11 Validando as Aparências que Percebemos

Apresentação do Problema

A atividade mental mais básica durante cada momento de nossa experiência é produzir objetos mentais e simultaneamente lidar com eles. Porém, se o objeto real que percebemos com a consciência do espelho for meramente uma aparência que nossa mente cria, isso levantará uma questão séria. Como sabemos que a interpretação que nossa consciência da realidade faz do que vemos ou ouvimos é verdadeira?

Por exemplo, suponhamos que notamos uma expressão no rosto de nosso amigo e nossa mente faz parecer que ele está aborrecido conosco. Como sabemos que percebemos exatamente o que está acontecendo para que possamos responder adequadamente com a consciência realizadora? Afinal, a paranoia pode fazer parecer que alguém tem algo contra nós quando a pessoa simplesmente está com dor de estômago. Desse jeito, é fácil passarmos vergonha.

Confirmando a Validade Convencional do que Percebemos

O mestre budista indiano do século VI, Chandrakirti, explicou três critérios para validar qualquer percepção. Primeiro, o que percebemos precisa ser algo que a maioria das pessoas reconhece como real. Por exemplo, quando as pessoas estão aborrecidas e desaprovam alguém, podem franzir as sobrancelhas e torcer a boca. Contudo, essa convenção não é universal. Em algumas sociedades, as pessoas demonstram sua desprovação erguendo as sobrancelhas e fazendo o som "tsc". Por outro lado, os cães rosnam. Com a consciência da igualdade, precisamos identificar o que vemos ou ouvimos com a convenção social apropriada. Precisamos também aplicar a consciência da igualdade para comparar o que vemos com o padrão de comportamento individual da pessoa. Isso nos diz se nosso amigo costuma expressar aborrecimento dessa forma.

Segundo, o que percebemos não deve ser refutado por uma mente que percebe validamente os fatos convencionais da realidade: o que as coisas são. Portanto, mesmo antes de aplicar o primeiro critério, talvez precisemos nos aproximar ou colocar os óculos. Precisamos nos certificar de que o que vemos não é uma distorção causada pela distância ou visão fraca. Se não há nada de errado com nossa consciência do espelho e o que percebemos se encaixa no padrão correto, precisamos então corroborar nossa conclusão com outras evidências. Podemos observar mais e nos basear e em conversas com nosso amigo e com pessoas próximas a ele.

A raiva surge de uma ampla gama de causas e circunstâncias. Estas incluem a constituição emocional da pessoa, seus antecedentes pessoais, familiares e sociais, e um incidente que desencadeia o surgimento da raiva. Tudo o que surge de causas e circunstâncias produz efeitos. Portanto, se nosso amigo está aborrecido conosco, é provável que ele faça isto ou aquilo e reaja a nós desta ou daquela maneira. Isso acontecerá quer nosso amigo esteja consciente de sua raiva ou não, e quer esteja disposto a discuti-la ou não. Precisamos buscar mais evidências com a consciência do espelho e identificar os padrões com a consciência da igualdade.

Em resumo, a capacidade de produzir um efeito distingue se o que percebemos convencionalmente é ou não uma total invenção de nossa imaginação. Por esses dois primeiros critérios, discriminamos entre aparências reais e distorcidas e entre compreensões corretas e distorcidas do que as aparências reais convencionalmente significam. Porém, isso ainda não é suficiente.

Suponhamos que a aparência que percebemos da sobrancelha franzida de nosso amigo seja real, não uma distorção de visão fraca ou iluminação insuficiente. Suponhamos também que a pessoa tem o costume socialmente compartilhado de ter essa expressão quando aborrecida. Além disso, seguir essa convenção é o comportamento normal de nosso amigo quando está nesse estado de ânimo. Suponhamos ainda que verificamos outras evidências. Nosso amigo nos lançou um olhar duro quando chegamos e permaneceu em silêncio quando dissemos olá. Assim, nossa compreensão e rotulação do significado do que vimos estão corretas. Nosso amigo está de fato aborrecido conosco e não tem simplesmente uma dor de estômago. Ainda assim, podemos pensar que ele parece realmente ridículo por sempre ficar aborrecido e irritado. Consequentemente, podemos reagir de forma exagerada e também ficar aborrecidos. Para confirmar a validade dessa aparência, precisamos de um terceiro critério. A aparência que nossa mente produz não deve ser refutada por uma mente que percebe validamente o fato mais profundo da realidade: como as coisas existem.

