Preliminares e Treinamento em Bodhichitta

Pontos 1 e 2

Lojong” é uma palavra tibetana que normalmente é traduzida como “treinamento mental”, mas não acho essa tradução muito apropriada porque, para a maioria das pessoas, esse termo parece referir-se a algo exclusivamente intelectual. “Lo” significa “atitude” e “jong” significa “limpar” e “treinar”, no sentido de remover atitudes negativas e gerar mais atitudes positivas. O objetivo principal das praticas de lojong é limpar a mente e o coração das atitudes negativas e treinar em substituí-las por atitudes positivas.

As práticas de lojong chegaram ao Tibete no início do século XI, vindas da Índia com Atisha. Primeiro elas foram integradas à tradição Kadam e depois incorporadas em todas as quatro escolas do budismo tibetano. Essas práticas são um dos ensinamentos que unem todas as tradições, pois a única diferença significativa entre os comentários das diferentes escolas é a interpretação e a explicação da vacuidade.

Atisha recebeu a tradição do lojong de seu professor Dharmarakshita, autor de Roda de Armas Afiadas. Mas o texto Treinamento da Mente em Sete Pontos foi escrito cerca de um século mais tarde, por Geshe Chaykawa, da tradição Kadam. Duas linhagens desses ensinamentos derivam de seu discípulo Geshe Lhadingpa. Uma é a de Togmey-zangpo, autor de 37 Práticas do Bodhisattva, que é seguida pelas escolas Kagyu, Sakya e Nyingma. A outra chegou às mão de Tsongkhapa quase três séculos mais tarde, e é seguida pela escola Gelug.

As divergências entre as duas linhagens estão na disposição de algumas linhas nos versos, e determinadas linhas que aparecem em uma linhagem não aparecem na outra. Até dentro de uma única linhagem, existem várias versões do mesmo texto, mas Sua Santidade o Dalai Lama explica que as diferenças não são significativas, pois o significado final é o mesmo. Aqui, veremos a versão de Togmey-zangpo, seguida da explicação que recebi de Tsenzhab Serkong Rinpoche e complementada com alguns explicações de Geshe Ngawang Dhargyey.

Primeiro Ponto: As Preliminares

Prostrações à grande compaixão. Primeiro treine nas preliminares.

O primeiro dos sete pontos cobre as práticas preliminares, que são a base de todos os ensinamentos Mahayana. Essas práticas nos ensinam a respeito da vida humana preciosa, da impermanência e morte, e do que é normalmente chamado de “refúgio”, mas que eu chamo “direção segura”. Não olhamos para o Buda, o dharma e a sangha, e dizemos “Salvem-me!”. O que fazemos é alinhar nossa vida na direção segura e positiva indicada pelo Buda, o dharma e a sangha. A seguir, vêm os ensinamentos sobre o karma, ou seja, as causas e efeitos de nosso comportamento. E, finalmente, analisamos as desvantagens do samsara, que se refere às situações incontrolavelmente recorrentes desta e de futuras vidas. As preliminares são importantes porque fazem com que desenvolvamos uma atitude muito especial perante a vida, que servirá de base para todos os demais ensinamentos. Passamos a apreciar as oportunidades preciosas que temos nesta vida, e percebemos que não vão durar para sempre. Isso nos estimula a aproveitar nossa situação atual e trabalhar para nos livrarmos de todos os problemas e suas causas, além da confusão e sofrimento deles resultantes. Para isso, precisamos trabalhar com as causas e efeitos de nosso comportamento, e não apenas rezar para atingirmos um objetivo, sem fazermos coisa alguma para que isso aconteça. A maioria de nós está apenas buscando fazer seu samsara um pouco melhor, mas aqui o objetivo é mais elevado. Queremos melhorar nossas vidas futuras como um passo no caminho para a completa liberação de todos os obstáculos, dificuldades e confusão — não importa quantas vidas necessitemos para isso.

