Chittamatra, Svatantrika e Prasangika: O “Eu”

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A Falta de Consciência a Respeito de Como Existimos e as Emoções Perturbadoras

Estamos falando do "eu", de como eu existo? Esta é uma pergunta crucial no budismo. Quando não temos consciência a respeito de como existimos e como tudo mais existe, quando não sabemos ou sabemos de maneira incorreta, temos todo tipo de emoções perturbadoras. A maneira como experimentamos essa falta de consciência ou confusão é nos sentindo inseguros; e como nos sentimos inseguros, temos essa compulsão - e agora entra o carma ou hábito - temos que, de alguma forma, tentar nos proteger.

Na verdade, primeiro vêm as emoções perturbadoras, e essas emoções perturbadoras são mecanismos com os quais sentimos que de alguma forma podemos estar seguros. Algumas emoções perturbadoras são destrutivas, outras neutras. Por exemplo, a emoção perturbadora da raiva e da hostilidade seria: “se eu pudesse me livrar de determinadas coisas, então estaria seguro”. Isso leva a um comportamento agressivo compulsivo. Ou sentimos que: “se eu conseguisse determinadas coisas, ou conseguisse manter determinadas coisas, isso me deixaria seguro”. Isso leva ao desejo de obter o que não temos. Temos apego, não queremos largar o que temos; e ganância, queremos mais. Nunca estamos satisfeitos. Isso é destrutivo. Isso nos leva a um comportamento destrutivo.

Existem também certas atitudes perturbadoras que estão por traz tanto do comportamento destrutivo quanto do construtivo. É por isso que elas são consideradas neutras ou, mais especificamente, não especificadas; podem ser construtivas ou destrutivas. Por exemplo, há uma muito dominante. É um termo muito técnico: uma atitude iludida em relação a uma rede transitória. Isso se refere, de certa forma, a jogarmos essa rede do "eu" e "meu" em tudo. Essa rede transitória está se referindo à rede de nossos agregados, corpo, mente e assim por diante. Estamos sempre jogando essa ideia do "eu", tipo “eu sou o possuidor”, nos objetos que temos que ter como "meu". Com base nisso, podemos ter emoções destrutivas ou também emoções construtivas. Por exemplo, "eu", tenho que ser perfeito; esse é o meu corpo, esse sou "eu" e preciso ser perfeito. Fazer musculação e essas coisas pode ser algo neurótico e compulsivo, porque estamos identificando o "eu" com um corpo e sempre com a nossa aparência - esse tipo de coisa.

A definição de uma atitude ou emoção perturbadora é: aquela que quando surge nos faz perder a paz de espírito e nos faz perder o autocontrole. Nós agimos compulsivamente. O problema é que estamos tentando proteger algo que nem existe, então não há como proteger. É inútil. Estamos tentando garantir a segurança de um eu impossível, algo que simplesmente não existe. Nós não existimos assim. Esta é a razão pela qual este tópico é tão importante.

Encobrimos o eu grosseiro impossível e o eu sutil impossível. No budismo, o Vaibhashika refuta apenas o eu grosseiro. Todo mundo refuta o eu grosseiro impossível e o eu sutil impossível. O grosseiro é algo que tivemos que aprender. O sutil surge automaticamente, embora também possamos tê-lo aprendido com o Vaibhashika.

O Entendimento Necessário para Alcançar a Libertação e a Iluminação

Agora, com exceção do Prasangika, todos os outros sistemas filosóficos budistas dizem que isso é tudo o que precisamos entender para obter a libertação. Só precisamos entender que o “eu” é desprovido de existir dessas maneiras impossíveis. Se entendermos isso, não teremos mais emoções ou atitudes perturbadoras. Portanto, não teremos comportamentos compulsivos; não teremos mais carma. Não criaremos mais tendências e potenciais cármicos. Não teremos emoções ou atitudes perturbadoras que poderão desencadear essas tendências e atitudes no momento da morte e, portanto, não teremos um renascimento incontrolavelmente recorrente, o samsara.