Validando o Fato Mais Profundo da Realidade Segundo a Posição da Vacuidade-do-Eu

Segundo a posição da vacuidade-do-eu, conforme explicada pela tradição Gelug, o fato mais profundo da realidade é que tudo existe desprovido de modos fantasiosos e impossíveis. A menos que sejamos um ser iluminado, nossa mente cria automaticamente uma aparência enganosa de como nosso amigo existe. Ela então mistura uma aparência de um modo de existência que não corresponde à realidade com uma que corresponde. Em outras palavras, nossa mente fabrica uma aparência de um modo impossível de existência, como uma pessoa verdadeiramente ridícula. Ela então projeta isso sobre a aparência real de nosso amigo, que corresponde a como ele de fato existe, como simplesmente uma pessoa que está aborrecida conosco neste momento devido a certas causas e circunstâncias. Quando acreditamos que nossa fantasia projetada se refere a algo real e que nosso amigo realmente existe da forma enganosa como nossa mente o faz aparecer, podemos reagir de maneira exagerada. Portanto, precisamos empregar o terceiro critério para validar o modo de existência que percebemos.

Examinemos esse ponto mais de perto. A aparência confusa que nossa mente produz quando vemos a expressão carrancuda de nosso amigo é que ele é realmente uma pessoa irritado e ridículo. Nosso amigo parece ser alguém que sempre fica furioso com as coisas mais triviais e que não tem esperança e nunca vai mudar. Não parece que estamos simplesmente rotulando que vemos, de forma correta, que nosso amigo está expressando aborrecimento. Tampouco parece simplesmente que nosso amigo, que está aborrecido neste momento, é apenas o que esse rótulo significa, no que se refere aos vários aspectos de sua expressão facial e a várias causas e circunstâncias. Em vez disso, parece que podemos apontar para alguma característica inerente em nosso amigo que lhe dá a identidade aparentemente concreta de uma "pessoa realmente irritada e ridícula", por exemplo, como um defeito permanente de caráter.

Suponhamos que nosso amigo de fato existe com alguma característica inerente e passível de ser encontrada que o torna uma pessoa realmente irritada. Se fosse assim, ele ficaria aborrecido continuamente, para sempre, independentemente dos acontecimentos ou de nossas ações. Isso é absurdo. Não importa quão irritado ou aborrecido alguém possa estar no momento, ninguém existe inerentemente assim.

Portanto, se nossa mente confusa produz uma aparência de nosso amigo como inerentemente imaturo, o que faz com que o vejamos com desaprovação, impaciência e raiva, o que percebemos é invalidado por uma mente que percebe corretamente a vacuidade-do-eu. Tal aparência não se refere a nada real. Embora nosso amigo possa estar aborrecido conosco agora e possa estar agindo de forma imatura, ninguém existe como uma pessoa inerente e incorrigivelmente hipersensível. Ninguém existe com algum defeito permanente que o faça, quando aborrecido e com raiva, guardar eternamente rancor. O comportamento aborrecido e imaturo das pessoas surge dependendo de causas e circunstâncias. Quando mudamos as variáveis que afetam a situação, o comportamento da pessoa também muda.

