Protegendo com Vigilância

(1) Se eu quiser proteger meu treinamento, preciso me esforçar e vigiar minha mente; se não conseguir vigiá-la, também não conseguirei proteger meu treinamento.

(2) Se deixado solto, o elefante de minha mente poderá me arrastar para a dor implacável (dos reinos sem alegria). Mesmo os elefantes selvagens deste mundo, na voragem do cio, não poderiam me causar tanto dano.

(3) Mas, se o elefante de minha mente estiver firmemente preso com a corda da atenção, todos os meus medos desaparecerão e tudo que for construtivo cairá em minhas mãos.

(4) Tigres, leões, elefantes, ursos, cobras e todos os inimigos, guardiões dos reinos sem alegria, bruxas, assim como canibais -

(5) Todos estarão amarrados, se apenas minha mente estiver amarrada; todos estarão domados, se apenas minha mente estiver domada.

(6) Todos os medos e sofrimentos incomensuráveis se originam na mente. Assim mostrou O de Fala Perfeita.

(7) Quem intencionalmente criou todas as armas (que afligem) os seres dos reinos sem alegria? Quem criou o chão de ferro escaldante? De onde vieram as mulheres-vampiro?

(8) Disse o Sábio, que tudo isso é produto de uma mente (com força cármica) negativa. Não há nada a temer nos três mundos, exceto esta mente.

(9) (Afinal,) se a perfeição da generosidade fosse erradicar a pobreza, como os Guardiões do passado poderiam tê-la aperfeiçoado, já que ainda há seres com fome?

(10) Diz-se que a perfeição da generosidade é o estado mental de dar a todos o que é seu, juntamente com os frutos dessa ação; sendo assim, é a própria mente.

(11) Peixes e afins, onde poderiam ser levados para que não os matassem mais? Considera-se a perfeição da disciplina ética a mente que renuncia a (tais atos).

(12) Seres cruéis são infinitos como o espaço, não é possível destrui-los todos. Mas destruir apenas a mente raivosa, é como destruir todos esses inimigos.

(13) Onde eu poderia encontrar couro (suficiente) para revestir toda a Terra? Mas revestir de couro apenas a sola dos meus sapatos, é como revestir toda a Terra.

(14) Assim, embora seja impossível controlar os eventos externos, se eu controlar a minha mente, por que necessitaria controlar as outras coisas?

(15) O resultado de uma concentração fraca, mesmo quando acompanhada de atos físicos e verbais, não se compara ao resultado de se desenvolver uma mente clara, que seria o estado de Brahma e além.

(16) O Conhecedor da Realidade disse que recitações e todas as práticas fisicamente difíceis, mesmo que feitas por um longo período, serão inúteis se praticadas com uma mente distraída.

(17) E aqueles que não conhecem o segredo da mente, o significado supremo do Dharma, perambularão miseravelmente e em vão desejando obter felicidade e superar o sofrimento.

(18) Sendo assim, vou segurar minha mente e protegê-la bem. Se não tiver esta disciplina de vigiar a mente, de que me servirão as demais disciplinas?

(19) Assim como protejo e cuido de uma ferida quando em meio a uma multidão agitada e incontrolável, devo sempre proteger a ferida de minha mente, já que vivo  em meio a pessoas difíceis.

(20) E se protejo uma ferida, mesmo que por medo de que doa um pouco, por que não proteger a ferida da minha mente, por medo de ser esmagado pelas montanhas (dos reinos sem alegria)?

(21) Se assim me comportar em meio a pessoas difíceis ou jovens atraentes, o contínuo esforço para me controlar não declinará.

(22) Prefiro não ter riqueza, honra, um corpo ou sustento! Prefiro até que minhas outras virtudes decaiam, mas nunca que minha mente degenere!

(23) Você, que gostaria de proteger sua mente, digo-lhe, com as palmas das mãos unidas, proteja sua atenção e vigilância com toda a força.

(24) Pessoas perturbadas por doenças não têm poder sobre suas ações. Pessoas com mentes desorientadas também não têm controle de suas ações.

(25) Para quem não tem a mente vigilante, tudo o que ouvir, ponderar ou meditar, se esvairá de sua memória, assim como se esvai a água em um vaso rachado.

(26) Mesmo pessoas instruídas, convictas e esforçadas, estão sujeitas a um deslize, devido ao erro da falta de vigilância.

(27) Os ladrões (que se aproximam devido à sua) falta de vigilância, depois de roubarem sua atenção, roubarão até a força cármica positiva que conseguiram acumular, e assim irão para renascimentos piores, como se tivessem sido roubados por ladrões.  