Todo esse mecanismo é descrito pelos “doze elos do surgimento dependente”. As escolas Mahayana afirmam que essas maneiras impossíveis de existir não se aplicam apenas ao eu. Se aplicam às formas impossíveis de existir de todos os fenômenos. Isso precisa ser refutado também. Quando chegamos aos princípios Mahayana, se queremos alcançar a iluminação, precisamos entender a vacuidade de todos os fenômenos, incluindo o “eu”.

Portanto, temos que desconstruir ainda mais o eu. O Chittamatra e o Svatantrika dizem que, para alcançar a libertação, precisamos apenas do entendimento que tínhamos antes, com o Sautantrika. O “eu” é desprovido de existir como uma alma grosseira ou sutil. Isso é suficiente para alcançar a libertação. Mas, se quisermos alcançar a iluminação, teremos que entender a vacuidade de todos os fenômenos, inclusive do “eu”. O Prasangika discorda, afirmando que, mesmo para alcançar a libertação, temos que entender a vacuidade de todos os fenômenos, inclusive do “eu”. Essa, na verdade, é uma grande diferença.

A Desconstrução Adicional do Eu

Vamos olhar para o Chittamatra. Antes de mais nada, o que eles acrescentam aqui, refinando a visão do Sautrantika, é que o “eu” não tem um fim, um parinirvana; enquanto o Vaibhashika e o Sautrantika dizem que o “eu” tem um fim, o Chittamatra diz que continua depois que morremos, mesmo que tenhamos alcançado a libertação ou a iluminação. O Chittamatra também diz que o “eu” carece de existência como um eu que é externamente existente. No que diz respeito às cinco coisas que o eu e a consciência podem, ou não, compartilhar, de acordo com o Sautrantika, eles não compartilham a mesma fonte natal; só podemos conhecer o eu com base em também conhecer simultaneamente sua base de imputação. Então, eu só posso ver você ao mesmo tempo que vejo um corpo. Mas seu corpo vem de uma fonte externa, enquanto minha consciência vem de uma fonte natal interna, uma semente de carma no meu contínuo mental.

O Chittamatra diz que tanto o corpo que vejo quanto minha consciência vêm da mesma fonte natal. Eles vêm da mesma semente de carma: a consciência, o corpo e o “eu”. Dessa mesma semente de carma, desse potencial cármico, vem a consciência e o holograma mental do corpo. E como o eu é uma imputação no corpo, o holograma também será um holograma do “eu” ou do “você”. Por exemplo, quando me olho no espelho, ou olho para você, ou penso em alguém, o holograma mental de um corpo e de um “eu” vêm da mesma semente que a consciência desse holograma. Todos os fatores mentais envolvidos também vêm dessa mesma semente. Esse “eu” é um fenômeno dependente, assim como o corpo, que é sua base de imputação. Ele muda de momento a momento, e sua existência não pode ser estabelecida apenas em termos da cognição conceitual dela. Nós podemos nos ver. Mas, de acordo com o Chittamatra, o “eu” ainda possui um código de barras que estabelece sua existência. Esse código de barras existe por parte da base de imputação do “eu”.

Aqui no Chittamatra, ao invés da base que está lá em todas as vidas, a consciência mental, eles falam de algo chamado consciência fundamental. É claro que eles aceitam que há uma consciência mental que continua; mas estão dizendo que essa não é a base para a imputação do eu ou que contém o código de barras. O que contém o código de barras é essa consciência fundamental, que é alayavijnana, em sânscrito. Às vezes, é chamada de "consciência armazém" em inglês. Essa é a base de imputação das tendências do carma, das memórias e de todo tipo de coisa. Mas, de qualquer forma, é a mesma ideia de que o código de barras do eu, assim como o próprio eu, são encontrados na base de imputação, que é algum tipo de consciência.

