12 Desconstruindo Aparências Enganosas

A Necessidade de Métodos de Desconstrução

Às vezes, descobrimos que estamos reagindo de forma exagerada ao que vemos, ouvimos ou sentimos porque percebemos algo de maneira errada. Por exemplo, achamos que nosso amigo estava irritado conosco porque não ligou para nós por vários dias. Na verdade, nosso amigo não teve tempo por causa de trabalho extra no escritório. Um telefonema pode esclarecer rapidamente esse tipo de mal-entendido.

Por outro lado, quando descobrimos que nossa reação exagerada vem da crença em uma aparência dualista exagerada, a coisa não é tão simples. Suponhamos, por exemplo, que sempre que pensamos em nosso amigo surge a sensação de que não podemos viver sem ter notícias diárias dele. Acreditamos que essa pessoa é a chave para a verdadeira felicidade. Mesmo que saibamos intelectualmente que isso é um grande absurdo, há emoções tão fortes envolvidas que achamos difícil descartar o sentimento quando ele surge.

Usar as imagens do balão estourando e do livro de contos se fechando e se dissolvendo nos ajuda a rejeitar aparências inválidas. Mesmo assim, os sentimentos perturbadores retornam. Precisamos de meios adicionais para lidar com tais situações. Vejamos três métodos para desconstruir as aparências e sentimentos enganosos que surgem por hábito. Cada um usa uma visualização para aprimorar nossa consciência da realidade.

Focando nas Mudanças da Vida

Muitas pessoas têm medo, por exemplo, de visitar as enfermarias de asilos, mesmo que um parente sofra de doença de Alzheimer e viva lá. Ainda que estejam convencidas de que são sensíveis demais para lidar com a visita, a verdade é que essas pessoas estão racionalizando sua insensibilidade. Lembrar da impermanência e visualizar as mudanças da vida pode ajudar a desconstruir o medo. A meditação tradicional para superar a paixão, imaginando alguém jovem e atraente como envelhecido e velho, sugere esse método.

Por exemplo, precisamos olhar de forma profunda e compassiva para nossa mãe senil e debilitada, primeiro na imaginação e depois durante encontros reais. Sua aparência atual, curvada na cadeira de rodas, não é uma distorção. Ela está assim agora. Porém, quando exageramos essa aparência, achando que é algo terrível, temos a impressão de que ela sempre foi assim. É uma aparência enganosa. Embora nossa mente a faça parecer horrível e nos perturbe enormemente vê-la assim, sabemos que ela nem sempre teve essa aparência. Podemos facilmente lembrar dela quando mais jovem e saudável. Podemos usar essa capacidade para desconstruir sua aparência atual e perturbadora.

A prática consiste em vê-la não como se contemplássemos um retrato estático, mas como se folheássemos rapidamente fotos de sua vida. Contudo, precisamos lembrar que nossa mãe não é uma fotografia, mas a pessoa a quem aquela foto se refere. Quando vemos sua aparência atual como só mais uma foto entre muitas, uma última foto realmente triste e dolorosa, paramos de exagerá-la de forma desproporcional. Consequentemente, paramos de solidificá-la como uma identidade baseada unicamente na imagem angustiante dela de paciente terminal de Alzheimer.

Segundo a apresentação Gelug dos ensinamentos prasangika (conclusão absurda) sobre a vacuidade-do-eu, as coisas existem como o que são em relação aos nomes ou rótulos usados de forma válida para se referir a elas. Por exemplo, com base nas peças montadas e funcionando de um veículo, rotulamos algo como "carro". O carro é o objeto ao qual o rótulo "carro" se refere com base em todas as suas peças. Além disso, não usamos o rótulo "carro" para nos referir a esse objeto com base em suas peças apenas no momento em que é montado pela primeira vez. Rotulamos o objeto de forma válida como carro desde sua fabricação até sua demolição. O mesmo processo é válido para nossa mãe.

Dispondo diante de nós uma base extensa para o rótulo "mãe", compreendemos a realidade dela mais claramente. Embora ela tenha se tornado nossa mãe apenas quando nos concebeu, quando olhamos para uma foto da infância dela, costumamos dizer que essa é nossa mãe quando criança. Assim, a palavra "mãe" se refere a ela ao longo de toda a sua vida, não apenas a como ela aparece agora. Essa compreensão nos ajuda a tratá-la sempre de forma sensível e amorosa. Imaginar mais fotos dela no futuro, até sua morte, nos permite respeitar sua dignidade até ela morrer.