Validando os Fatos Convencionais e Mais Profundos da Realidade Segundo o Ponto de Vista da Vacuidade-do-Outro

Segundo a explicação da vacuidade-do-outro dada na tradição Karma Kagyu, a mente de luz clara mais sutil dá origem às nossas experiências. O conteúdo de cada momento de experiência consiste em dois aspecto inseparáveis: perceber algo e algo sendo percebido. Quando instintos de confusão acompanham nossas experiências, nossa mente produz "aparências dualistas". A "produção de aparências dualistas" faz com que o aspecto perceptivo de uma experiência e o objeto percebido ao qual este se dirige pareçam ser dois fenômenos totalmente separados e sem relação. Parece que nossa mente está em algum lugar "aqui dentro" olhando para fora e que a imagem ou aparência que vemos está sentada "lá fora", esperando que a vejamos. Tal mente e objeto mental são fenômenos totalmente imaginários. Uma mente que percebe validamente os fatos convencionais da realidade contradiz esse tipo de aparência confusa.

Aparências dualistas também são refutadas por uma mente que percebe validamente o fato mais profundo da realidade, como uma mente que realiza a vacuidade-do-outro. A vacuidade-do-outro é o nível mais sutil da atividade de luz clara. Tal atividade é desprovida de todos os níveis mais grosseiros, como aqueles que produzem essas aparências dualistas e aqueles que acreditam nelas. O fato mais profundo da realidade é que a atividade pura desse nível mais sutil é simplesmente produzir experiências não dualistas. Tal atividade mental refuta todas as aparências de dualismo.

Consideremos nosso exemplo anterior. Quando encontramos nosso amigo, nossa mente de luz clara dá origem a uma aparência da imagem de seu rosto e ao ato de vê-la. Sob a influência dos instintos de confusão, um nível ligeiramente mais grosseiro de atividade mental produz então uma aparência dualista. O objeto e a mente na experiência parecem divididos em duas forças opostas. O rosto aborrecido parece ser algo verdadeiramente irritante "lá fora", que nós, espectadores inocentes "aqui dentro", tivemos o infortúnio de ver. Identificamos o confronto do objeto que aparece como um "você" concreto e a mente que o percebe como um "eu" concreto. Acreditando que essa aparência corresponde à realidade, sentimos que não conseguimos nos relacionar com nosso amigo. Achamos que ele é realmente um caso perdido, alguém que está sempre irritado e aborrecido. Também sentimos pena de nós mesmos como se fôssemos realmente uma vítima inocente, sempre atormentada de forma injusta por essa pessoa ridículo. Totalmente enojados com esses confrontos, decidimos nunca mais ver nosso amigo.

Se verificamos essa aparência de dois lados solidamente opostos, um "aqui dentro" e a outro "lá fora", percebemos que ela não corresponde à realidade. Tudo o que ocorreu no incidente foi o surgimento de uma experiência: a visão de uma imagem e essa imagem aparecendo como o rosto aborrecido de nosso amigo. É claro que o surgimento dessa imagem dependeu de nosso amigo, de nossa mente e de nossos olhos. No entanto, se queremos responder de maneira equilibrada e sensível, precisamos entender que a experiência não é composta de um herói trágico enfrentando o ataque de forças avassaladoras enviadas pelos deuses. Tal visão da experiência é uma fantasia total.

Aceitando os Fatos Convencionais da Realidade que Experienciamos de Forma Válida

Consideremos as implicações dos pontos acima para o desenvolvimento da sensibilidade equilibrada. Suponhamos, por exemplo, que olhamos para nosso rosto no espelho logo ao acordar e nos vemos gordos e velhos, com uma espinha no nariz. Sentimos nojo de nossa aparência. Quais opções temos?

Precisamos validar a precisão do que vemos. É totalmente imaginário? Verificamos a imagem e nossa avaliação dela com vários critérios. Acendendo a luz, olhamos mais de perto para o espelho. É apenas a iluminação fraca que nos faz parecer gordos? Incluímos uma sombra como parte de nosso rosto? Tocamos o nariz. Se há uma espinha ali, ela deve produzir o efeito de uma sensação física que podemos com o dedo. Além disso, nos perguntamos se em nossa sociedade o surgimento de cabelos brancos é interpretado como um sinal de que realmente somos velhos, mesmo que alguém comece a ficar grisalho aos trinta anos. Podemos ser velhos em comparação com uma criança, mas será que somos velhos em comparação com nossa avó?