(28) Esse bando de ladrões, as emoções perturbadoras, buscam uma boa oportunidade para roubar o que é construtivo, destruindo qualquer vida em um estado melhor de renascimento.

(29) Portanto, nunca devo deixar que a atenção se afaste da porta de minha mente. Se ela se afastar, lembrarei do sofrimento dos piores estados de renascimento e a trarei de volta.

(30) Através do temor e das orientações de pessoas instruídas, e tendo convivido com mentores espirituais, as pessoas afortunadas e que a eles demonstram respeito, desenvolverão facilmente sua atenção.

(31) "Os budas e bodhisattvas têm a visão desobstruída. Estou sempre diante dos olhos deles."

(32) Pensando assim, deve-se conscientemente desenvolver dignidade, respeito e temor. Com isso, a atenção dirigida aos Budas aumenta cada vez mais.

(33) Quando a atenção é colocada na porta da mente, com o objetivo de protegê-la, a vigilância virá, e até o que já se foi voltará.

(34) Sempre que eu estiver prestes a agir, e perceber que minha motivação está errada, devo permanecer imóvel, como um bloco de madeira.

(35) Nunca olharei em volta apenas por distração, sem propósito algum. Com a mente resoluta, devo manter os olhos baixos.

(36) Mas, para descansar o olhar, olho em volta de vez em quando. E se alguém aparecer em meu campo de visão, levanto os olhos e saúdo.

(37) Para verificar se há perigos no caminho, olho repetidamente para as quatro direções. E, depois de fazer uma pausa, me viro e vejo o que está atrás.

(38) Depois de examinar tanto o que está atrás quanto à frente, sigo ou volto para trás. Assim devo agir em todas as situações, depois de saber o que é necessário.

(39) (Uma vez decidido) "Vou manter meu corpo assim", volto ao que estou fazendo, e observo periodicamente como estou mantendo o meu corpo.

(40) Com muito empenho, verifico se o elefante da minha mente não se soltou de onde está amarrado, o grande pilar do pensamento no Dharma.

(41) Não deixando de lado, nem por um instante, o dever de vigiar minha concentração absorvida, verifico a todo momento “No que minha mente está engajada?"

(42) Mas, quando não conseguir, quando em perigo, ou então numa celebração deixarei que ela faça o que for apropriado. Foi ensinado que, em momentos de doação, pode-se permanecer equânime em relação à disciplina ética.

(43) Quando tiver decidido e começado a fazer algo, não pensarei em mais nada. Com a mente focada, terminarei isso primeiro.

(44) Assim, tudo será bem feito; e se não for assim, nada será realizado. Dessa forma, o fator perturbador derivado, a falta de vigilância, também não aumentará.

(45) Quando presenciar conversas sem sentido ou entretenimentos maravilhosos, devo me livrar da atração por eles.

(46) Se, por nenhum motivo, eu começar a cavar o solo, arrancar matinhos ou rabiscar a terra, pararei imediatamente, por temor, lembrando o conselho dos Budas.

(47) Sempre que desejar me mexer ou falar, primeiro examinarei minha mente e então agirei serenamente, fazendo o que for (eticamente) correto.

(48) Quando perceber a presença de apego ou desenvolver algum ódio (por causa disso) em minha mente, não agirei; não falarei (uma palavra). Permanecerei como um bloco de madeira.

(49) Quando a mente estiver agitada e sarcástica, ou arrogante e presunçosa, com a intenção de ridicularizar, ou gananciosa, hipócrita e traiçoeira,

(50) Quando estiver sedenta de elogios, desejando criticar os outros, irritada ou abusiva, permanecerei, nesses momentos, como um bloco de madeira.

(51) (Quando) a mente ansiar por ganhos materiais, respeito ou fama, o cuidado de atendentes ou que eu seja servido, permanecerei, nesses momentos, como um bloco de madeira.

(52) (Quando) a mente quiser dizer algo, por desprezar os objetivos alheios e desejar cuidar (apenas) dos meus, permanecerei, nesse momento, como um bloco de madeira.

(53) (Quando) minha mente estiver impaciente, preguiçosa, covarde, excessivamente confiante, cheia de bobagens ou parcial a meu favor, permanecerei, nesses momentos, como um bloco de madeira.

(54) Examinando assim a mente, em busca de emoções perturbadoras ou atividades inúteis, os corajosos devem segurá-la firmemente, usando as forças opositoras.

(55) Determinado, confiante e estável, respeitoso e educado, com dignidade moral e temor, calmo e me esforçando para levar felicidade aos outros,

(56) Nunca devo me desanimar com os caprichos dos infantis; mas com bondade perceber que estes surgem em suas mentes devido a emoções perturbadoras,

(57) Pensando em mim e nos outros seres, agirei de forma irrepreensível, manterei a mente sob controle, sem orgulho de mim mesmo, como uma emanação mágica.