Ver nossa mãe atravessando as mudanças de sua vida também ajuda a eliminar e prevenir outra forma de insensibilidade. Podemos ver a figura decrépita na cadeira de rodas e negar que essa seja realmente nossa mãe. Pensando que ela era só aquela pessoa dos “melhores dias” de sua vida, queremos lembrar dela apenas assim. O erro é atribuir o rótulo "mãe" a apenas parte da base válida para sua rotulação. Assim como "mãe" não se refere a ela simplesmente como aparece agora, também não se a ela simplesmente como aparecia cinco anos atrás. Ver nossa mãe em uma pilha de fotos de toda sua vida nos traz de volta à razão. Ajuda a lidar de forma sensível com a pessoa diante de nós. Embora ela possa não ter ideia de quem somos, ela ainda é nossa mãe.

Ao discutir a consciência da realidade, notamos fatos convencionais e mais profundos sobre tudo e todos. Esses fatos são inseparáveis. Não são como diferentes níveis de realidade, com alguns que podemos descartar como menos reais do que outros. Portanto, a aparência convencional de nossa mãe como ela é agora e o conjunto de cenas de sua vida são bases igualmente válidas para rotulá-la como "mãe". Ao desconstruir a aparência angustiante de nossa mãe, precisamos tomar cuidado para não ignorá-la como ela é agora. A desconstrução correta preserva tanto sua aparência objetiva quanto o fato mais profundo das mudanças de sua vida. Ver esses dois aspectos como igualmente válidos é imperativo para nos relacionarmos com ela de forma sensível em sua condição atual.

Vidas Passadas e Futuras

Um nível avançado da visão das mudanças da vida é ver as pessoas não apenas em uma série de retratos ao longo desta vida. Tentamos vê-las também no contexto de vidas passadas e futuras. Contudo, ao fazer isso precisamos tomar cuidado para não cair em um de dois extremos: dar às pessoas identidades concretas e eternas ou despersonalizá-las completamente.

Do ponto de vista budista, todos os seres, incluindo animais e insetos, assumiram todas as formas possíveis de vida animada em um momento ou outro. Embora cada fluxo contínuo de vidas seja individual, nenhum tem a identidade aparentemente concreta e duradoura de uma vida em particular. Em outras palavras, essa visão não considera um determinado animal ou homem de Neandertal como uma encarnação anterior de alguém com a identidade concreta e duradoura de nossa mãe. Ela vê todos os três como vidas que constituem um fluxo específico e contínuo de vidas. Cada fluxo é chamado de "fluxo mental" ou "contínuo mental". No entanto, fluxos mentais são anônimos. Não carecem de qualquer identidade. Fluxos mentais específicos servem como base para rotular seres individuais.

Essa visão não contradiz o fato de que, convencionalmente, é nossa mãe que estamos vendo na cadeira de rodas. Nossa mãe não existe um contínuo mental impessoal. Afinal, ela é nossa mãe nesta vida e, neste momento, está velha e decrépita. Novamente, precisamos ter em mente esses dois fatos sobre ela: sua identidade convencional como nossa mãe e sua identidade mais profunda como um indivíduo assumindo diferentes formas em inúmeras vidas.

Essa compreensão nos permite, por exemplo, não ter escrúpulos em dar uma injeção em nossa mãe se somos enfermeiros. Podemos nos relacionar com ela não apenas como nossa mãe, mas também como um indivíduo que, por acaso, é paciente em nossa enfermaria. Também nos permite tratar outros pacientes com a mesma sensibilidade compassiva que demonstramos para com a nossa mãe. Não os vemos meramente como pessoas desconhecidas para nós nesta vida. Já que podem ter sido nossa mãe em alguma vida passada, podemos nos relacionar com eles também como "mãe". Essa compreensão forma a base de muitas das meditações Mahayana sobre amor e compaixão universais.

Aumentando a Consciência de Partes e Causas

A abordagem Gelug da vacuidade-do-eu explica que tudo é desprovido de existir de maneiras fantasiosas e impossíveis. Isso não significa que as coisas não existam de forma alguma. Elas existem de maneiras que não são absurdas. Uma dessas maneiras é que tudo existe como o que é, dependendo de suas partes e causas, de seus nomes corretos e seus significados. Esse modo de existência é chamado de "originação dependente”.

A visão da originação dependente sugere uma segunda maneira de desconstruir aparências enganosas. Frequentemente, situações ou pessoas aparecem de forma enganosa como se existissem com uma identidade aparentemente concreta, estabelecida sem depender de nada além de sua própria natureza. Uma pessoa pode aparecer, por exemplo, como alguém inerentemente impossível de lidar. Ela pode de fato ser difícil de lidar agora, mas essa situação surgiu de inúmeros fatores. Quando dissecamos a situação em seus componentes e os visualizamos expostos, ela se torna menos intimidadora.