O Chittamatra, no entanto, diz que os códigos de barras que o eu e todos os fenômenos possuem são apenas os códigos de barras de objetos singulares validamente conhecíveis. Eles não têm as informações do código de barras de ser homem, mulher, humano, minhoca, cachorro, fantasma ou o código de barras de bom, ruim, grande, pequeno. Tudo isso vem na cognição conceitual das categorias. Isso é muito importante. Não somos inerentemente nenhuma forma de vida em particular, nenhum gênero em particular ou algo assim. Mas, o “eu” continua, vida após vida em qualquer corpo ao qual esteja associado, e isso é gerado a partir de tendências cármicas. Não há nada inerente por parte do código de barras que o torne qualquer forma de vida ou gênero ou qualidade como bom, ruim, grande, pequeno etc.

Isto é muito importante. Quando não entendemos isso, jogamos essa rede de "eu" em algum aspecto com o qual nos identificamos, como: "eu sou um homem" ou "eu sou uma mulher". "Um homem deve agir assim" ou "uma mulher deve agir assim”, e então ficamos realmente neuróticos com o comportamento compulsivo, tentando provar isso. Sentimos que temos que provar isso. Temos que estabelecer isso, com o que fazemos e como agimos, mas nunca nos sentimos seguros, por isso estamos sempre tentando neuroticamente provar alguma coisa. Isso pode nos levar a um comportamento destrutivo, a um comportamento construtivo compulsivo ou a um comportamento neutro, como prestar atenção ao seu cabelo, porque o cabelo de um homem deve ser assim e o de uma mulher assado.

O Mito

Tudo é baseado no mito. É isso que precisamos entender. Não há nada aqui a provar. Convencionalmente, sou homem, todos concordam e, embora agora eu tenha características de homem ou, se eu fosse mulher, de uma mulher, isso não estabelece esse gênero permanentemente como minha identidade inerente. OK? Então, isso começa a ficar bem interessante do ponto de vista psicológico. Esse insight do Chittamatra explica bastante sobre o comportamento compulsivo. Se queremos nos tornar um Buda iluminado e ajudar a todos, temos que superar esse tipo de visão incorreta sobre nós mesmos e sobre todos os demais seres. Temos que superar isso se quisermos conseguir ajudá-los a alcançar a libertação e a iluminação. Mas, lembre-se, os Chittamatrins dizem que ainda existe um "eu" encontrado em sua base de imputação.

Agora vamos para o Svatantrika, que tem dois ramos: Sautrantika Svatantrika e Yogachara Svatantrika. O Sautrantika Svatantrika - diz que a fonte natal do eu, e do corpo como base para a imputação, é externa e não interna. Embora a consciência e os fatores mentais deem origem ao holograma mental, isso é apenas atividade mental, é como a atividade mental funciona. Mas a fonte do corpo são os elementos externos, como os de seus pais e tudo isso. Eles servem como circunstância para o holograma mental surgir. Portanto, isso é contrário à afirmação do Chittamatra.

O Svatantrika diz que o impossível é estabelecer a existência do eu apenas por parte do objeto ou apenas com base na rotulação mental. Tem que ser uma combinação dos dois. Para colocar em uma linguagem bem simples, os objetos têm características definidoras individuais que vem deles, não apenas as características dos objetos singulares conhecíveis, mas também características específicas [do objeto], como as características físicas de um [determinado] corpo. Gatos têm certas características físicas e cães têm outras. Mas essas características por si só não podem ser conhecidas como características de gato ou cachorro independentemente dos conceitos ou categorias “gato” e “cachorro”. Apenas no contexto dos rótulos mentais das categorias “gato” ou “cachorro” é que elas podem ser estabelecidas como características de gato ou cachorro.