Para a maioria de nós, isso é muito difícil. Normalmente não pensamos muito em termos de vidas futuras, muito menos de liberação dos renascimentos. Se não acreditamos em renascimentos, como podemos ter como meta nos liberarmos deles? Como podemos querer nos iluminar para ajudar todos os outros seres a se livrarem do ciclo incontrolável de renascimentos? Nada disso é fácil se não tivermos total convicção na existência dos renascimentos.

Sendo ocidentais, a primeira coisa que precisamos entender é o significado da explicação budista de renascimento. Mesmo que nossa motivação foque principalmente em melhorar esta vida, ainda podemos estar abertos à ideia de renascimentos, da liberação dos renascimentos e da possibilidade de ajudarmos os outros seres a também se liberarem. A explicação budista de renascimento é bastante sofisticada, o que faz com que seja muito difícil de entender. Mas é importante que tenhamos interesse em estudar e meditar sobre o assunto até conseguirmos entendê-lo corretamente.

Digo isto porque, na verdade, os ensinamentos do lojong são muito avançados. Realmente não são para iniciantes! Por exemplo, tem um ensinamento que diz que na hora da morte devemos rezar para renascer em um dos infernos; é um tanto difícil nos identificarmos com isso, não é? Qualquer que seja a forma como abordamos os ensinamentos do dharma, precisamos ser honestos e realistas com relação ao nosso nível de desenvolvimento, e ter uma boa ideia do que é o verdadeiro caminho. Nunca é bom fingir sermos mais avançados do que somos. Este texto nos ensina a atitude de realmente querer levar todo e qualquer ser à iluminação, até mesmo uma simples barata. Quantos de nós podemos dizer que estamos neste nível?! Precisamos saber que as práticas de lojong são muito profundas e de longo prazo. Podemos nos beneficiar um pouco se começarmos agora mas, uma vez que as práticas são progressivas, devemos sempre manter em mente que, à medida que formos avançando, vamos querer voltar para aprofundar determinados pontos.

Neste contexto, isso significa que não passaremos pelas preliminares apenas uma vez. Não são algo de que temos que nos livrar a fim de poder seguir para as práticas mais interessantes. Esse texto é escrito sob o ponto de vista de pessoas que têm bodhichitta, ou seja, um coração que almeja a iluminação, a qual só é alcançável por termos as qualidades da natureza búdica. Bodhichitta tem dois intuitos, o primeiro é alcançarmos a iluminação e o segundo é, com isso, beneficiarmos todos os seres. Nos textos dos ensinamentos orais, esses dois intuitos não são apresentados nesta ordem, pois na prática a ordem é inversa. Primeiro nossa principal intenção é ajudar os outros. Por estarmos incrivelmente tocados por compaixão e preocupação, sentimos que simplesmente temos que ajudá-los a superar o sofrimento. Vemos que, apesar de podermos tentar ajudá-los agora, para realmente ajudá-los precisamos eliminar todos os nossos obstáculos e realizar todo o nosso potencial. Precisamos nos tornar Budas para conseguirmos ajudá-los o máximo possível. Mas essa aspiração de nos tornarmos budas vem em segundo lugar. A primeira aspiração é ajudar todos os seres.

Simplificando, o fato de termos uma vida humana preciosa, e a oportunidade de ajudar os outros, é incrível. Mas também é impermanente, pois sem dúvida vamos morrer, e não sabemos quando. Isso é muito ruim! Mas nos motiva a ajudar as pessoas ao máximo e agora, antes de termos Alzheirmer, de não conseguirmos mais usar nossa mente e morremos. Para ajudarmos os outros, precisamos genuinamente tomar uma direção segura ou refúgio no Buda, dharma e sangha, além de evitar comportamentos destrutivos. Por causa da desvantagens do samsara, também devemos evitar o encantamento com o renascimento samsárico em geral, como o apego aos prazeres efêmeros e as frustrações de termos que enfrentar problemas após problemas. É simples e direto: tentamos ajudar pessoas e não ser pegos por nossas próprias emoções perturbadoras. Portanto, as preliminares precisam ser compreendidas no contexto de bodhichitta.

