faça, como passar muito tempo com eles, em vez do que você precisa, como tomar mais tempo para si.