Características físicas são apenas carne em formatos diferentes. Se você as visse, sem os conceitos “gato” ou “cachorro”, você não as tomaria cognitivamente como um animal, como um gato ou um cachorro. Um bebê, por exemplo, vê a criatura apenas como algo vivo. Você precisa dos conceitos de gato e cachorro para considerar a criatura um gato ou um cachorro. Mas os conceitos de gato e cachorro, por si só, sem as características físicas por parte da criatura viva, também não podem estabelecer a criatura como sendo um gato ou um cachorro. Você precisa do conjunto: as características definidoras e os conceitos ou categorias com a rotulação mental.

Então, como faço para estabelecer que sou homem? O Svatantrika diz que não é que tenhamos um eu neutro e que, nesta vida, estou vivendo como homem. Não existe um eu “em branco”. O ponto aqui é que nunca há um momento em que eu sou um eu “em branco”. Quando haveria um momento em que o eu estaria em branco? Não há nenhum momento. Sempre, a cada momento, o “eu” é uma imputação nos agregados e os agregados, por exemplo, o corpo, terão características físicas. Essas características, no contexto da rotulação mental, me estabelecem agora como homem. Isso nos coloca um pouco mais em cada momento da experiência, não é?

Agora eu sou um homem com as características de um homem e o que estabelece que eu sou um homem são essas características e o rótulo homem, a categoria homem. Agora eu estou falando, então há uma característica por parte do que está acontecendo com meu corpo, o som saindo e o conceito de falar e comunicar. Eu não estou apenas fazendo sons. Felizmente, agora estou dizendo algo construtivo. Por parte do som das minhas palavras e seus significados, existem características que podem ser validamente rotuladas como construtivas e existe o conceito de "construtivo". Junto, isso estabelece as palavras como sendo construtivas. Claro, o que estou dizendo está mudando de momento a momento, não é? Então, às vezes estou dizendo algo construtivo e às vezes algo que é pura bobagem. A cada momento é assim. A mesma análise é verdadeira para o eu. Existem características identificáveis de um eu, e estas, em combinação com o conceito ou categoria "eu", estabelecem a existência de um eu.

Onde podemos localizar o eu? O Svatantrika diz que o eu ainda é uma referência, e volta à posição de que as características definidoras do eu estão na continuidade da consciência mental. Então, o que é dito aqui no Svatantrika fica bastante sutil. O Svatantrika afirma que, convencionalmente, as coisas parecem ser o que são e que isso estabelece que elas existem. Isso é ser convencionalmente existente. Em outras palavras, quando você examina e analisa convencionalmente, é isso que você encontra: o "eu" convencional que aparece com essa base de imputação. Ele parece existir independentemente de nomes, cognição e rótulos mentais. Mas quando analisamos a verdade mais profunda, a vacuidade, podemos encontrar a total ausência desse modo impossível de existir. Você encontra a vacuidade disso. Então, convencionalmente, você pode encontrar e, no nível mais profundo, não encontra. Convencionalmente, você pode encontrar o objeto de referência. Aí está, por trás daquilo a que o rótulo mental se refere, meio que o sustentando. Aí está. E no nível mais profundo, quando você analisa, não é possível encontrá-lo existindo por si próprio.

A Posição do Prasangika

Claro que agora aparece o Prasangika e diz: não, não, não. Um eu impossível, esse eu impossível não existe. Você está dizendo que, apenas porque ele aparece, existe convencionalmente. O Prasangika diz que isso é confuso, porque a aparência enganosa de uma existência verdadeiramente estabelecida também aparece. Se analisamos no nível convencional ou no nível mais profundo, não é possível encontrar o objeto de referência.

Então, o que estabelece que eu existo segundo o Prasangika? A única coisa que você pode dizer que estabelece sua existência é aquilo a que a categoria "eu" e a palavra "eu" se referem, com base nos agregados que estão em constante mudança, corpo e mente. Você não consegue encontrar nada na base de rotulamento. Não é possível encontrar nada que esteja estabelecendo o "eu" e que possa ser encontrado no "eu" ou na base. No entanto, o eu possui, em certo sentido, um código de barras que faz de “mim” um indivíduo. Assim sendo, eu não sou você, eu sou "eu", não sou uma mesa, sou "eu".