Suponhamos que descobrimos que é real o que vemos no espelho e não apenas invenção de nossa imaginação. Não temos escolha senão aceitar sua realidade. Negar o que vemos, nunca mais nos olhar no espelho ou aplicar maquiagem habilmente e tingir o cabelo não pode mudar o fato de que experienciamos agora a realidade de nossa aparência. Nosso rosto é gordo, velho e tem uma espinha no nariz. A aparência de nosso rosto depois de aplicarmos cosméticos muda o que vimos quando olhamos para ele no espelho ao acordar?

Depois de determinarmos que o que estamos vendo não é uma fantasia absurda, sobra apenas uma opção razoável. Gostemos ou não, precisamos aceitar o que vemos. Nossa mente deu origem a uma aparência convencionalmente válida de um rosto gordo e velho com uma espinha no nariz e à experiência de vê-lo com clareza. Isso é tudo. Somente com base na aceitação serena de uma situação real podemos lidar com ela de forma sensível e responder com equilíbrio.

Rejeitando as Aparências que Contradizem os Fatos Mais Profundos da Realidade

Normalmente, nossa mente não dá origem à aparência de nosso rosto como meramente gordo e velho. Ela sobrepõe uma imagem de nós como realmente gordos e realmente velhos. Vendo nossa aparência assim no espelho e acreditando que seja verdade, reagimos de forma exagerada. Ficamos deprimidos e enojados. A visão do rosto que vemos não parece ser "eu" e queremos negá-la.

Contudo, se a pessoa que vemos refletida no espelho não somos nós, quem é? Certamente não é outra pessoa. Tampouco é ninguém. Não temos alternativa senão aceitar o fato de que, com base na aparência que vemos desse rosto gordo e de aparência envelhecida, temos que admitir que isso sou "eu". No entanto, quando projetamos um exagero sobre a mera aparência desse modo de existir e pensamos: "Essa é uma pessoa realmente gorda, realmente velha, que nojo!" e quando identificamos "eu" com alguém tendo o corpo de uma estrela de cinema jovem e sexy, mergulhamos no reino da fantasia. Nós nos identificamos com a pessoa que olha no espelho e comenta em nossa cabeça. Consideramos que essa pessoa horrorizada é um “eu" sólido, alguém que nos faz vaidosos e que nos deixa preocupados por estar realmente gorda e velha. Além disso, identificamos a figura horrorosa que vemos no espelho como algo que certamente não é "eu" e a rejeitamos completamente.

Parece que há duas pessoa concretas presentes: (1) uma, indignada, sentada em nossa cabeça, olhando através de nossos olhos e existindo concretamente como "eu" e (2) uma velha, gorda e horrível, olhando para nós do espelho e existindo concretamente como alguém que não tem absolutamente nada a ver com o nosso "eu". Esse sentimento dualista não se refere a nada real. Não existimos como a Bela olhando para a Fera, apesar do que possamos pensar ou sentir.

Isso não significa que precisamos ser mártires e nos resignar a ser a Fera. Isso só nos faria sentir pena de nós mesmos ou reprimir nossas emoções. Assim como não nos identificamos com a Bela, também não nos identificamos com a Fera. A Bela e a Fera são personagens de ficção. Ninguém pode existir como nenhum dos dois. Uma compreensão correta do vacuidade-do-eu corrobora esse fato. Quando compreendemos esse ponto, rejeitamos as aparências e sentimentos percebemos como totalmente absurdos. Nossa compreensão profunda estoura o balão de nossas fantasias. Consequentemente, evitamos ou paramos de reagir de forma exagerada. Isso acontece mesmo que nossa família ou sociedade nos tenha ensinado a nos considerar uma Bela ou uma Fera, e mesmo que outros nos tenham tratado como tal. Nossa convicção na realidade dissipa nossa crença na opinião superficial deles.