(58) Ao pensar repetidas vezes que, depois de muito tempo, obtive uma trégua suprema, manterei minha mente assim, completamente imóvel, como a rainha das montanhas.

(59) Ó mente, se não ficas infeliz quando o corpo é dilacerado e arrastado por todo lado por abutres ávidos por carne, por que o mimas agora?

(60) Por que, ó mente, você o protege tanto, e o toma como “meu”? Você e ele são entidades separadas, que utilidade ele poderia ter para você?

(61) Ó mente confusa, então por que não se apropria de uma escultura de madeira, limpa? Qual o sentido de proteger esse dispositivo podre, feito de coisas impuras?

(62) Primeiro, com o intelecto, retire e separe as camadas de pele e, depois, com o bisturi da consciência discriminativa, corte e separe a carne do esqueleto.

(63) E, ao abrir os ossos, olhe lá dentro, até a medula, e examine por si mesmo: "Onde está a essência?"

(64) Se, mesmo procurando com esse empenho, és incapaz de encontrar alguma essência, por que proteges esse corpo, com tanto apego?

(65) Se, ele é impuro e impróprio para ser comido, e nem mesmo o sangue serve para ser bebido, e nem o intestino serve para ser sugado, de que serve este corpo para você?

(66) Entretanto, é apropriado mantê-lo para alimentar os chacais e abutres. Esse corpo do ser humano nada mais é do que algo a ser utilizado.

(67) E se mesmo assim, protegido dessa maneira, o impiedoso Senhor da Morte o roubar e atirar aos pássaros e cães, o que você poderá fazer?

(68) Não se dá roupas e afins a um servo que não vai ficar e trabalhar. O corpo, mesmo depois de ter sido alimentado, vai partir para outro lugar. Então por que cuidar tanto dele?

(69) Mas, uma vez que o remunerou, faça com que sirva aos seus objetivos. Não lhe dê tudo sem que ele o ajude.

(70) Considere o corpo como um barco, apenas um veículo para se ir e vir, e transforme-o em um corpo que vai onde você quer, para satisfazer os desejos dos seres limitados.

(71) Assim, devo ter autocontrole e sempre apresentar um rosto sorridente. Vou parar de franzir a testa e fazer careta (de desaprovação), serei amigável e honesto com todos os seres errantes.

(72) Eu não vou mover cadeiras e outros objetos com descuido e barulho; não vou bater com violência para que me abram as portas; sempre irei me alegrar em ficar quieto.

(73) Cegonhas, gatos e ladrões movimentam-se silenciosa e sorrateiramente para atingir seus objetivos. Um disciplinado (bodhisattva) sempre age assim também.

(74) Com respeito levarei ao alto de minha cabeça as palavras dos especialistas em orientar os outros, que oferecem sua ajuda sem que seja solicitada. Devo sempre me colocar como aluno de todo mundo.

(75) A todos que derem boas (orientações), direi: "Muito bem-dito", e quando alguém agir construtivamente, vou elogiar e me alegrar com isso.

(76) Exaltarei as qualidades dos outros quando eles não estiverem presentes, e quando outros as exaltarem, concordarei. Quando minhas qualidades forem mencionadas, as apreciarei.

(77) Todas as ações (construtivas) causam alegria, mas mesmo se o dinheiro pudesse comprá-las, elas ainda seriam raras. Portanto, que eu me alegre com as boas qualidades desenvolvidas por outros.

(78) (Ao alegrar-me assim,) não perderei nada nesta vida, e em vidas futuras, terei grande felicidade. Encontrar falhas nos outros (trará) hostilidade e sofrimento, e em vidas futuras, meu sofrimento será grande.

(79) Quando eu falar, será de coração, com coerência, clareza, de forma agradável, sem voracidade ou agressividade, com gentileza e apenas o suficiente.

(80) Quando meus olhos contemplarem os seres limitados, pensarei: "É por meio deles que alcançarei o estado búdico" e os olharei com sinceridade e amorosidade.

(81) Sempre motivado por uma forte intenção ou por forças opositoras, e seguindo a direção dos que têm boas qualidades, dos que ajudam ou dos que sofrem, minhas ações construtivas se tornarão poderosas.

(82) Com habilidade e alegria, farei sempre eu mesmo o meu trabalho; nunca dependerei de ninguém para fazer o que tenho a fazer.

(83) Praticarei as atitudes de longo alcance (perfeições) da generosidade e assim por diante, que são progressivamente mais exaltadas. Jamais descartarei a de maior benefício em favor da de menor. Considerarei, como o mais importante, o benefício para os outros.