Ponto Dois: O Verdadeiro Treinamento em Bodhichitta

O segundo ponto cobre o verdadeiro treinamento em bodhichitta, e é dividido em duas partes: bodhichitta profunda (absoluta) e bodhichitta convencional (relativa). Primeiro veremos a bodhichitta profunda:

Pondere o fato de que os fenômenos são como sonhos. Examine a natureza básica da consciência não surgida. A força opositora (antídoto) libera-se em seu próprio lugar. A natureza essencial do caminho é estabelecer-se em um estado que a tudo engloba. Entre sessões, aja como uma pessoa ilusória.

A bodhichitta profunda é uma mente voltada à vacuidade, ou seja, a como as coisas existem. Para atingirmos a iluminação, precisamos entender a realidade de como nós, os outros e tudo o mais existe, assim, podemos remover os problemas e hábitos causados pela confusão que fazemos sobre isso.

O que é vacuidade? Colocando de forma bem simples, a vacuidade refere-se à ausência de formas impossíveis de existência. Diferentes teorias budistas indianas, e várias escolas budistas tibetanas, definem essas “formas impossíveis de existência” de maneira ligeiramente diferente. Mas independente disso, precisamos parar de projetar formas impossíveis de existência no processo de tentarmos ajudar os outros. Precisamos nos livrar de qualquer pensamento de que existe um “eu” sólido sentado aqui, um “eu” que é tão maravilhoso ao fazer esse tipo de prática e tentar ajudar um pobre e desafortunado “você”, que está aí. Também não devemos pensar que existe um pobre “eu” sólido aqui, que jamais conseguiria ajudar essa outra pessoa sofrendo aí. Embora possamos imaginar que isso corresponde à realidade, e embora as coisas possam realmente parecer ser assim, precisamos estar atentos ao fato de aquilo que achamos ser verdadeiro é, na realidade, como um sonho, ou uma ilusão. O fato é: estamos todos inter-relacionados; não existimos como seres isolados em um vácuo. Interagimos uns com os outros e, assim sendo, podemos ajudar uns aos outros. Outra forma impossível de existência é acharmos que somos super poderosos e podemos instantaneamente curar os problemas de todos os seres. Isso é obviamente impossível. Para que os demais seres superem seus problemas, precisam eliminar suas causas, ou seja, a confusão. Precisamos entender a realidade, assim como todos os outros seres. Ninguém pode fazer isso por nós. Podemos mostrar o caminho e tentar deixar a vida um pouco mais fácil para os outros mas, no final, eles têm que entender a realidade por si próprios.

A segunda parte do segundo ponto diz respeito à bodhichitta convencional, ou relativa:

Treine em dar e receber de forma alternada, seguindo o fluxo da respiração.

Esta passagem refere-se a uma sessão de meditação em que a principal prática é “tonglen,” “dar e receber”. Nesta prática, imaginamo-nos removendo compassivamente o sofrimento e os problemas de todos os seres e tomando-os para nós. Aplicando os antídotos com amor, imaginamo-nos dando-lhes as soluções para seus problemas e toda a felicidade.

Tonglen é uma prática incrivelmente avançada e muito difícil de ser feita com sinceridade. É fácil fingirmos que estamos fazendo, mas tomar o sofrimento alheio com sinceridade, e realmente experimentar esse sofrimento, é muito, muito avançado. Requer uma compreensão genuína da natureza da dor. Se não compreendermos a relação da dor e do sofrimento com a mente, ficaremos aterrorizados frente à possibilidade de realmente tomarmos para nós o câncer ou a dor do câncer de alguém. Por isso é tão importante compreendermos a natureza da realidade e da mente. Quando temos a compaixão para desejar que os outros se livrem de seus problemas, e estamos dispostos a tomá-los para nós, isso significa que estamos dispostos a sofrer.