Consideremos o exemplo de ficar acordado à noite por causa da música alta que um adolescente está tocando no apartamento vizinho ao nosso. Nossa mente faz o som parecer um barulho sólido, perfurante e horrível que despedaça nosso sono e nossos nervos. Também faz o adolescente parecer "aquele moleque insuportável do vizinho que merecia levar um tiro". Ficamos tão irritados que mesmo depois que ele desliga a música, ainda não conseguimos dormir. Para interromper essa reação hipersensível e evitar que volte a ocorrer, precisamos dissecar nossa experiência.

O adolescente está tocando música alta. Nossa experiência ao ouvir esse som é o resultado de um vasto conjunto de partes e causas. Essa experiência surgiu de uma interação complexa entre um aparelho de CD, um disco compacto, um amplificador e caixas de som. Também dependeu da vibração do ar entre as caixas de som e nossos ouvidos, da vibração simpática de nosso ouvido interno, de nosso sistema nervoso traduzindo essas vibrações em mensagens eletroquímicas e transmitindo-as ao nosso cérebro e assim por diante. Além disso, o adolescente ligou o aparelho, com o uso de sua mão, que consiste em uma coleção de átomos, assim como consistem seu sistema de som, nossos ouvidos e nosso cérebro. Ademais, uma variedade de razões físicas, psicológicas e sociais podem ter se combinado para fazê-lo tocar sua música com um volume alto. Ele pode ter problemas de audição, estar sob efeito de drogas ou deprimido. Pode ter amigos visitando que deseja impressionar com seu equipamento sofisticado. Causas de vidas passadas e simplesmente o fato de ser jovem também podem contribuir para sua falta de consideração. Na verdade, o fato de ele tocar música com um volume alto surgiu a partir de um enorme conglomerado de fatores.

Para dissipar nossa reação hipersensível, precisamos desconstruir a aparência enganosa da situação como uma provação. Realizamos isso dissecando o adolescente, sua música e nosso ato de ouvi-la em seus fatores componentes. Imaginamos o evento se abrindo em uma rede de partes físicas e causas psicológicas, sociais e cármicas entrelaçadas. Fazemos isso visualizando o evento aparentemente sólido se tornando como uma meia velha e furada. Vemos por trás dele uma colagem de partes e causas. Embora não neguemos que o adolescente é uma pessoa ou que a música está alta, olhamos para ele e para o fato de que ele está tocando música a partir de outro nível. Afinal, quando olhamos uma amostra de sangue sob um microscópio potente, não negamos que ainda é sangue, apesar de sua aparência incomum.

Neste caso, a relevância da visão microscópica é que, quando despersonalizamos o som da música e a mão de quem a toca, também fazemos com que o barulho e o adolescente deixem de ser demônios. Isso nos ajuda a lidar com o fato de estarmos acordados sem ter que acusar ninguém. Permanecendo calmos, podemos colocar tampões de ouvido e, se necessário, chamar a polícia. Podemos seguir sem conseguir dormir até que ele desligue a música, mas pelo menos não ficamos perturbados.

Usando a Imagem de Ondas no Oceano

Suponhamos que preparamos um jantar e, uma hora depois do horário combinado, nosso convidado ainda não chegou. Ligamos e ouvimos que ele encontrou alguém há pouco que o convidou para uma refeição. Agora estão em um restaurante. Ficamos extremamente magoados e também furiosos.

A abordagem Karma Kagyu da vacuidade-do-outro sugere outro método para acalmar nossa reação hipersensível. Primeiro, precisamos examinar o que aconteceu. A experiência original foi que ouvimos a voz de nosso amigo no telefone dizendo que não viria jantar. Se tivéssemos deixado a experiência nisso e aceitado seu conteúdo, simplesmente teríamos comido nossa refeição e colocado a porção dele na geladeira. Talvez nos sentíssemos tristes por não termos jantado com nosso amigo, mas não nos sentiríamos pessoalmente magoados ou irritados. Porém, não foi isso que fizemos. Nossa mente rasgou a experiência em duas partes. De um lado, interpretou as palavras dele como uma aparência ou um sentimento de um "canalha sem consideração" e, de outro lado, ao ouvi-las criou um "eu" ofendido e vitimizado. Acreditando nessa aparência enganosa e dualista, ficamos perturbados por horas, incapazes de parar de pensar na ofensa.

Precisamos desconstruir essa aparência enganosa e retornar à experiência de meramente ouvir as palavras de nosso amigo. Lembrando dessa experiência, precisamos focar na atividade de luz clara que a produziu. Ao fazer isso, não destituímos a experiência de toda emoção, sentimento ou significado. No entanto, o que aconteceu não necessariamente tem que nos perturbar. Experiências são como ondas no oceano da mente, não no sentido de uma onda quebrando na praia, mas de uma ondulação que surge no meio do mar. Visualizando o evento de ouvir essas palavras como uma onda de atividade de luz clara, imaginamos essa onda se assentando naturalmente sem jamais perturbar as profundezas do oceano. Isso nos ajuda a acalmar.