Mas o eu, assim como qualquer outra coisa, não tem sua existência estabelecida pelo código de barras. Lembre-se de que todas as outras escolas dizem que o código de barras, em certo sentido, estabelece sua existência ou a existência de algo, porque é como se ele fosse envolto em plástico. Então, torna-se uma coisa, um objeto de referência que está lá, embrulhado em plástico, e o código de barras dentro dele é que está fazendo isso. O Prasangika diz que não. Não existe tal coisa. O “eu” tem um código de barras porque é singular e a única coisa que a característica definidora faz é torná-lo singular, de forma que “eu” não sou “você”. Isso não cria uma borda sólida em torno das coisas, em torno do "eu". Isso cabe totalmente na discussão sobre o surgimento dependente, porque se eu estivesse envolto em plástico e todas as minhas características estivessem lá, eu não poderia mudar, não poderia interagir com ninguém e não poderia fazer nada. Eu ficaria congelado no plástico.

Portanto, o Prasangika é considerado o entendimento mais profundo e sutil. Para entender o Prasangika, precisamos seguir passo a passo a refutação, nas várias escolas, porque se você não fizer isso, a posição do Prasangika se tornará trivial. O Pransangika diz que você não consegue encontrar o “eu”; então você procura. O eu está debaixo do seu braço? Está no seu nariz? Está no seu estômago? Não, você não consegue encontrar. Isso é trivial, não é? Claro que você não consegue encontrar. OK? É muito trivial.

Mas eu entendo que esteja falando, no processo de rotulamento mental, sobre o objeto de referência dentro da base de rotulamento. Aquilo de que estamos falando é muito, muito específico, muito sutil. Não há nada por parte deste corpo que o torne "eu", nenhum pequeno código de barras que diga que sou "eu", que é o Alex. Não há nada por parte do corpo; o Alex, toda a categoria Alex, o Alex bebê, adolescente, jovem adulto etc., todos eles podem ser imputados em uma base e receber um nome. Esse é o Alex? Sim, esse é o Alex. Não é o Patrick. Mas, não há um objeto de referência dentro desse corpo.

Esta é a posição Prasangika e, quando se entende isso, não se tem emoções perturbadoras. Não se tem comportamentos compulsivos etc. Entendemos realmente que não há absolutamente nada a provar, nada que precise ser protegido. Então, podemos parar de nos preocupar. Não há nada com que se preocupar. Apenas continue com sua vida. Claro que isso não é tão simples; no entanto, a solução para entender e superar todos os vários problemas que temos é simplesmente entender como existimos e que somos desprovidos de existir de maneiras impossíveis.

A Importância de Todas as Quatro Escolas

Todos esses quatro sistemas filosóficos vêm do Buda, de acordo com a explicação budista tradicional. O Buda ensinou muitos métodos diferentes, muitas explicações diferentes para se adequar às diferentes mentalidades, inteligências e assim por diante. Ele não os ensinou para entediar as pessoas. Ele os ensinou para as ajudá-las a superar seus problemas. As chamadas escolas inferiores nos ajudam a superar um certo nível de problema. Mas, precisamos de escolas mais sutis. É por isso que precisamos ir fundo, e isso nos leva ao rotulamento mental, à posição Prasangika, a fim de nos livrarmos do equívoco mais sutil.

Perguntas

Quanto tempo leva para realmente entender isso?

Você não vai gostar da resposta. Para entender isso, você precisa acumular uma quantidade enorme de força positiva. O termo força positiva é geralmente traduzido como mérito, mas acho que é uma palavra horrível. Parece uma transação comercial. Você precisa trabalhar e, então, ganha isso como recompensa. Não tem absolutamente nada a ver com isso. Certamente também não estamos falando de uma coleção de méritos. Não sei se você tem isso aqui na Áustria, mas em outros lugares você vai ao supermercado e toda vez que compra algo, recebe uns selos. Você os junta e, quando chega a um certo número, ganha uma torradeira ou um prêmio. Não é assim.