Uma mente que foca corretamente na vacuidade-do-outro também invalida a aparência dualista da Bela e da Fera. Nossa mente de luz clara está simplesmente produzindo a experiência de ver uma imagem. Quando focamos nessa atividade mental pura, podemos rejeitar a aparência dualista do ver e da imagem como sendo a Bela e a Fera. O dualismo imaginado aqui é como as duas capas de um livro aberto de fantasias. Nossa compreensão profunda fecha o livro, encerra o conto de fadas e nos devolve à realidade. Assim, também evitamos ou paramos de reagir de forma exagerada.

Podemos entender o processo de rejeitar a fantasia considerando o exemplo de alguém vestido de Papai Noel. Quando percebemos que o Papai Noel é apenas um mito, podemos facilmente dissipar nossa crença de que a pessoa existe como quem ela aparenta ser. Focando na ausência de um Papai Noel real, podemos ver a pessoa por baixo da fantasia como quem ela realmente é. Consequentemente, podemos relaxar e nos divertir durante o encontro. Contudo, descartar uma ilusão requer gentileza, compreensão e perdão. Caso contrário, infligimos um dano sério a nós mesmos pensando que fomos idiotas e sentindo culpa por termos nos sentido ou nos comportado dessa forma.

Exercício 11: Validando as Aparências que Percebemos

Começamos a primeira fase deste exercício imaginando que, depois do jantar, vemos nossa pia cheia. Parece uma pilha de pratos sujos, mas gostaríamos que fosse outra coisa. Imaginamos usar vários critérios para validar o que vemos. Por exemplo, acendemos a luz e verificamos se a pia está de fato cheia de pratos sujos ou de pacotes de comida congelada que estão descongelando. Depois de confirmar que são de fato pratos sujos, não temos escolha senão aceitar que é real o que estamos vendo. Imaginamos olhar para os pratos com aceitação serena, tentando vê-los como o que são, simplesmente pratos sujos na pia, nada mais e nada menos.

Em seguida, recordamos ter visto tal cena e tentamos lembrar da imagem e como nos sentimos. Achamos talvez que estava uma bagunça nojenta e, relutando em lavá-los, nos sentimos como uma princesa, refinada demais para sujar as mãos. Pensando em tal cena agora, tentamos reviver esse sentimento. Percebemos que exageramos. São apenas pratos sujos na pia e somos apenas um adulto responsável que precisa lavá-los. Pratos sujos não são inerentemente nojentos, não somos nenhuma princesa e lavar os pratos não é nenhum grande problema.

Percebendo o absurdo de nossa visão melodramática, nós a rejeitamos imaginando como a clareza de nossa compreensão profunda estoura o balão de nossa fantasia. Então, tentamos focar na ausência de qualquer coisa encontrada dentro de nós. Não dá para achar uma bagunça nojenta e uma princesa imaculada dentro de nós, simplesmente porque não são reais.

Precisamos nos certificar de que, ao rejeitar nossa fantasia, não a descartamos como se estivéssemos trocando de canal na televisão. Se encararmos nossa fantasia assim, podemos em breve voltar ao mesmo programa. Descartá-la com a imagem de um balão estourando nos ajuda a parar de fantasiar exageradamente. Precisamos sentir que a história acabou para sempre.

Além disso, quando concebemos a fantasia de um "eu" concreto sendo vencido por um "eu" concreto ainda mais forte, empunhando uma "compreensão profunda" concreta ainda mais poderosa, simplesmente mudamos para outro nível de aparência dualista e fantasiosa. O estouro do balão é uma forma de atividade mental que ocorre sem um agente concreto em nossa cabeça que o faça acontecer.

Reforçamos nossa rejeição da fantasia notando que simplesmente vimos uma imagem. De forma exagerada, nossa imaginação criou e projetou sobre ele a aparência dualista de um "eu" aparentemente concreto e pratos aparentemente concretos. Essa aparência é uma fantasia. Percebendo isso, imaginamos que nosso livro de contos se fecha abruptamente. O conto de fadas "A Princesa Enfrenta a Bagunça Nojenta" acabou. Visualizando o livro de fábulas se dissolvendo em nossa mente, tentamos focar no fato de que o drama dualista era apenas uma produção de nossa imaginação. Depois de rejeitar nossa fantasia dessa forma, tentamos nos imaginar calmamente lavando os pratos, sem pensar em nós como mártires ou servos.