Não significa que tiraremos o sofrimento deles e simplesmente o jogaremos fora. O sofrimento precisa passar por nós. Precisamos experimentá-lo. No nível inicial, isso significa que não podemos temer ficar tristes com o sofrimento alheio. É triste que alguém tenha câncer ou Alzheimer. É muito triste! Portanto, não adianta nada fazermos a prática mas erguermos um muro em volta dos nossos sentimentos porque não aguentamos o sofrimento. Precisamos sentir a tristeza e a dor da outra pessoa e ver que, no nível da natureza básica da mente, tristeza e dor são apenas ondas. O nível básico da mente é experiência pura, e alegria e felicidade são suas qualidades naturais. É com base nisso que somos capazes de projetar felicidade para os outros seres. No entanto, sem realização da vacuidade e muita prática de mahamudra, é muito difícil fazermos tonglen com sinceridade. Não quero desencorajar ninguém a praticar porque, mesmo nos níveis iniciais de desenvolvimento, esta é uma prática muito útil. Mas realmente, tomar, experimentar e dissolver o sofrimento na felicidade natural da mente, e enviar aos outros essa felicidade, é uma prática muito avançada. Na verdade, é uma prática de mahamudra que, em certo sentido, é para nosso próprio benefício. Isto porque, para praticá-la, precisamos destruir nossa atitude autocentrada de não querermos nos envolver nos problema dos outros — uma resistência a “sujar as mãos” ao termos de lidar com esses problemas.

Mas como essa prática pode beneficiar os demais seres? Todos têm seu próprio karma, como podemos absorvê-lo com tonglen? Bom, o karma precisa de determinadas circunstâncias para amadurecer, então, o que podemos fazer é providenciar as circunstâncias que ajudarão esse karma a amadurecer mais rapidamente e de uma outra forma. Se a pessoa estiver doente, significa que seu karma já amadureceu na forma desta doença. No entanto, se for uma doença curável, ela só será curada se tiver a causa kármica para isso. O que podemos fazer é providenciar a circunstância que permite o amadurecimento desse potencial positivo.

Por exemplo, como funciona a prática do Buda da Medicina? O Buda da Medicina não é Deus; ele não pode, com seu poder, curar-nos de uma doença. Mas, ao fazermos oferendas e práticas, criamos as condições para que o karma negativo, que está perpetuando a doença, amadureça de forma muito mais branda. A inspiração (bênção) do Buda da Medicina é, na verdade, a inspiração que vem de nossa própria mente de clara luz, que ajuda a trazer à superfície nossos potenciais mais profundos, para que eles possam amadurecer. O que chamo de inspiração é normalmente traduzido como “bênção”, como em “Oh Buda da Medicina! Abençoe-me para que eu melhore!” Nossa forte motivação de melhorarmos, a fim de sermos capazes de ajudar os outros seres, é o que cria as circunstâncias para que o karma negativo amadureça de forma muito mais amena, e o karma positivo aflore e amadureça. Essa energia inspirada de nossa própria mente individual de clara luz, representada pelo Buda da Medicina, é o que permite que todo esse processo ocorra.

O mesmo acontece com a prática de tonglen, que cria as circunstâncias para que o karma negativo da outra pessoa amadureça de forma mais amena e o positivo mais rapidamente. Os beneficiados não precisam saber — é até melhor que não saibam. Para sermos capazes de tomar e sentir o sofrimento alheio, e deixar que se dissolva na natureza pura de nossa mente, precisamos da imensa energia de bodhichitta e da inspiração de nossos professores, como em qualquer prática Mahayana. Portanto, antes de praticarmos tonglen, precisamos passar por todos os estágios de desenvolvimento de bodhichitta. Naturalmente, precisamos ter algum nível de amor e compaixão para conseguirmos sequer considerar tomar para nós os problemas alheios. Em um nível mais profundo, precisamos da compaixão amorosa para, não apenas querer tomar para si os problemas alheios, como também ser capaz de chegar ao nível de clara luz da mente. É uma prática muito profunda!

