Cuidando da Bodhichitta

(1) Apossando-se assim da bodhichitta, os filhos dos Triunfantes nunca devem hesitar; e sim esforçar-se para manter seu treinamento.

(2) Se promessas foram feitas, no impulso ou sem pensar, é apropriado avaliar: "Devo manter ou desistir"

(3) Mas como desistir do que os Budas e bodhisattvas avaliaram com sua grande sabedoria, e eu também, repetidamente?

(4) Tendo feito essa promessa, se não a cumprir com minhas ações, estarei enganando os seres limitados; então que tipo de renascimento terei?

(5) Se foi ensinado (pelo Buda), que aquele que desiste de uma doação, mesmo que pequena e trivial, se transformará em um fantasma faminto;

(6) Se eu enganar todos os seres, depois de sinceramente convidá-los para a insuperável bem-aventurança, será que terei um renascimento melhor?

(7) O funcionamento do carma para alguém que desiste da bodhichitta e atinge a libertação está além do pensamento, então somente o Onisciente consegue entender.

(8) Mas para um bodhisattva, não há ruína maior; pois se algo assim acontecer, prejudicará o bem-estar de todos os seres.

(9) E se alguém, mesmo que por um instante, obstruir os atos positivos (de um bodhisattva), por estar prejudicando o bem-estar dos seres limitados, serão infinitos seus renascimentos em estados piores.

(10) Se nosso estado de renascimento piora ao destruir a alegria de um único ser, o que dizer de um número de seres tão vasto quanto o espaço?

(11) Assim, aquele com força para (desenvolver) bodhichitta, mas também para desistir dela, fica girando na roda do samsara, e por um longo tempo é impedido de atingir o nível de um bodhisattva.

(12) Portanto, devo cumprir com todo o respeito aquilo que prometi, pois se a partir de agora não me esforçar, descerei a estados cada vez piores.

(13) Incontáveis Budas já passaram, beneficiando todos os seres limitados, mas por causa de meus erros, não fui objeto de seus cuidados. 

(14) Se continuar agindo assim, muitas vezes isto se repetirá: piores estados de renascimento, doença, morte, ser desmembrado e dilacerado.

(15) Se o surgimento de um Tathagata e a obtenção de um corpo humano, junto (com) a crença no que é fato, e também com instintos construtivos é tão raro, quando eu poderia obter isso (novamente)?

(16) Embora hoje não esteja doente, tenha comida e não esteja ferido, a vida é fugaz e traiçoeira: o corpo é como um objeto tomado emprestado por um instante.

(17) Com esse tipo de comportamento, sequer conseguirei um corpo humano (novamente). E se não conseguir uma forma humana, terei apenas (minha) força cármica negativa e nada de construtivo.

(18) Se diante da chance de ter uma vida construtiva minhas ações não forem construtivas, o que farei quando atordoado pelo sofrimento dos estados piores de renascimento?

(19) Se nada de construtivo fizer, e continuar a gerar força cármica negativa, por centenas de milhões de eras sequer ouvirei as palavras "renascimento melhor".

(20) Por isso, disse o Mestre Vencedor, a probabilidade de se obter um renascimento humano é menor do que a de uma tartaruga enfiar o pescoço em uma canga à deriva na imensidão do mar.

(21) Se, por atos hediondos cometidos em um instante, se passa uma eternidade em um reino sem alegria, de dor implacável, para que mencionar que não irei para um dos melhores estados de renascimento por causa da força negativa que gerei desde tempos sem princípio?

(22) Mas, simplesmente passar por isso não me libertará, pois enquanto estiver vivendo isso, prolificamente gerarei mais força negativa.

(23) Portanto, se uma vez encontrada tal liberdade, eu não me habituar à virtude, não haverá autoengano maior, não haverá estupidez maior. 

(24) Uma vez entendido isso, se estupidamente ainda procrastinar, quando chegar a (minha) morte, uma enorme angústia me tomará.

(25) E se meu corpo por muito tempo queimar no fogo abominável de um reino sem alegria, sem dúvida minha mente será torturada pelas chamas ardentes do remorso insuportável.

(26) Como de alguma forma encontrei um renascimento proveitoso, tão difícil de encontrar, se (agora), que tenho capacidade de discriminar, me arrastar novamente para um reino sem alegria,

(27) Será como não ter tido uma mente aqui, como ter sido encantado por um feitiço. Se não sei o que está me fazendo ser tão ignorante, bem, o que tenho na (cabeça)?