Estamos falando de uma rede. Rede é um termo muito útil aqui. Se usarmos o exemplo da física, é como se estivéssemos falando de uma transição de fase. Uma transição de fase, por exemplo, é: se você colocar energia suficiente no gelo, ele chegará a um certo ponto crítico e depois se transformará em água. Então você coloca mais energia e ele atinge um certo ponto onde ultrapassa um nível crítico e se torna vapor. Isso é transição de fase. E é a mesma coisa com nossas mentes, nossos entendimentos. As forças positivas das ações construtivas se conectam e geram um potencial cada vez mais forte, de modo que, eventualmente, superamos todos os nossos obstáculos mentais e emocionais e obtemos um novo nível de entendimento. É assim que funciona.

Faz muito sentido se você pensar mais profundamente. Quando pensamos egoisticamente em nós mesmos, eu, eu, eu, eu, nossa mente está fechada. Temos muito medo e desconfiança, como um cachorro que rosna sobre o osso, sentindo que alguém vai levá-lo embora. Quando nossa mente está muito fechada e nossas emoções também estão muito fechadas, nós realmente não conseguimos entender muita coisa. Há um bloqueio mental. Mas quando fazemos coisas para os outros, em um escopo muito grande, e não pensamos em nós mesmos, em certo sentido, estamos nos abrindo mental e emocionalmente. Nos tornamos mais abertos mental e emocionalmente e, se essa abertura se desenvolver com força suficiente, podemos superar os bloqueios mentais e emocionais que nos impedem de entender as coisas.

Faz sentido. Mas, de acordo com os ensinamentos, precisamos gerar essa força positiva por três zilhões de éons. Essa é a resposta que você não vai gostar. Literalmente, a palavra zilhão significa incontável, mas isso não significa que seja incontável. É apenas o maior número finito no sistema matemático indiano. O ponto é que você precisa criar uma quantidade enorme dessa força positiva e isso leva muito tempo. Então seja paciente. Não espere resultados instantâneos.

E quando lemos nos sutras Mahayana - não sei se algum de vocês leu algum deles -, mas às vezes diz, por exemplo, que se você recitar isso, acumulará dezesseis bilhões de éons de força positiva, e se você recitar aquilo, são 23 milhões, nos dão esses números incríveis. Eu não acho que isso deva ser considerado literalmente. Mas acho que é muito bom para nos ajudar a entender que não estamos falando em acumular três zilhões dia após dia. Certamente, existem coisas que podemos fazer que acumularão uma quantidade tremenda de força positiva. Eles dão um número para incentivar as pessoas, mostrar que você pode realmente fazer isso. Dizer que você acumula 32 milhões de éons de força positiva é algo considerável. É um meio hábil.

Portanto, esses três zilhões devem nos levar a estágios cada vez mais avançados, até que tenhamos cognição não-conceitual, e até que tenhamos a remoção completa de todos os obscurecimentos. E cada uma das várias escolas terá uma opinião diferente de como isso funciona, então não vamos entrar nisso. Ok?

Qual é o papel da meditação nisso?

Você precisa entender que temos um processo triplo, três etapas. Primeiro, precisamos ouvir uma explicação, uma explicação correta e, com base nisso, obtemos a consciência discriminativa que vem da escuta. É isto que está sendo ensinado. É isto, e não é aquilo. Ficamos muito certos disso, confiantes de que isto é o que está sendo ensinado, isto é o que está sendo explicado. Você precisa disso primeiro, caso contrário, não saberá se ouviu direito ou se essa é a explicação correta.

Depois, temos que pensar sobre o que foi ensinado. Esse é o segundo passo. Então, primeiro temos apenas as palavras, estas são as palavras do ensinamento. Isso vem da escuta. Agora, precisamos do significado das palavras e usamos o processo de pensar. O resultado do processo de pensar é entender o que as palavras significam, e não apenas quais são as palavras. Percebemos conceitualmente as palavras através de uma categoria de significado e trabalhamos para entender o que elas significam. A escuta ocorreu por meio de uma categoria de áudio, se foi escrito neste script, ou naquele script, ou falado, etc. Tudo isso está na categoria “palavras do ensinamento”, e agora tudo entra na categoria “significado”.