Em seguida, olhamos para uma foto ou simplesmente pensamos em alguém com quem moramos que costuma deixar pratos sujos na pia durante a noite. Se moramos sozinhos, podemos focar em alguém que conhecemos que é assim e imaginar que moramos juntos. Primeiro, imaginamos ver a pia cheia de pratos pela manhã. Antes de tirar conclusões precipitadas, imaginamos que estamos verificando de quem era a vez de lavar a louça na noite anterior. Se era responsabilidade dessa pessoa, tentamos imaginar que aceitamos calmamente o fato de que ela não a lavou. Foi só isso que aconteceu, nada mais.

Então examinamos como nos sentimos ao pensar na pessoa. A maioria se lembra de um momento desses, tende a pensar na outra pessoa como um "folgado" e em si mesmo como uma vítima sobrecarregada e cheia de razão que não aguenta mais esse tipo de atitude. Pensamos então que ninguém como um folgado, incapaz de lavar a louça, ou como uma vítima que sempre tem que limpar a bagunça dos outro. Percebendo o exagero de nossa fantasia, nós a rejeitamos imaginando o balão que estoura. Tentamos focar na inexistência desses personagens fictícios dentro de nós.

Reforçamos o processo de descartar nossa fantasia tentando perceber que estamos reagindo de forma exagerada a uma aparência dualista. Imaginando o livro de contos "O Folgado e a Vítima Cheia de Razão" se fechando e se dissolvendo em nossa mente, focamos no fato de que o conto de fadas veio de nossa imaginação. Tudo o que aconteceu foi que a pessoa deixou os pratos sujos durante a noite.

Depois de esclarecer que era uma fantasia, agora lidamos racionalmente com a realidade da situação. Por exemplo, tentamos imaginar que ficamos quietos e esperamos pacientemente até que a pessoa lave a louça depois do café da manhã, se esse for o hábito dela. Ou então, se precisarmos lembrar à pessoa o que ela tem que fazer ou redistribuir as tarefas domésticas, tentamos imaginar que fazemos isso com calma, sem culpar ninguém.

Em seguida, nos voltamos para outras cenas perturbadoras de nossa vida pessoal, seja em casa, no escritório ou em nossos relacionamentos pessoais. Seguimos o mesmo procedimento para validar e aceitar a realidade do que vimos ou ouvimos. Uma vez que aceitamos o que realmente aconteceu, examinamos, reconhecemos e tentamos abandonar os exageros dualistas que nossa mente julgadora possa ter projetado. Fazemos isso lembrando a nós mesmos que nossas fantasias sobre opressores, vítimas e assim por diante são simplesmente absurdos que vêm de nossa imaginação. Imaginando os balões dessas fantasias estourando e o livro de contos se fechando e se dissolvendo em nossa mente, tentamos voltar a ver a situação como ela realmente é.

A segunda fase do exercício começa em círculo, com um grupo, e nos concentramos em uma pessoa por vez. Olhamos com cuidado para confirmar a aparência convencional que vemos da pessoa, por exemplo, como alguém que pinta o cabelo ou usa um brinco e assim por diante. Sem comentários mentais, tentamos aceitar a realidade do que vemos. Então tentamos notar a aparência da pessoa e como nos sentimos a respeito dela. Por exemplo, a pessoa pode parecer vaidosa demais, ou pode parecer alguém bobo que segue qualquer modinha, ou a coisa mais sedutora ou ameaçadora do mundo. Além disso, podemos nos sentir como um juiz autoproclamado ou como o sobrevivente de um naufrágio em uma ilha deserta, desesperado por companhia. Tentamos descartar essas imagens e sentimentos imaginando o balão estourando e o livro de contos se fechando e se dissolvendo em nossa mente. Então, tentamos olhar para a pessoa com aceitação, sem nos sentir culpado ou tolos pelo que sentimos.