(28) Se os inimigos, como raiva e desejo, não têm pernas nem braços, não são corajosos nem sábios, como conseguiram me escravizar?

(29) Enquanto estão escondidos e à vontade em minha mente, não me prejudicam. Sou paciente e não me zango com eles; mas esse é um momento inadequado e patético para ter paciência.

(30) Mesmo que todos os deuses e semi-deuses se insurgissem contra mim como inimigos, não poderiam me arrastar e colocar no fogo (de um reino sem alegria), de sofrimento implacável.

(31) Mas esses poderosos inimigos, minhas emoções perturbadoras, podem a qualquer momento me lançar sobre ele, e este, quando encontrado, não poupa nem as cinzas da Rainha das Montanhas.

(32) Minhas emoções perturbadoras, sem começo nem fim, são inimigas de longa data. Nenhum outro inimigo é capaz de durar tanto tempo.

(33) Todas as demais coisas trazem benefícios e felicidade, quando delas nos aproximamos e a elas servimos; mas me aproximar de minhas emoções perturbadoras (apenas) me prejudica e traz ainda mais sofrimento.

(34) Essas inimigas constantes, e de longa data, são as únicas causas para que danos se multipliquem descontroladamente. Como posso me alegrar e não temer o samsara, se (a elas) dedico um lugar seguro em meu coração?

(35) Como posso ser feliz se, em uma rede de apegos em minha mente, espreitam as guardas da minha prisão do samsara, prontas para se tornarem minhas assassinas e exterminadoras nos reinos sem alegria?

(36a) Por isso, até que essas inimigas sejam esmagadas definitivamente e na minha frente, não pouparei esforços, nunca.  

(36b) Os orgulhosos se enfurecem quando ocasionalmente alguém lhes causa um dano menor, e não dormem até que tenham esmagado (seu inimigo). 

(37) E se no auge da batalha contra os (inimigos) com emoções perturbadoras, que (de qualquer maneira) irão morrer, os obcecados em vingativamente esmagá-los continuassem ignorando a dor de terem sido feridos por flechas ou lanças e não desistissem até que seus objetivos fossem atingidos, 

(38) Uma vez que agora me esforço para derrotar definitivamente meus inimigos naturais (minhas emoções perturbadoras), que são a fonte contínua de todo o meu sofrimento, preciso mencionar que não devo desanimar e procrastinar, mesmo que me causem centenas de sofrimentos?

(39) Se as feridas infligidas sem propósito por inimigos são exibidas como ornamentos ao corpo, por que os sofrimentos me preocupam, se impecavelmente me esforço para cumprir o Grande Propósito?

(40) Se pescadores, párias, camponeses e afins, mesmo pensando apenas em sobreviver, toleram adversidades como calor e frio, por que não posso ser paciente, pela felicidade dos seres errantes?

(41) Quando prometi libertar de suas emoções perturbadoras os seres que vagavam nas dez direções até os confins do espaço, eu mesmo não estava livre,

(42) E nem conseguia perceber a extensão de minhas limitações, não foi uma loucura ter dito isso? Mas, como disse, nunca desistirei de destruir minhas emoções perturbadoras.

(43) Isso será minha obsessão: guardando rancor, as encontrarei em batalha! Esse tipo de emoção perturbadora é justamente para destruir as (demais).

(44) É melhor queimar até a morte ou ter minha cabeça decepada: nunca, em circunstância alguma, me curvarei ao inimigo, (minhas) emoções perturbadoras.

(45) Inimigos comuns, quando expulsos de um país, ocupam e se estabelecem em outras terras, e quando recuperam suas forças retornam; mas o comportamento do meu inimigo, as emoções perturbadoras, não é esse.

(46) Emoções lamentáveis e perturbadoras, quando eliminadas pelos olhos da sabedoria e jogadas para fora de minha mente, para onde vão? Onde vão morar, para depois voltar e me prejudicar? Fraco de espírito, me falta perseverança.

(47) Se as emoções perturbadoras não vivem em objetos sensoriais, nem nos órgãos sensoriais, nem entre (esses objetos e órgãos) ou em algum outro lugar, onde então vivem, e de onde assediam os seres errantes? São como uma ilusão; por isso, me livrarei do medo em meu coração e me dedicarei resolutamente a lutar pela sabedoria. Por que tenho me torturado, sem motivo, em reinos sem alegria?

(48) Tendo assim decidido, tentarei colocar em prática o treinamento, conforme explicado. Se não ouvir as instruções do médico, como pode um paciente ser curado por seus medicamentos?

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