Para evitar extremos, precisamos experienciar a onda de forma não dualista, do ponto de vista do oceano inteiro, de suas profundezas à superfície. Ao fazê-lo, não evitamos a onda como um submarino se escondendo do inimigo, nem deixamos que ela nos açoite como um navio na superfície. Uma onda é meramente um movimento de água. Ela não constitui o oceano inteiro.

Três Formas de Compaixão

Chandrakirti explicou três tipos de compaixão: compaixão dirigida ao sofrimento, dirigida aos fenômenos e “sem objeto". Com a primeira, olhamos para o sofrimento dos seres animados e desenvolvemos o desejo de que sejam livres tanto desse sofrimento quanto de suas causas. Uma fonte de seu sofrimento é nem terem consciência de que têm problemas, muito menos das causas desses problemas. Por exemplo, nosso amigo fica perturbado com cada pequena coisa que dá errado e vê isso como normal. Ele não entende que a hipersensibilidade é culpada e que algo pode ser feito para remediar isso. Quando vemos essa situação triste, nossa compaixão por nosso amigo se torna ainda mais forte.

A compaixão dirigida aos fenômenos olha para os seres sob o ponto de vista de suas mudanças a cada momento. Com ela, desejamos que os outros sejam livres do sofrimento e de suas causas com base na compreensão de que ambos são impermanentes. Também vemos que os outros não têm consciência desse fato e, quando deprimidos, por exemplo, pioram seus sofrimentos imaginando que durarão para sempre. Perceber isso intensifica ainda mais a compaixão por eles.

A compaixão sem objeto olha para os seres em relação à sua vacuidade. Tem o mesmo desejo que as outras duas formas, mas com base em não identificar os outros concretamente com seu sofrimento. Ver que os outros não têm essa compreensão e que consequentemente se identificam com seus problemas intensifica nossa compaixão por eles ainda mais.

Os métodos de desconstrução que delineamos destacam a impermanência e a vacuidade das pessoas em questão e revelam as causas de seu sofrimento. Praticá-los proporciona a compreensão necessária para desenvolver os três tipos de compaixão. Portanto, depois de ganhar familiaridade com os três exercícios do próximo capítulo para desconstruir aparências enganosas, completamos a sequência com uma prática para acrescentar compaixão a eles. A sensibilidade equilibrada sempre requer o desenvolvimento tanto de sabedoria quanto de compaixão.

Desenvolvendo Compaixão por Nós Mesmos para Evitar Reagir de Forma Exagerada ao Progresso Lento

Desconstruir as aparências enganosas que nossa mente cria não impede instantaneamente que nossa mente as fabrique e acredite nelas novamente. Tanto nossos instintos quanto essas aparências são compulsivos e só podem ser enfraquecidos pelo desenvolvimento de uma familiaridade total com a visão da realidade. Contudo, a familiaridade cresce por etapas, ainda que de forma não linear. Não se torna plena de uma vez. Quando compreendemos isso, ganhamos mais paciência e compaixão por nós mesmos, à medida que amadurecemos em nosso desenvolvimento.

Suponhamos, por exemplo, que somos possessivos com nosso computador. Apesar de saber que nosso parceiro sabe usar bem a máquina, instintivamente nos falta confiança. Sempre que ele a usa, ficamos rondando por perto esperando que o desastre aconteça. Nossa mente nos dá a impressão que nosso parceiro certamente o quebrará.

Quando desconstruímos essa aparência e nossa reação a ela, somos capazes de exercer autocontrole. Não ficamos em cima de nosso parceiro e não gritamos, mesmo que ele faça algo errado. Ainda assim, ficamos irritados quando algo acontece. Com a familiaridade, não ficamos mais irritados, mas ainda nos sentimos nervosos. Somente depois de muita prática paramos de nos sentir nervosos com o pensamento de que algo poderia dar errado. Até nos livrarmos completamente desse padrão de comportamento, pode ainda acontecer de gritarmos automaticamente "Não toque nisso!" quando nosso parceiro fizer um movimento inesperado no computador, nos pegando de surpresa.

Passamos por etapas semelhantes ao trabalhar com nossa resposta a acusações de nosso parceiro de que não confiamos nele. Primeiro, não gritamos de volta, embora nos sintamos irritados e magoados. Depois, não ficamos sequer irritados, mas nossa energia fica perturbada. Novamente, leva muito tempo para que nossa energia não se perturbe quando nosso parceiro grita conosco. Precisamos de um compromisso de longo prazo para alcançar o equilíbrio total.

Top