Logo, repetimos o procedimento sentados de frente para um parceiro, trabalhando com a aparência dele. Depois, indo mais fundo, notamos quaisquer sentimentos de nervosismo ou medo que possamos ter. Especificamente, tentamos notar e descartar qualquer sentimento de nós mesmos como um "eu" aparentemente concreto em nossa cabeça confrontando um "você" aparentemente concreto sentado atrás dos olhos dessa pessoa. Usando as imagens do balão estourando e do livro de contos se fechando e se dissolvendo em nossa mente, notamos o profundo alívio, a afetividade e a abertura naturais que essa rejeição da fantasia proporciona.

A terceira fase do exercício começa olhando para nós mesmos no espelho. Verificando a realidade do que estamos vendo, tentamos aceitar sem julgamentos. Tentamos abandonar quaisquer sentimentos que possamos ter da Bela e da Fera, novamente estourando o balão da fantasia e fechando e dissolvendo o livro de contos de fadas. Se estamos praticando em casa e temos os recursos, podemos repetir o exercício enquanto ouvimos nossa voz em um gravador, e depois enquanto assistimos a um vídeo de nós mesmos.

Durante a segunda parte desta fase, sentamos em silêncio e tentamos notar o que estamos sentindo. Verificamos se nossa avaliação corresponde à realidade. O que sentimos é simplesmente o que decidimos de antemão que estamos sentindo ou é como realmente nos sentimos agora? Se estamos realmente nos sentindo solitários ou contentes, ou até mesmo se não estamos sentindo nada, tentamos aceitar o que sentimos sem fazer julgamentos. Se percebemos como clareza que, além disso, estamos sentindo pena de nós mesmos, sentindo culpa pelo que estamos sentindo, ou nos sentindo totalmente incapazes de sentir qualquer coisa, tentamos aceitar a presença dessas impressões também. Caso contrário, podemos nos sentir culpados por nos sentir culpados. Tentamos reconhecer que podemos estar exagerando e dando importância demais aos nossos sentimentos. Percebendo isso, rejeitamos a impressão exagerada que temos de nossos sentimentos. Estouramos o balão, fechamos e dissolvemos o livro de contos, e notamos que nos sentimos bem melhor. Agora conseguimos lidar com nossos sentimentos com mais equilíbrio.

Por último, olhamos para a série de fotos nossas ao longo da vida e repetimos o exercício. Direcionando nossa análise às aparências que vemos e aos sentimentos que elas suscitam, tentamos nos aceitar como realmente éramos naquela época. Se as lembranças dos sentimentos daqueles tempos nos parecem exageradas ou se ainda temos sentimentos exagerados em relação àqueles tempos, estouramos o balão, fechamos o livro de contas e o dissolvemos em nossa mente. Depois, continuamos calmamente olhando para as fotos.

Estrutura do Exercício 11: Validando as Aparências que Percebemos

I. Ao Focar em Algo de Nossa Vida

1. Ao focar em um incidente perturbador

  • Imaginamos que nossa pia parece estar cheia de uma pilha de pratos sujos, mas gostaríamos que fosse outra coisa
  • Imaginamos que estamos validando a aparência, acendendo a luz e olhando mais de perto para ela
  • Tendo confirmado que a pia está cheia de pratos sujos, imaginamos que estamos olhando para eles com uma aceitação serena do que são
  • Recordamos ter visto que os pratos pareciam uma bagunça nojenta e que, em nossa relutância em lavá-los, nos sentimos como uma princesa, refinada demais para sujar as mãos
  • Revivemos esse sentimento e então pensamos que estamos exagerando a situação
    • São apenas pratos sujos na pia, não uma bagunça inerentemente nojenta
    • Você é apenas um adulto responsável que precisa lavá-los, não uma princesa imaculada
  • Rejeitamos a fantasia imaginando que a clareza de nossa compreensão profunda a estoura como um balão e focamos na ausência de qualquer coisa passível de ser encontrada lá dentro
    • Não tem como achar uma bagunça inerentemente nojenta e uma princesa imaculada, simplesmente porque não são reais
  • Percebemos que estávamos criando e reagindo a uma aparência dualista e exagerada dos pratos e de nós mesmos, tudo que aconteceu foi que simplesmente vimos uma imagem
  • Rejeitamos a fantasia imaginando o livro de histórias "A Princesa Enfrenta a Bagunça Nojenta" se fechando e se dissolvendo em nossa mente
  • Focamos no fato de que o drama dualista era meramente uma produção de nossa imaginação
  • Imaginamos calmamente lavar os pratos, sem pensar que somos um mártir ou um serviçal