Outro fato a respeito do tonglen é que está baseado na compreensão da bodhichitta mais profunda (absoluta), ou seja, da vacuidade. Se pensarmos em termos de um “eu” sólido, ficaremos com medo demais de tomar o sofrimento alheio. Precisamos dissolver esse forte sentimento de “eu”, que nos impede de praticar com sinceridade, ou seja, de realmente tomar e vivenciar o sofrimento dos demais, e ter capacidade de suportá-lo. Para isso, precisamos da compreensão da vacuidade e uma habilidade básica na prática mahamudra da natureza da mente. Assim, seremos capazes de dissolver o sofrimento na pureza natural da mente. Não tomamos simplesmente o sofrimento e o mantemos dentro de nós. Uma vez que possuímos a verdadeira fonte da felicidade, da natureza mais sutil da mente, também a doamos aos outros.

Mas, como podemos experimentar uma coisa que é de outra pessoa? Basicamente, o forte desejo de tomarmos para nós o sofrimento alheio é o que age como circunstância para que nosso próprio karma negativo amadureça em sofrimento. Queremos que isso aconteça, para que possamos queimar nosso karma negativo — este é um outro nível que temos que trabalhar na prática do tonglen. Não estamos tomando o sofrimento dos outros como quem toma o sanduíche de alguém para comê-lo. É muito mais sutil que isso, é trabalhar em termos das circunstâncias e condições.

Meu professor, Serkong Rinpoche, sempre usava um exemplo que deixava todo mundo desconfortável, o de um grande lama que fez tonglen, tomou uma doença terrível de outra pessoa e morreu. Toda vez que ensinava tonglen, ele contava cada detalhe dessa história. A questão é que precisamos ser sinceros em nossa vontade de tomar o sofrimento alheio, devemos estar dispostos a morrer. Perguntávamos a ele, “Se alguém como você, Rinpoche, tomasse o sofrimento de um cachorro e morresse, não seria uma pena?” E ele respondia, “Quando um astronauta morre no espaço, torna-se um herói, e o governo e outras pessoas passam a cuidar de sua família. Da mesma forma, se um grande professor morrer por praticar tonglen, alcançará, ou quase alcançará, a iluminação por conta da força de sua compaixão e bodhichitta e, assim, cuidará de seus discípulos ao proporcionar-lhes inspiração.”

Realmente extraordinário foi o fato de que, tendo ensinado isso muitas vezes, meu professor realmente morreu de tonglen. Serkong Rinpoche viu que havia um sério obstáculo à vida de Sua Santidade o Dalai Lama e que seria melhor se o tomasse para si.

Algumas semana antes, eu levei Serkong Rinpoche para fazer exames e ele estava com a saúde perfeita. Certo dia, Rinpoche terminou um ensinamento na remota área de Spiti, nos Himalayas indianos, e foi para a casa de uma determinada pessoa. Mas primeiro parou no monastério para fazer oferendas. Lá, os monges pediram, “por favor fique”, mas ele respondeu, “Não, se quiserem me ver novamente, terão que ir a essa casa para onde estou indo.” Chegando à casa, ele fez o que costumava fazer à noite, ou seja, práticas muito intensivas, e depois sentou-se em uma postura que nãoo era o modo como costumava dormir. Então disse ao seu discípulo senior que entrasse no quarto e começou a fazer uma prática, que obviamente era tonglen, e morreu.

Foi extraordinário, porque naquela hora Sua Santidade estava em um avião dirigindo-se a Genebra e Yasir Arafat também estava indo para Genebra na mesma hora. As autoridades estavam receosas de haver algum atentado terrorista e disseram que não poderiam garantir a segurança de Sua Santidade. Quando Rinpoche fez a prática, Arafat, que já estava no ar, mudou de ideia e fez o avião voltar, não pousando em Genebra. Com a ação de Rinpoche, esse enorme obstáculo à vida de Sua Santidade ainda assim amadureceu, mas de maneira muito trivial. Quando Sua Santidade aterrissou, havia uma certa confusão no aeroporto e o carro em que estava se perdeu, mas foi basicamente isso. O karma negativo amadureceu como algo muito ameno, e o que Serkong Rinpoche fez serviu como circunstância para que seu próprio karma de morrer aflorasse, e ele morreu. Tinha apenas 69 anos — mas achou que a maior contribuição que poderia fazer seria prover as circunstâncias para que a vida de Sua Santidade fosse mais longa. Através de seu exemplo, proporcionou muita inspiração a seus discípulos. Sempre me perguntei se ele já não sabia há muitos anos que isso iria acontecer, pois foram muitas as vezes em que presenciei suas habilidades extra sensoriais.