Nós não só precisamos entender corretamente o que os ensinamentos sobre a vacuidade significam, como também precisamos estar convencidos de que fazem sentido, precisamos acreditar que é verdade. Eu posso entender um absurdo completo, e não acreditar que é verdade. Nós não estamos falando disso. Temos que estar convencidos de que se realmente conseguíssemos internalizar isso, seria benéfico. E mais, temos que ter a aspiração, a motivação para querer fazer isso.

Então podemos meditar. Esse é o próximo passo. A meditação é um processo repetitivo, que você faz repetidamente. Geralmente usamos a palavra prática, como praticar piano, na qual tentamos novamente gerar essa compreensão e confiança de que isso está correto e aplicar a alguma situação da vida. Tentamos discernir essa situação à luz desse entendimento.

Por exemplo, estou tendo problemas com alguém. As coisas não saíram como eu queria. Eu queria que minha interação com vocês fosse de uma determinada maneira e não foi. Estou chateado e culpo vocês e os organizadores, isso e aquilo, e o clima. Estou muito chateado e culpo todo mundo. Então, agora, com a meditação, sentamos e analisamos e temos essa análise do eu. Eu existo como algo sólido dentro de mim, dentro da minha mente, alguém cuja vontade deve sempre prevalecer? Por que as coisas sempre deveriam sair como eu quero? Quem disse que a minha vontade deveria sempre prevalecer? O que faz de "mim" a pessoa mais importante do mundo, cuja vontade deve sempre prevalecer? Isso é um absurdo. Isso é impossível. Tudo isso é baseado nessa convicção de que há um eu sólido sentado em algum lugar dentro da minha cabeça, com base numa imputação, que existe por si só e, portanto, está realmente sentado lá e acha que sua vontade deve sempre prevalecer. Não existe tal coisa.

Então, nos concentramos na meditação sobre a vacuidade disso e que eu não existo dessa maneira. A situação existe, eu certamente estou passando por ela, então posso rotular "eu" no que diz respeito a essa experiência individual. A situação surgiu na dependência de tudo que é tipo de causa e circunstância e, portanto, não há nada para se preocupar. Eu não posso colocar a culpa em nada. Então, não ficamos chateados com isso, com não ter saído do jeito que queríamos, apenas lidamos com a realidade da situação e tiramos o melhor proveito dela. Isso nos torna muito flexíveis. Se você pensa em termos de um “eu” sólido, de que é assim que eu quero, é assim que deve ser, tem que ser assim e não saiu como eu queria, você fica com muita raiva. E você diz coisas de que se arrepende e que são compulsivas. Você perde o controle.

Meditar significa construir algo construtivo, que seja um hábito positivo. Quanto mais repetimos, mais isso se torna um hábito, e eventualmente vamos aplicá-lo automaticamente em todas as situações e não vamos mais ficar chateados. Não precisamos nos sentar e nos acomodar antes de nos acalmar com essa meditação de desconstrução. Você pode fazer isso o tempo todo, em qualquer situação. Você só precisa se lembrar. Isso se chama atenção plena (ou presença mental). Hoje em dia, esse termo assumiu um significado diferente no Ocidente. Tornou-se apenas prestar atenção. Esse não é significado original. [O termo original] é a mesma palavra que lembrar. É a cola mental que impede você de esquecer alguma coisa. É sempre se lembrar, e não estamos falando de se lembrar de informações. Estamos falando de manter alguma coisa ativamente em nossa atenção. É por isso que eu descrevo como cola mental. Lembre-se sempre de que não existo dessa maneira impossível. Não há nada a ser protegido, então relaxe. OK?

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