(84) Percebendo que é assim, sempre trabalharei para beneficiar os outros. O Compassivo que Enxerga Longe permitiu a tal (bodhisattva) o que é proibido (aos outros).

(85) Compartilharei meu alimento com os que decaíram, os que não têm protetores e os que mantêm um comportamento dócil, e comerei apenas o suficiente. Com exceção de minhas três vestes, entregarei tudo mais.

(86) Não irei prejudicar meu corpo, que pratica o Dharma sagrado, por algum objetivo trivial. Assim, (todas) as aspirações dos seres limitados serão rapidamente realizadas.

(87) Não desistirei do corpo enquanto meu pensamento de compaixão não for puro. O entregarei, nesta e em outras (vidas), às causas que cumprirão o Grande Propósito.

(88) Não explicarei o Dharma aos que não o respeitam, aos que amarram panos na cabeça, como se estivessem doentes, aos que carregam guarda-sóis, bengalas ou armas, ou àqueles que ocultam o rosto,

(89) Nem (ensinarei) o vasto e profundo aos que são modestos ou às mulheres desacompanhadas de um homem. Sempre prestarei igual respeito aos ensinamentos modestos e supremos do Dharma.

(90) Não ensinarei o Dharma dos modestos aos que são vasos para o Dharma vasto, nem os incentivarei a abandonar o comportamento (do bodhisattva), ou os encorajarei a fazerem recitações de sutras e mantras.

(91) Se eu tiver que cuspir ou jogar fora o palito de dentes, o cobrirei (com terra). E é desprezível urinar e assim por diante na água ou na terra usada por outros.

(92) Não comerei com a boca cheia, fazendo barulho ou com a boca aberta. Nem sentarei com as pernas estendidas ou com os braços simultaneamente (cruzados), pressionados (contra o corpo).

(93) Não viajarei, deitarei ou sentarei sozinho num quarto com a mulher de outro. Observando e perguntando, desistirei de tudo que possa trazer descontentamento às pessoas.  

(94) Nunca apontarei o dedo, mas respeitosamente indicarei o caminho com minha mão direita aberta;

(95) Não balançarei descontroladamente os braços, nem gritarei alto quando não for muito urgente, farei um sinal com um estalar de dedos ou algo do gênero; caso contrário, seria falta de controle.

(96) Assim como o Guardião (Buda) se deitou para passar para o nirvana, me deitarei para dormir do lado adequado; e, antes de mais nada, alerta e com firmeza, estabelecerei a intenção de acordar rapidamente.  

(97) Dentre os ilimitados comportamentos do bodhisattva, eu definitivamente colocarei em prática as condutas que purificam a mente.

(98) Recitarei O Sutra em Três Partes três vezes ao dia e (à) noite, e assim, com o apoio do Triunfante e meu ideal de bodhichitta, neutralizarei o restante de minhas transgressões.

(99) Qualquer que seja a situação em que eu esteja envolvido, por vontade própria ou por influência dos outros, colocarei em prática, diligentemente, o treinamento prescrito para essa situação.

(100) Não há nada em que os filhos espirituais do Triunfante não devam treinar. Para os habilidosos em viver assim, nada escapa de se tornar uma força positiva.

(101) Direta ou indiretamente, nada farei que não seja para o benefício dos seres limitados e, apenas por causa deles, dedicarei tudo à iluminação.

(102) Jamais abandonarei, mesmo às custas de minha própria vida, um mentor espiritual versado no Veículo Vasto (Mahayana) e exímio em (manter) o comportamento do bodhisattva.

(103) Aprenderei a me relacionar respeitosamente com um mentor espiritual como na Biografia de Shri Sambhava. Este e outros conselhos do Buda podem ser compreendidos lendo-se os sutras.

(104) É nos sutras que os treinamentos aparecem, por isso lerei os sutras. Analisarei, para começar, o Sutra de Akashagarbha.

(105) Analisarei definitivamente o Compêndio de Treinamentos, repetidas vezes, pois nele o que deve ser praticado é amplamente explicado,

(106) Ou consultarei, por ser um resumo, O Compêndio de Sutras, e então, examinarei diligentemente também o segundo (desses textos), compilado por Arya Nagarjuna.

(107) Colocarei em prática o que não for proibido neles, e implementarei na totalidade os treinamentos vistos, para proteger minha mente mundana.

(108) Resumidamente, a característica definidora de vigiar com atenção é examinar repetidamente a condição do meu corpo e mente.

(109) Colocarei tudo isso em prática com o meu corpo. O que se consegue fazer apenas falando sobre isso? Um doente consegue se curar apenas lendo o tratamento médico? 

Top