Tonglen só funciona assim se tivermos uma conexão kármica muito forte, como a que temos com nossa família e amigos. Serkong Rinpoche tinha tal conexão com Sua Santidade, já que havia sido um de seus professores desde a infância. O importante é termos a coragem de sentir isso, de que mesmo que tenhamos de sofrer a doença de um parente, não tem problema, desde que isto seja a circunstância para que ela se manifeste de forma mais amena nele.

Geralmente fazemos essa prática de tonglen quando estamos doentes, imaginando que estamos tomando a doença de todos os que sofrem da mesma circunstância que nós. No entanto, depois de fazer a prática, podemos continuar doentes e sofrendo, e a doença dos outros não ter ido embora. Nesse caso, podemos trabalhar com nossa própria dor e angústia mental com métodos básicos de mahamudra. Sentimos que somos um oceano e visualizamos a dor e o sofrimento como apenas uma onda na superfície, uma onda que não perturba as profundezas do oceano.

Se praticarmos tonglen a fim de tomar para nós toda a gripe dos outros, mas nosso objetivo real for curar a própria gripe, não funcionará. Mesmo que inconscientemente, esse tipo de pensamento é um grande obstáculo para o funcionamento da prática, pois ela precisa ser feita com base em pura compaixão. Em muitos casos, a prática não funciona porque não temos uma conexão forte o suficiente com as pessoas. É por isso que temos a oração, “que eu possa eliminar o sofrimento de todos os seres em todas as suas vidas” Essa oração é importante porque estabelece a conexão para que esse tipo de prática funcione.

Qual o objetivo da prática? Em um certo nível, é ajudar os outros, claro. Mas na maioria dos casos isso não funcionará. Portanto, o objetivo secundário é nos ajudar a alcançar a iluminação. Como? Uma vez que envolve bodhichitta, então deve ser um método para atingir-se a iluminação. O que nos ajuda a alcançar a iluminação é desenvolver a coragem para superar o auto-apreço e a disposição em lidar com os problemas de todos os demais seres. Como bodhisattvas e budas, teremos que estar dispostos a envolvermo-nos com os problemas mais terríveis. Praticar tonglen nos ajuda a superar a atitude de auto-apreço: “Não quero me envolver. Não quero sujar minhas mãos. Não quero ir a um hospital velho e lidar com todos os pacientes de Alzheimer, porque é muito triste e deprimente. Não consigo suportar”. Temos que superar o sensação de haver um grande, forte e sólido “eu”, pois isso é o que está por traz dessa atitude de auto-apreço.

Muitas das visualizações que Serkong Rinpoche ensinava e Sua Santidade ainda ensina são horríveis, mas muito, muito poderosas. Todas as tradições ensinam que devemos fazê-las seguindo o ritmo da respiração. Ao inspirarmos, imaginamos com compaixão (desejando que os outros estejam livres do sofrimento e suas causas) que todo o sofrimento alheio vem em nossa direção, em alguma forma gráfica. Ao expirarmos, visualizamos com amor (desejando felicidade e as causas da felicidade) nossa felicidade sendo enviada para as outras pessoa, na forma das coisas que elas precisam. Nos métodos mais avançados, ensinados por Serkong Rinpoche e o Dalai Lama, não visualizamos simplesmente uma luz negra vindo em nossa direção; imaginamos substâncias sujas, como óleo de carro, graxa e sujeira. Assim, podemos trabalhar em superar o sentimento de não querermos nos sujar. Esse é o primeiro passo. Depois, visualizamos o sofrimento vindo na forma de urina, diarreia, vômito, sangue e tripas. Isso nos ajuda a superar sentimentos de indiferença, tais como “Oh, alguém foi atropelado por um carro e está deitado na rua; não quero nem olhar, é muito horrível e nojento.”