2. Enquanto focamos em uma foto ou pensamos em alguém que vive conosco ou que conhecemos e deixa com frequência pratos sujos na pia à noite.

  • Imaginamos que vemos a pia cheia de pratos pela manhã e depois vemos a pessoa
  • Antes de tirar conclusões precipitadas, imaginamos que estamos verificando de quem era a vez de lavar a louça na noite anterior
  • Se era responsabilidade dessa pessoa, imaginamos que estamos aceitando com calma o fato de que ela não lavou
  • Recordamos tal experiência e como a pessoa nos apareceu ser um "folgado" e como nós, cheio de razão, nos sentimos a vítima sobrecarregada
  • Lembramos que ninguém existe como um folgado incapaz de lavar a louça ou como uma vítima que sempre tem que limpar a bagunça dos outros
  • Rejeitamos a fantasia imaginando que o balão estoura e focando na inexistência desses personagens fictícios lá dentro
  • Imaginamos o livro de histórias "O Folgado e a Vítima Cheia de Razão" se fechando e se dissolvendo em nossa mente, e focamos no fato de que o conto de fadas veio de nossa imaginação
  • Imaginamos que esperamos pacientemente que a pessoa lave a louça depois do café da manhã, se esse for o hábito dela, ou lembramos a ela com calma

3. Repetimos o procedimento concentrando-nos em outras cenas perturbadoras de nossa vida pessoal

II. Enquanto nos concentramos pessoalmente em alguém

1. Sentados em círculo com um grupo, nós nos concentramos em uma pessoa por vez durante toda a sequência

  • Olhamos com cuidado para confirmar a aparência convencional que vemos dela, por exemplo, como uma pessoa que pinta o cabelo
  • Sem comentários mentais, aceitamos a realidade do que vemos
  • Notamos como a pessoa aparece para nós e como nos sentimos, por exemplo, a pessoa pode parecer muito vaidosa e podemos nos sentir como o juiz autoproclamado
  • Descartamos essas imagens e sentimentos imaginando o balão estourando eo livro de histórias se fechando e se dissolvendo em nossa mente
  • Olhamos para a pessoa com aceitação, sem sentir culpa ou achar que somos tolos por termos sentido isso

2. Repetimos o procedimento de frente para um parceiro

  • Depois de repetir o procedimento, notamos quaisquer sentimentos de nervosismo ou medo e, especificamente, qualquer sentimento de um "eu" concreto em nossa cabeça confrontando um "você" concreto sentado atrás dos olhos dessa pessoa
  • Imaginamos o balão dessa fantasia estourando e o livro de contos se fechando e se dissolvendo em nossa mente
  • Notamos o profundo alívio, a afetividade e a abertura naturais depois de soltarmos a fantasia

III. Enquanto nos concentramos em nós mesmos

1. Repetimos o procedimento enquanto nos olhamos no espelho

  • Rejeitamos aparências e sentimentos dualistas, como os da Bela e da Fera

2. Repetimos o procedimento sem espelho, validando o que achamos que estamos sentindo no momento e as impressões que temos sobre esses sentimentos

3.Repetimos o procedimento enquanto olhamos para fotografias nossas ao longo da vida, validando as aparências que vemos e os sentimentos que elas suscitam

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