Começamos lidando com coisas menos horripilantes, como diarreia e vômito, e seguimos imaginando o sofrimento vindo na forma daquilo de que realmente temos medo: aranhas, escorpiões, baratas, cobras, ratos, ou o que seja. Imaginamos que inspiramos todas essas coisas nojentas e que elas vão para o nosso coração, opondo-se ao ego sólido que sempre diz, “Nem pensar, não quero lidar com isso!” É por isso que a prática de tonglen é incrivelmente avançada e profunda. Pois, para realmente chegarmos ao nível de clara luz, temos que ser capazes de dissolver todos os nossos medos e as defesas do ego, bem como a dor e o sofrimento alheios que não queremos experimentar.

Mesmo nos níveis iniciais, essa prática pode ser muito benéfica, porque nos ajuda a levar a sério os problemas dos outros. Na verdade, este é o primeiro passo. Ao tomarmos o problema para nós, passamos a lidar com ele como se fosse nosso. Considere o caso de um sem-teto no inverno, que está com fome e frio, sem trabalho nem casa, e que está doente ou com dor. Imaginamos como seria e sentimos o sofrimento. Tentamos buscar alguma solução para lidarmos com ele. Praticar apenas neste nível já é muito benéfico, mas não é a única forma. Existem muitos, muitos níveis mais profundos.

Ao tomarmos o sofrimento alheio, temos que ter muito cuidado para não cairmos no extremo do mártir, pensando “Tomarei o sofrimento de todos para a glória do Buda”. Isso não tem nada a ver com o que fazemos. E também é muito importante não achar que tomar todo o sofrimento é o caminho para a iluminação. Precisamos cuidar para não querermos tomar o sofrimento dos outros por causa de nossa baixa autoestima. “Sou uma pessoa tão terrível que preciso sofrer, eu mereço.”

Essa prática pode nos trazer à mente a imagem de Jesus tomando todo o sofrimento da humanidade. Jesus certamente estava disposto a sentir esse sofrimento e o medo do sofrimento. No entanto, do ponto de vista budista, ninguém pode impedir todo o sofrimento do universo. Apesar de estarmos cultivando a aspiração de que ao sofrermos os outros possam se livrar do sofrimento, não devemos inflar nosso ego achando que podemos fazer milagres e resolver os problemas de todos os demais. O ponto principal é desenvolver coragem para ajudar os outros mesmo nas situações mais difíceis — nos Kosovos, Bosnias e Ruandas do mundo.

A seguir, veremos o que devemos fazer entre as sessões no dia-a-dia:

[No que diz respeito] aos três objetos (seres que consideramos atraentes, repulsivos ou neutros), [tome para si] as três atitudes venenosas (desejo, aversão e ignorância) e [dê ao outro] as três raízes do que é construtivo (desapego, imperturbabilidade e sabedoria), [ao mesmo tempo em que] treina com palavras em todos os caminhos comportamentais.

Os três objetos são os seres que achamos atraentes, repulsivos ou neutros. E as três atitudes venenosas são o desejo a aversão e a ignorância (ingenuidade). Quando sentimos desejo por alguém que achamos atraente, aversão por alguém que achamos repulsivo e ignoramos alguém que consideramos neutro, nos imaginamos tomando essas três atitudes venenosas de todos os que as têm. E então lhes damos as três raízes do que é construtivo, ou seja, desapego, imperturbabilidade, e sabedoria. Assim lidamos com nossos problemas em relação a isso. Também podemos suplementar nossa prática com palavras como “Que todo o sofrimento dos outros amadureça em mim, e que toda a minha felicidade amadureça neles.”

Quanto à ordem (por quem começar), comece consigo.

Se estivermos sofrendo de um determinado problema, precisamos primeiro aceitar e lidar com ele, só depois podemos aplicar o método de tomarmos para nós o mesmo problema de todos os outros seres. Por isso, começamos a prática conosco. Caso contrário, se não conseguimos encarar nossos problemas, podemos focar nos problemas dos outros como fuga.

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